MORO-WANDO

Foto: Lula Marques/Agência PT

Em abril de 2017, o juiz Sergio Moro conversou com o procurador Deltan Dallagnol sobre uma investigação de caixa 2 do PSDB. O procurador deixou claro para o juiz que o objetivo seria passar uma imagem de imparcialidade, já que a operação era acusada de poupar os adversários do PT. Mas o então juiz, esse herói do combate à corrupção, preferiu evitar a fadiga: “Ah, não sei. Acho questionável pois melindra alguém cujo apoio é importante”. O juiz não era um político, mas já fazia alianças políticas com o PSDB. Os tucanos apoiavam firmemente os arbítrios da Lava Jato, já que a operação atropelava o PT — o partido para o qual já tinham perdido quatro eleições presidenciais seguidas.

Moro, portanto, mantém uma relação política com os tucanos desde os tempos em que era juiz. Nunca se constrangeu em aparecer ao lado de políticos do PSDB mesmo estando à frente de vários processos envolvendo seus adversários políticos. Era para ter sido um escândalo de grandes proporções, mas o lavajatismo que assola a imprensa nacional não permitiu. O então juiz, o paladino da moralidade na vida pública, cometeu sucessivas infrações ao Código de Ética da Magistratura ao se acochambrar com políticos tucanos.

Como esquecer de uma festa de premiação da revista IstoÉ em 2016, quando Moro apareceu sorrindo e cochichando ao pé do ouvido com Aécio Neves? Ou quando ele poupou o tucano Alvaro Dias das investigações da Lava Jato? Ou em 2015, quando o juiz apareceu em um evento da Lide, a empresa de lobby que pertence à família do tucano João Doria Jr., posando sorridente ao lado do ex-prefeito e do ex-deputado Fernando Capez, envolvido no escândalo da merenda em São Paulo? Capez foi posteriormente absolvido dessas acusações pelo STF.

Em evento do Lide em 2015, Moro posa ao lado dos tucanos Doria e Fernando Capez, envolvido no escândalo da merenda em São Paulo.

Em evento do Lide em 2015, Moro posa ao lado dos tucanos Doria e Fernando Capez.

Foto: Divulgação

Agora Moro parou de fazer politicagem nos tribunais e resolveu descer de vez para o play da política partidária. Enquanto juiz, combateu futuros adversários políticos nos tribunais e poupou potenciais futuros aliados. Agora, chega para ser o salvador da pátria como se não tivesse nenhuma responsabilidade pela calamidade que o país vive nos últimos anos.

Mesmo após se tornar o principal ministro de um governo autoritário, cheio de incompetentes com tendências fascistas, Moro pretende escapar da pecha de extremista como se nada tivesse acontecido, se vendendo como um direitista moderado. Um estelionato eleitoral que já está sendo construído meticulosamente pela grande mídia.

A chegada de Moro ao páreo ofuscou as prévias do PSDB, que até o momento se mostraram uma grande patacoada. O partido que quer governar o Brasil não foi capaz de realizar uma votação online com seus filiados. Enquanto o ex-superministro de Bolsonaro aparece nas pesquisas com 8% de intenções de voto, Doria aparece apenas com 4%. O fracasso das prévias tucanas coloca Moro em vantagem na disputa pela cabeça de chapa da chamada terceira via, que precisa de uma candidatura única para tentar chegar ao segundo turno, o que é bastante provável que aconteça. Eduardo Leite já sinalizou que poderia abrir mão da candidatura para se juntar a Moro tendo o ex-juiz como cabeça de chapa. Doria também sinalizou o mesmo. Resta saber se o ego do governador de SP aceitaria ser vice do ex-juiz.

A candidatura de Moro conta com um trunfo que nenhuma outra tem: o apoio quase vassalo da grande imprensa brasileira. Um dos efeitos disso é uma série de partidos de direita dispostos a se abrigar sob essa blindagem da candidatura lavajatista. Moro e o PSDB têm disputado os mesmos partidos para compor suas alianças partidárias. Ambos têm mantido conversas com o Cidadania, o Novo e o Patriota. O Cidadania ainda está dividido, já o Novo e o Patriota tendem a apoiar Sergio Moro. Segundo a presidente do Podemos, a deputada Renata Abreu, as alianças com esses dois últimos já fariam Moro ter mais tempo de propaganda na TV do que um candidato tucano.

Moro, um dos fundadores da chamada nova política, estreia na política partidária buscando alianças com partidos apinhados de políticos envolvidos em escândalos de corrupção. O próprio Podemos está cheio de esqueletos no armário. Dos 19 parlamentares do partido da Lava Jato, dez têm ou tiveram pendências com a Justiça. O deputado João Bacelar foi condenado a devolver aos cofres municipais de Salvador R$ 47,7 milhões que foram desviados por meio de uma ONG quando ele era secretário da prefeitura. O deputado José Nelto chegou a ter o mandato cassado após uma investigação da Procuradoria Regional Eleitoral de Goiás, em que foi acusado por compra de votos nas eleições de 2006.

Outro deputado do Podemos que foi alvo de investigação pelo Ministério Público é Diogo Garcia, acusado de comprar sua carteira de habilitação. Nem a presidente do partido lavajatista escapa. Renata Abreu é investigada pelo uso de candidatas-laranjas para que o partido atingisse a cota de 30% de mulheres na eleição de 2018. A Procuradoria Regional Eleitoral de São Paulo chegou a pedir a impugnação do seu mandato. O secretário-geral do partido, Luiz França, foi flagrado em vídeo recebendo R$ 38,4 mil em espécie em um esquema de propinas desvendado pela Operação Pandora.

Esses são alguns dos cavaleiros da tropa anticorrupção que acompanharão o herói Moro nessa cruzada contra os políticos corruptos. Há muitos outros além desses.Como mostrei aqui há um mês — e a imprensa lavajatista fez questão de ignorar —, a campanha de Moro nas redes sociais está sendo articulada por um político condenado por corrupção.

Essas contradições óbvias não constrangem Moro, que vive numa zona de conforto proporcionada pela sua principal aliada desde os tempos dos tribunais: a grande imprensa. O ex-juiz até agora não foi confrontado sobre os seus correligionários envolvidos em casos de corrupção, muito pelo contrário. Tem sido bajulado nas últimas entrevistas que deu. Nada indica que isso vai mudar.

O então prefeito de São Paulo João Doria, Bia Doria, Rosangela Moro e o juiz Sergio Moro, durante evento em Nova York.

O então prefeito de São Paulo João Doria, Bia Doria, Rosangela Moro e o juiz Sergio Moro, em evento em Nova York.

Foto: Reprodução/Instagram

No momento, parece improvável que o PSDB abdique de candidatura própria, mas, a depender do andar da carruagem, há grandes possibilidades desse cenário se alterar. Se Moro crescer nas próximas pesquisas eleitorais e for melhor sucedido na composição das alianças, o PSDB deverá se abrigar sob o guarda-chuva de Moro em uma candidatura única. Assim, o político Moro poderá desfrutar dos mesmos aliados que o juiz Moro não quis melindrar nos tribunais. Quem planta, colhe.

 

 

ATUALIZAÇÃO, 01/11, 14h49:
Este texto foi atualizado para constar que o ex-deputado tucano Fernando Capez foi absolvido das acusações do escândalo da merenda em São Paulo. O STF decidiu pelo encerramento da ação penal por considerar que a denúncia estava baseada no depoimento de apenas um colaborador, que depois teria desmentido a participação de Capez no caso.