O empresário Erasmo Carlos Battistella tem planos ambiciosos. Até 2030, quer se tornar o terceiro maior produtor de biocombustíveis do mundo. Aos 43 anos, o filho de agricultores nascido na pequena cidade gaúcha de Itatiba do Sul e que começou a carreira como dono de postos de gasolina trabalha para justificar o apelido que ganhou com o seu tino para negócios: “rei do biodiesel”.

Battistella entrou no ramo em 2005 e atualmente é dono da empresa que mais produz esse tipo de combustível no Brasil, a BSBios. Só ela faturou mais de R$ 5,3 bilhões em 2020 e contribuiu para a expansão do Grupo ECB, o conglomerado que leva no nome as iniciais de Battistella, inclusive para o Paraguai. O empresário certamente não seria tão bem sucedido, porém, não fossem alguns empurrões da maior estatal brasileira, a Petrobras.

Em 2009, Battistella vendeu à petrolífera 50% da propriedade de uma usina de biodiesel de Marialva por R$ 55 milhões. Foi um negocião: ele a havia comprado, ainda em obras, por R$ 37 milhões – ou seja, 67% do valor que a Petrobras pagou por metade dela.

Poucos anos depois, quando a estatal resolveu desfazer a sociedade com a BSBios (que, àquela altura, já era dona de duas usinas produtoras de biodiesel), Batistella conseguiu tirar um concorrente do caminho e voltou a ser o único dono da empresa.

Para isso, pagou um valor equivalente ao lucro que a empresa afere num ano – em 2020, a BSBios registrou lucro líquido de R$ 311 milhões, pouco menos que os R$ 322 milhões que o empresário desembolsou para recomprar os 50% que eram da estatal. E, segundo uma denúncia em apuração pelo Ministério Público Federal, o preço cobrado pela Petrobras sequer levou em consideração investimentos realizados por ela no negócio.

Agora, Battistella quer mais. O empresário, que gosta de ostentar encontros com o presidente Jair Bolsonaro em redes sociais e viaja a passeio em seu jatinho particular, quer comprar a Petrobras Biocombustíveis, uma subsidiária da estatal criada para atuar no negócio em que a BSBios atua.

A PBio, como é conhecida, foi posta à venda pela direção da Petrobras com alarde. Mas o anúncio não menciona o brinde bilionário que cairá no colo de quem comprar a empresa.

Entre seus ativos, a PBio tem um crédito tributário de cerca de R$ 2,3 bilhões, algo que não foi mencionado pela Petrobras no seu comunicado público sobre a venda da subsidiária. O valor do crédito, inclusive, está no balanço patrimonial da empresa de 2019.

A história não é simples, mas vou tentar resumi-la: ao longo de seus 13 anos de operação, a PBio tem um saldo negativo – ou seja, um prejuízo – acumulado de R$ 2,3 bilhões. Essa perda poderá ser compensada com um abatimento equivalente no pagamento de impostos. Isto é: quando a empresa tiver lucro, ela poderá deixar de recolher impostos até zerar suas perdas bilionárias.

Algo que ainda não ocorreu, pois a empresa não teve até hoje lucros suficientes para tanto. Assim, os créditos tributários seguem a ser um dos ativos da empresa e serão vendidos junto com ela.

A perspectiva é animadora para os potenciais compradores. Ainda que a PBio demore a gerar lucros, os créditos de R$ 2,3 bilhões seguirão disponíveis no futuro. É possível, inclusive, que o comprador leve para a PBio ativos (por exemplo, usinas que hoje fazem parte de outras companhias) que sejam lucrativos e assim passe a ter direito a usar os créditos acumulados pela subsidiária da Petrobras e assim recolher menos imposto de renda e contribuição social.

A Federação Nacional dos Petroleiros escrutinou o comunicado público sobre a venda da PBio, os balanços da empresa e notou a existência do crédito tributário, bem como a ausência dele no informe da Petrobras. Por isso, ajuizou ação civil pública na justiça do Rio de Janeiro para suspender a negociação da PBio. Até o momento da publicação desta reportagem, não houve decisão judicial no caso.

Se Batistella de fato comprar a PBio, ganhará de brinde um crédito tributário equivalente à metade do faturamento da BSBios em 2020. E, assim, o “rei do biodiesel” terá dado o maior passo de sua carreira.

Esta reportagem faz parte de um projeto do Intercept que investiga iniciativas do governo Bolsonaro que interferem na gestão e nos serviços públicos e conta com o apoio do Republica.org.

ErasmoCarlosBattistella_ECBGroup

Erasmo Carlos Battistella: ele começou como dono de postos de gasolina, foi sócio da Petrobras e, aos 43 anos, quer comprar uma subsidiária da estatal.

Foto: Divulgação/Erasmo Carlos Battistella

Primeiro ato: a sociedade com a Petrobras

Erasmo Carlos Battistella se tornou sócio da Petrobras quando a PBio comprou da BSBios a metade do capital de uma usina de biocombustíveis que a empresa possuía em Marialva, no Paraná. O negócio foi fechado em novembro de 2009 e custou R$ 55 milhões à estatal. Na época, a companhia via no biodiesel uma forma de diversificar seus negócios e contribuir com um projeto do então presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Lula criou o Programa Nacional de Biodiesel. A partir dele, a Petrobras criou uma subsidiária só para atuar no setor: a PBio. A subsidiária construiu usinas para produção do combustível vegetal, que foram inauguradas em cerimônias com a presença do então presidente.

A primeira delas foi inaugurada em julho de 2008, em Candeias, na Bahia. Em agosto daquele ano, veio a segunda, em Quixadá, no Ceará. Já em abril de 2009, a terceira unidade começou a operar em Montes Claros, em Minas Gerais.

Meses depois, ainda em 2009, a subsidiária já estava negociando com Battistella a compra de parte da usina de Marialva. A usina havia sido comprada pelo empresário meses antes, quando ainda estava em fase final de obras, de uma empresa que estava em recuperação judicial, a Agrenco. A Batistella, a planta toda custou R$ 37 milhões, segundo investigações posteriores sobre o negócio – ou seja, quase 30% menos do que o valor pago pela Petrobras por 50% da unidade.

A discrepância entre valores pagos pela BSBios e pela Petrobras pela mesma usina chamou a atenção já em 2014, ano que também marcou o início da operação Lava Jato. A usina de Marialva logo ganharia de um ministro do Tribunal de Contas da União, o TCU, um apelido: “mini Pasadena”. Tratava-se de uma alusão à refinaria dos Estados Unidos comprada pela estatal, em 2006, pelo valor superfaturado de 1,2 bilhão de dólares, com base em informações incorretas.

Naquele mesmo ano, o TCU foi acionado pelo então deputado federal Paulo Feijó, na época do PR (atual PL) do Rio de Janeiro, para investigar o caso da usina de Marialva. Uma auditoria interna do tribunal confirmou os valores suspeitos do negócio. Com ela em mãos, o TCU cobrou informações da estatal.

“Em meados de 2009, [a BSBios] a adquiriu [a usina] sozinha por R$ 35.730.000. Não se pode olvidar que o montante pago pela BSBio Sul se refere a uma planta cujas obras não estavam encerradas. Assim, sendo conservador e considerando que as obras estavam apenas 75% concluídas, é possível se fazer a projeção de que as obras integralmente acabadas chegariam à cifra de R$ 47.640.000 (R$ 35.730.000/75%)”, escreveu o ministro José Jorge, relator do caso.

“Dito isto, considerando ainda que a Petrobras Biocombustíveis, aproximadamente seis meses depois, adquiriu 50% dessa planta por R$ 55.000.000, torna-se recomendável a apresentação de novos elementos pela PBio”, ele decidiu. Ex-senador pelo DEM antes de ser guindado ao TCU, foi justamente Jorge quem classificou o negócio como uma “mini-Pasadena”.

Em 2016, a Controladoria-Geral da União, CGU, também realizou uma auditoria especial sobre os negócios da Petrobras com a BSBios. Apontou problemas na compra da usina de Marialva e também suspeitas envolvendo a aquisição de uma segunda planta da empresa, a de Passo Fundo, no Rio Grande do Sul, em 2011.

Já a Lava Jato preferiu fechar os olhos para o negócio suspeito. Os nomes de Batistella e da BSBios sequer aparecem nas centenas de chats e grupos de conversa dos procuradores no aplicativo Telegram.

A compra da metade da usina de Passo Fundo custou R$ 200 milhões à Petrobras, segundo TCU e CGU. Auditorias da Controladoria da União consideraram que o negócio foi realizado sem estudos técnicos, avaliações de consultorias e outros procedimentos geralmente adotados pela estatal para aquisições do tipo. Eu enviei três e-mails à assessoria de imprensa da CGU perguntando qual o resultado final dessas auditorias. Nunca recebi resposta.

Procurada via assessoria de imprensa, a Petrobras me informou que os procedimentos na CGU e no TCU foram arquivados depois que ex-presidentes da PBio prestaram esclarecimentos aos órgãos e apontaram que não houve “prejuízo ao erário nas aquisições das usinas”.

Recomprar a fatia da Petrobras nas usinas custou a Battistella apenas 26% mais do que a estatal havia pago 10 anos antes.

De fato, em 2020, o TCU voltaria a avaliar os negócios da Petrobras Biocombustíveis com a BSBios, agora sob um novo relator – José Jorge se aposentou em 2014. Seis anos depois de indicar irregularidades nas compras de usina, o tribunal ouviu todos os dirigentes da estatal envolvidos no caso e dessa vez concluiu que não houve nada de errado com os negócios.

“Em vista das considerações apresentadas, entendo afastadas as suspeitas de antieconomicidade na aquisição pela PBio de 50% de participação nas usinas de biodiesel de Marialva, em 2009, e de Passo Fundo, em 2011, pertencentes à BSBios, ante os esclarecimentos apresentados pela PBio e pela Petrobras”, ponderou o ministro Vital do Rêgo, novo relator do processo. Rêgo, um ex-senador pelo PSB da Paraíba, foi alçado ao cargo de ministro da corte de contas em 2014.

Battistella e suas empresas não foram parte dessa análise do TCU. Mesmo assim, o grupo do empresário ratificou que a venda de suas usinas à PBio foi regular quando eu o questionei sobre os negócios. A respeito da usina de Marialva, o grupo disse a comprou “abandonada, em processo de deterioração, em razão do abandono pela sua então proprietária [a Agrenco]”. Já a PBio, segundo a ECB, adquiriu parte da usina “pronta para operar, com a conclusão de todas as obras necessárias e obtenção de todas as licenças”, além de “fluxo de caixa virtualmente garantido com a venda do biodiesel a ser produzido na usina”.

“Na aquisição junto à Agrenco, a avaliação foi [feita] com base no valor dos ativos, ao passo que, na operação societária com a PBio, a avaliação é pelos fluxos de caixa futuros”, complementou a BSBios, que considera que a sociedade foi um bom negócio para a Petrobras.

Antes mesmo de o TCU encerrar o processo sobre a compra das usinas, no entanto, a Petrobras já havia desistido da sociedade. Em 2016, já sob o comando de Pedro Parente, indicado por Michel Temer, a estatal decidiu rever os investimentos em biocombustíveis e informou ao mercado que sairia do ramo para se dedicar prioritariamente à exploração e refino de petróleo.

Eram outros tempos. A companhia vivia uma crise de endividamento e sofria com os impactos da Lava Jato, que já havia prendido alguns de seus principais executivos. Por isso, reduziu em 25% os investimentos programados para os próximos cinco anos e resolveu dedicar-se somente àquilo que melhor sabia fazer, segundo o próprio Parente.

“Claramente não somos os melhores operadores deste tipo de produto [o biocombustível]”, justificou o executivo à época. “A gente tem que ter humildade de reconhecer que tem gente que faz isto melhor do que nós”.

Seguindo essa nova diretriz, a Petrobras colocaria à venda sua participação nas duas usinas da BSBios, que haviam custado pelo menos R$ 255 milhões, segundo relatórios do TCU e CGU.

Battistella novamente sairia ganhando.

barao-combustivel-1

Ilustração: Mariana Andrello para o Intercept Brasil

Segundo ato: a recompra por pechincha

Em dezembro de 2019, a Petrobras finalmente divulgou ao mercado informações sobre a BSBios, em busca de interessados em comprar a participação da estatal na companhia. Naquele momento, a empresa de Battistella era dona apenas das duas usinas de produção de biodiesel das quais a Petrobras Biocombustíveis havia se tornado sócia anos antes.

De acordo com o comunicado da Petrobras, toda a BSBios estava à venda. Tanto a estatal, detentora de metade da companhia, quanto o grupo de Battistella, dono do restante, queriam se desfazer da empresa. O processo de negociação das usinas seria tocado exclusivamente pela Petrobras.

“A PBio detém 50% de participação na BSBios e realizará a venda em conjunto com a sua sócia, a RP Biocombustíveis S.A [razão social de uma das empresas de Battistella], que detém os 50% restantes”, informou a petroleira. “A operação ocorrerá por meio de processo competitivo conduzido exclusivamente pela PBio, visando à venda de 100% das ações da BSBios, seguindo a Sistemática de Desinvestimento da PBio”.

Não demorou muito a surgirem interessados na compra da BSBios. Foram ao menos 20 empresas, segundo me informou a Petrobras, que não divulga o nome delas por haver termos de confidencialidade firmados. Mas o grupo Potencial, uma distribuidora de derivados de petróleo sediada no Paraná que também atua na área de biocombustíveis e é dona de uma usina de biodiesel no estado, estava interessado nas usinas. A empresa viu nas plantas à venda uma oportunidade.

Aí Battistella recuou. Além da BSBios, ele tem negócios de exportação e importação de biocombustíveis. Com a Potencial assumindo as usinas da BSBios, ele passaria a ter de comprar os produtos que exporta de terceiros. O “rei do biodiesel” resolveu desistir da venda.

A Potencial chegou a comunicar a Petrobras sobre seu interesse nas usinas de Marialva e Passo Fundo. Antes de apresentar uma proposta formal de compra, porém, iria desistir do negócio por não querer se tornar sócia de Battistella.

“Sempre temos interesse em oportunidades de crescimento nos segmentos em que atuamos. O interesse no negócio [de compra da BSBios] do Grupo Potencial não avançou desde o momento que soubemos que a venda era de apenas 50% da planta em questão e não 100%”, informou a Potencial, em nota enviada por sua assessoria de imprensa, depois que a questionei sobre a desistência.

Afastada a concorrência da Potencial, Battistella não só manteve a sua participação na BSBios como também comprou a parte da Petrobras, retomando o controle das duas usinas. A recompra delas custou R$ 322 milhões ao “rei do biodiesel”. Isto é: 26% a mais do que ele havia recebido da Petrobras pelas unidades até 2011.

Petroleiros dizem que preço das usinas não considerou investimentos feitos pela Petrobras.

O grupo de Battistella informou que, desde o anúncio da intenção da PBio sair da BSBios, existia a possibilidade do empresário comprar a parte da Petrobras na empresa. Disse, ainda, que ele não manobrou para tirar concorrentes do negócio. Seja como for, os valores da transação e a forma como ela se deu levantaram suspeitas no Sindicato dos Petroleiros do Rio de Janeiro. A entidade encaminhou ao Ministério Público Federal, também do Rio, um pedido de investigação do caso. Ou seja – pediu para o que o órgão fizesse o que a Lava Jato deixou de fazer.

Desta vez, um procedimento para analisar a venda foi aberto, mas corre sob sigilo. O MPF está chamando funcionários da Petrobras que atuaram no negócio para prestar esclarecimentos, de acordo com o que me informaram os advogados do sindicato. A Petrobras confirmou a investigação, ao me dizer que entregou informações ao MPF em setembro passado. Segundo sua assessoria, a estatal seguiu todos os procedimentos previstos na legislação e no que chama de Sistemática para Desinvestimentos de Ativos e Empresas da Petrobras Biocombustível para a revenda das usinas. O Grupo ECB me informou que o negócio seguiu a tal sistemática de desinvestimento, “já discutida e chancelada pelo TCU”. O conglomerado prestou esclarecimentos ao MPF sobre a compra em agosto.

Para o sindicato dos petroleiros, no entanto, houve conflito de interesses no negócio. Funcionários da estatal trabalhavam a serviço da Petrobras Biocombustíveis na BSBios. Na BSBios, eles conviviam com empregados de Battistella. Poderiam, portanto, passar informações sigilosas da Petrobras a empregados do “rei do biodiesel”, de forma a mantê-lo informado sobre tratativas da venda da BSBios a concorrentes dele.

Petrobras e BSBios negam. A estatal me disse que um acordo foi assinado entre PBio, BSBios e a empresa de Battistella, “visando garantir a igualdade de condições entre os participantes e a regularidade do processo competitivo de alienação da BSBios”.

Informou, ainda, que seus empregados “foram indicados para o exercício de funções de administração na BSBios, em função da composição societária da empresa dentro das normas aplicáveis no direito societário, e não na RPBio [empresa de Battistella]”. “Ainda sobre esse ponto, é importante registrar que a CVM [Comissão de Valores Mobiliários, órgão regulador do mercado de capitais] já teve a oportunidade de analisar o assunto, não tendo identificado, ao final, indícios de conflito de interesse ou abuso”, argumentou a estatal.

Já o Grupo ECB disse que a alegação do sindicato é “genérica” e não identifica fatos que caracterizam conflito de interesse. “A circunstância de que certas pessoas mantêm contato em razão de suas funções não significa que discutirão qualquer assunto impróprio, especialmente se os indivíduos envolvidos podem [vir a] ser severamente punidos por eventual conduta inadequada”, argumentou, via assessoria de imprensa.

O segundo problema apontado pelos petroleiros ao MPF é que a Petrobras vendeu sua parte da BSBios a Battistella sem considerar no preço das usinas os investimentos que fez para aumentar a capacidade de produção delas. No comunicado sobre a intenção de venda da BSBios, a Petrobras informou que cada usina da empresa tinha capacidade de processar até 1.150 metros cúbicos de biodiesel por dia – isto é, 1,15 milhões de litros diários do combustível.

A venda da BSBios a Battistella foi anunciada em dezembro de 2020. Em janeiro do ano seguinte, a Agência Nacional do Petróleo, que regula o mercado de combustíveis, publicou no Diário Oficial da União autorização para que a usina de Marialva passasse a produzir até 13% mais combustível – ou seja, até 1.300 metros cúbicos diários. Uma autorização semelhante foi dada, em fevereiro, para a usina de Passo Fundo.

O sindicato dos petroleiros denunciou ao MPF que o aumento de capacidade já era conhecido pelos funcionários da Petrobras cedidos à BSBios e deveria ter sido incluído no preço da empresa. Mas, ainda segundo o sindicato, isso não aconteceu.

“A prova de que o aumento de capacidade não foi considerado no preço desta venda é o próprio teaser de venda, que informa uma capacidade 13% menor que a instalada no ato da venda, tal como o comunicado ao mercado da efetivação da venda”, acusou o sindicato no documento enviado ao MPF.

Participação da Petrobras nas usinas valia R$ 617 milhões. Mas Battistella pagou apenas R$ 322 milhões.

Questionada a esse respeito, a Petrobras nada respondeu. Battistella, por sua vez, disse via assessores de imprensa que a afirmação do sindicato é “leviana”, “feita por quem não tem conhecimento dos detalhes da transação”.

A ECB, no entanto, se nega a expor os tais detalhes do negócio e como o investimento no aumento da capacidade das usinas foi considerado no preço delas. “Infelizmente, o ECB Group está impedido de esclarecer como este investimento influenciou na precificação”.

O sindicato também aponta que o problema na precificação da BSBios vai além da questão de sua capacidade de produção. Teria havido, durante o processo de venda, diferenças de avaliação da empresa por consultorias contratadas pela Petrobras para execução desse serviço. Esses relatórios são sigilosos. O que é público, no entanto, é que a Petrobras vendeu metade da BSBios por um valor pouco maior que o lucro líquido da companhia em 2020 –R$ 311 milhões.

Esse montante não está fora do padrão de ganhos da empresa. Quando a Petrobras anunciou que a BSBios seria vendida, informou que, em 2018, o lucro bruto da companhia havia sido de R$ 318 milhões. Além disso, a estatal pontuou que as receitas da empresa vinham crescendo durante os últimos anos da sociedade com Battistella, e que as dívidas eram cada vez menores.

A Petrobras argumentou que o processo de venda das usinas da BSBios respeitou todos os procedimentos da empresa. “No âmbito do processo de desinvestimento [da PBio], a proposta feita pela RPBio [empresa de Battistella] estava de acordo com a Process Letter, tendo sido classificada conforme critérios objetivos previamente definidos e aprovados pela diretoria executiva da Petrobras Biocombustível”, declarou, via assessoria, em resposta a meus questionamentos a respeito do negócio.

“Além disso, conforme determina a Sistemática de Desinvestimentos, foram contratadas instituições financeiras independentes para a emissão de parecer sobre o valor”, informou a estatal. “O processo de aprovação da transação passou pela Governança da Petrobras Biocombustível e da Petrobras, com avaliação das áreas de Conformidade de ambas as empresas”.

O grupo de Battistella confirmou o processo e informou que o valor atribuído a 100% da BSBios foi de R$ 1,235 bilhão na data de 30 de novembro de 2020 – ou seja, a fatia da Petrobras valia R$ 617,5 milhões naquela data. Os assessores do empresário disseram que ele pagou R$ 322 milhões porque foram descontados do valor da empresa parte da dívida líquida da BSBios, além de “demais ajustes de preços”.

Enquanto isso, a BSBios continua a crescer. Em abril deste ano, anunciou que expandirá seus negócios para o Paraguai, país presidido Mario Abdo Benítez, político alinhado com Bolsonaro. O governo paraguaio firmou um contrato com Battistella pelo qual concede incentivos fiscais para que ele construa no país uma usina de biocombustível avaliada em até US$ 1 bilhão – ou seja, mais de R$ 5 bilhões.

Battistella não parou por aí. No Brasil, já identificou uma nova oportunidade de ampliar seu domínio sobre o setor de biocombustíveis: comprar sua antiga sócia, a PBio.

Refinaria de petróleo da Petrobras: ao abrir mão do mercado de biocombustíveis, a estatal abriu espaço para Battistella fazer bons negócios – com ela mesma – e crescer rapidamente no setor.

Refinaria da Petrobras em Cubatão, São Paulo: ao abrir mão do mercado de biocombustíveis, a estatal abriu espaço para Battistella fazer bons negócios – com ela mesma – e crescer rapidamente no setor.

Foto: Miguel Schincariol/AFP via Getty Images

Terceiro ato: controlando o ex-sócio

A Petrobras oficializou sua intenção de vender sua subsidiária do setor de biocombustíveis em julho do ano passado. Assim como fez com a BSBios, um comunicado com informações básicas sobre a PBio foi divulgado pela estatal em seu site, abrindo o processo de negociação da empresa.

Por ser uma estatal, a venda de empresas ou negócios da Petrobras precisa passar por um processo competitivo e transparente, previsto no decreto 9.188/2017. Na prática, porém, a Petrobras negocia com interessados de forma sigilosa e só divulga o nome de quem comprou seus ativos após o término de cada negociação.

Fiz perguntas à estatal sobre a venda da PBio. A Petrobras não respondeu. Por isso, não é possível saber com exatidão que empresas estão interessadas na Petrobras Biocombustíveis. O que é certo é que Battistella está entre eles, apesar dele não confirmar o interesse quando o procurei.

Pessoas ligadas ao empresário já visitaram usinas que ainda pertencem à subsidiária da Petrobras para avaliar o negócio, segundo me informou uma servidora da estatal que pediu para não ser identificada por temer retaliações. Funcionários da PBio com quem conversei e que me pediram para não ter os nomes revelados pelo mesmo motivo já dão como certo que a empresa será de Battistella.

Enquanto isso, Battistella busca estreitar laços com o governo federal, controlador da Petrobras. Em junho passado, o empresário, que também é presidente do conselho de administração da Associação dos Produtores de Biocombustíveis do Brasil, a Aprobio, esteve com Bolsonaro para entregar uma homenagem da entidade “por seu reconhecimento ao setor de biocombustíveis”.

Nas redes sociais, Battistella alardeia encontros com Bolsonaro, Ricardo Salles, Arthur Lira, Ricardo Barros e ministro do TCU.

Em setembro, Battistella recebeu pessoalmente, na sede de sua empresa, em Passo Fundo, o ministro do Meio Ambiente, Joaquim Alvaro Pereira Leite. Antes, em abril, havia se reunido com o antecessor de Leite, Ricardo Salles, que se demitiu para não ser preso em inquérito policial que investiga a norma que libera a exportação de madeira nativa sem necessidade de que o Ibama autorize. O caso foi denunciado pelo Intercept em 2020.

Battistella também esteve com outros três ministros e diversos parlamentares num evento da Frente Parlamentar Mista do Biodiesel, em maio. Naquele mês, ele se reuniu com o presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira, do PP de Alagoas, eleito para o cargo com o apoio de Bolsonaro, e comemorou com o deputado Ricardo Barros, do PP do Paraná, líder do governo na Câmara, um projeto de lei que institui o Programa Nacional dos Combustíveis Avançados Renováveis.

Em junho, Battistella esteve com o ministro Augusto Nardes, do TCU. Nardes também foi político: começou a carreira na Arena, partido que sustentou a ditadura militar, antes de chegar ao TCU em 2005 – à época, era deputado federal pelo PP do Rio Grande do Sul. Na corte, relatou em 2015 o processo que resultou na rejeição das contas de Dilma Rousseff.

Não se sabe sobre o que Nardes e o empresário conversaram. Mas a corte avalia, num processo que tramita em sigilo, sob a relatoria do ministro Walton Alencar Rodrigues, a venda da Petrobras Biocombustíveis. Um negócio em que um dos maiores interessados é o próprio Battistella.

Questionado sobre a possível compra da PBio, o Grupo ECB informou que “não está em posição de comentar publicamente sobre suas estratégias e planos futuros”. Já sobre a relação de Battistella com membros do governo, Congresso e TCU, o conglomerado declarou que “a atuação de Erasmo Carlos Battistella perante a administração está pautada pela ética e pela transparência”.

“Battistella é um homem honesto, vindo de uma família de pequenos agricultores do sul do país, e um empreendedor que construiu uma empresa que hoje está se internacionalizando”, elogiaram seus assessores. “Erasmo acredita que o seu trabalho, enquanto empresário e enquanto líder setorial, contribui para o desenvolvimento sustentável do país”.