Foto: Ricardo Stuckert

A imagem de Bolsonaro deslocado entre os chefes de Estado no G20 em Roma foi um retrato fiel da nova condição de pária do país no cenário internacional. Sem ideias, sem projetos, sem agenda, sem visão de futuro, o presidente evitou conversar com outros chefes de estado e preferiu iniciar uma conversa em português com garçons italianos.

À imprensa italiana, contou uma série de mentiras. Primeiro disse que Lula “quase faliu a Petrobras” e “foi financiado pelo narcotráfico”. Depois afirmou que conta com “um apoio popular muito grande” e apontou uma vigorosa retomada do crescimento da economia no Brasil. Na realidade, Bolsonaro atingiu recentemente o nível mais baixo da sua popularidade e a retomada do crescimento econômico é a pior entre todos os países do G20.

Durante o encontro, Bolsonaro ignorou solenemente Olaf Scholz, que, além de ser o atual vice-chanceler e ministro das Finanças da Alemanha, é o provável sucessor de Angela Merkel. Despreparado e ignorante, o brasileiro provavelmente nem sabia de quem se tratava. Scholz chegou a virar as costas diante da indelicadeza do brasileiro. Segundo a emissora alemã Deutsche Welle, o fato “não passou despercebido pela imprensa e foi usado como um exemplo do isolamento e do comportamento errático de Bolsonaro durante seu giro pela Itália”.

O principal tema no mundo hoje são as mudanças climáticas, mas, como sabemos, para Bolsonaro, isso é uma grande bobagem promovida por ONGs interesseiras. Ele se recusou a participar da Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, a COP26, e preferiu ir para Dubai, onde mentiu outra vez para o mundo ao dizer que a floresta amazônica não sofre com queimadas porque é úmida. No Qatar, não tinha nenhuma agenda relevante e resolveu fazer uma motociata fake. Fez um passeio de moto ao lado de meia dúzia de gatos pingados. Ao fim do evento, mentiu mais uma vez ao dizer que suas motociatas estão virando uma febre mundial.

Enquanto Bolsonaro se dedica a contar mentiras e a implodir pontes de diálogo com o mundo, o ex-presidente Lula, em uma semana na Europa, fez mais pela diplomacia internacional do país do que o atual no seu mandato inteiro. A turnê europeia de Lula começou em Berlim, onde se encontrou com Olaf Scholz, o chanceler que Bolsonaro ignorou. O ex-presidente ainda foi aplaudido de pé no Parlamento Europeu, recebido com honrarias de chefe de estado pelo presidente francês Emmanuel Macron e se encontrou com a prefeita de Paris e outros políticos e sindicalistas.

Na Espanha, Lula conversou com o primeiro-ministro espanhol Pedro Sánchez sobre interesses em comum dos dois países, a pandemia e mudanças climáticas — assuntos pelos quais Bolsonaro não tem o menor interesse. Ao contrário do atual presidente, o ex cumpriu uma agenda digna de um chefe de estado.

Muito se debateu nas redes sociais sobre a falta de cobertura que a imprensa brasileira fez sobre a viagem de Lula. Considero que a imprensa escrita fez uma cobertura razoável, mas a televisiva demorou para noticiar. Desde segunda, o petista vinha cumprindo uma agenda importante na Europa, que foi ignorada segunda e terça pelo jornal de maior audiência do país, o Jornal Nacional. Somente na quarta-feira, o JN resumiu a viagem de Lula em 30 segundos, mas de maneira tímida, e sem mencionar a ovação que recebeu no Parlamento Europeu. Na GloboNews, canal da TV fechada que pouca gente assiste, a cobertura foi maior e até que ganhou o devido destaque.

O grupo Prerrogativas, que reúne advogados e juristas ligados à defesa dos direitos fundamentais e da democracia, emitiu uma nota em que aponta o “menosprezo de grandes jornais e redes de comunicação brasileiros em relação à viagem do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva a países europeus não constitui apenas uma inexplicável lacuna informativa”. Para o grupo, “somente um propósito intencional justifica a omissão noticiosa destes órgãos de comunicação quanto aos significativos encontros mantidos por Lula com personalidades europeias nos últimos dias”.

Não há como negar a diferença de cobertura da viagem de Lula em comparação com a agenda recente de outros presidenciáveis. As prévias do PSDB, por exemplo, tiveram enorme espaço na grande imprensa, chegando a ter debate promovido pela Globo. A cerimônia de filiação de Sergio Moro ao Podemos também foi um grande evento midiático com amplo destaque. Pedro Bial, aquele que disse que só entrevistaria Lula com um polígrafo, entrevistou o candidato da extrema direita gourmet, o senhor Sergio Moro, rasgando elogios ao presidenciável, assim como já havia rasgado para o guru da extrema direita Olavo de Carvalho. Mesmo com um vasto histórico de mentiras contadas por Moro, Bial dispensou o polígrafo.

A forma como o ex-presidente Lula foi tratado pela imprensa internacional e por figuras importantes da política europeia é, na prática, um reconhecimento da perseguição jurídica que ele sofreu por juiz e procuradores com intenções de entrar para a política. Não me parece razoável imaginar que um líder direitista como Macron estenderia o tapete vermelho para um ex-presidente latino-americano condenado por corrupção. No Brasil, não há esse reconhecimento na mídia mainstream.

As reportagens da Vaza Jato, que trouxeram à tona a existência de um conluio jurídico contra o petista, são ignoradas. Aqui, Lula ainda é tratado por parte do colunismo um gângster que se safou das denúncias por meros erros de formalidade jurídica, o que é mentira. O jornal Metrópoles, por exemplo, aproveitou a passagem de Lula na Europa para endossar as condenações que foram anuladas pelo STF.

Ressaltar que a condenação do ex-presidente foi confirmada por uma instância superior é mais um reflexo de como a Vaza Jato continua sendo ignorada por boa parte da imprensa nacional. As reportagens comprovaram a existência de um conluio não só entre o procurador Dallagnol e o então juiz Sergio Moro, mas também um conluio com outras instâncias, como o TRF-4. Além disso, a condenação viciada na primeira instância, obviamente, contamina as demais e as induz ao erro.

O jornalista Reinaldo Azevedo, um dos raros jornalistas do mainstream que não ignora a Vaza Jato, lança frequentemente em seu programa diário um desafio que até hoje não foi topado por ninguém: “mostre em que página da condenação de Lula estão as provas”. Fica aqui o desafio ao Metrópoles.

O Antagonista, aquele site flagrado nas reportagens da Vaza Jato ajudando a Lava Jato a interferir na escolha do presidente do Banco do Brasil, está em franca campanha para alavancar a candidatura de Sergio Moro, a quem classifica como “o bom senso antissistema”.

Está claro que a grande imprensa, principalmente o Grupo Globo, vai se dedicar a empurrar goela abaixo da população um candidato de terceira via, com preferência para Sergio Moro. Há uma campanha em andamento para transformar o homem que até ontem sentava à mesa com líderes da seita de extrema direita nacional e internacional, como Olavo de Carvalho e Steve Bannon, em um candidato moderado de centro-direita. Ignorar a Vaza Jato, portanto, é fundamental para se cumprir essa tarefa.

Mas o mundo não a ignora. O tratamento que Lula recebe da imprensa e de figuras importantes da política mundial é diametralmente oposto ao que ele recebe no Brasil. Mesmo sem cargo público, até hoje é tratado como uma figura importante na geopolítica internacional.

Bolsonaro se elegeu atacando importantes parceiros comerciais do Brasil, batendo continência para bandeira americana e prometendo fazer do país um bichinho de estimação dos EUA. Essa estupidez transformou o Brasil em pária internacional e piorou até mesmo a relação com os americanos. Bolsonaro é desprezado mundo afora. Tanto a esquerda quanto a direita internacional têm ojeriza ao nosso atual presidente.

Ninguém tem dúvidas de que se trata de um líder autoritário, ignorante, grosseiro, incapaz de estabelecer uma mínima relação diplomática com outros países e tratar de assuntos importantes para todos os países. E o mundo também sabe que o presidenciável Sergio Moro foi o responsável por pavimentar a estrada para ascensão do fascismo bolsonarista. Aqui no Brasil, parte da grande imprensa finge ignorar esses fatos incontestáveis para poder turbinar o seu candidato lavajatista.