UMA PROPOSTA DE FINANCIAMENTO redigida pela EcoHealth Alliance, uma organização sem fins lucrativos com sede nos Estados Unidos, enviada em 2018 à Agência de Projetos de Pesquisa Avançada de Defesa, ou DARPA, traz evidências de que o grupo trabalhava — ou pelo menos planejava trabalhar — em diversas áreas de pesquisa de alto risco. Entre as tarefas científicas que o grupo descreveu na proposta, que foi rejeitada pela DARPA, estava a criação de cópias infecciosas completos de coronavírus de morcego ligados à SARS, e a inserção de uma pequena parte do vírus conhecido como “local de clivagem proteolítica” nos coronavírus de morcego. O destaque fica por conta de um tipo de “local de clivagem” capaz de interagir com furina, uma enzima expressa em células humanas.

A EcoHealth Alliance não respondeu às perguntas sobre o documento, apesar de ter respondido a perguntas anteriores do Intercept em relação à pesquisa do grupo sobre coronavírus, financiada pelo governo americano. O presidente do grupo, Peter Daszak, reconheceu a discussão pública de uma proposta não financiada da EcoHealth em um tweet no sábado. Ele não negou a autenticidade da proposta.

Desde que o código genético do coronavírus que causou a pandemia foi sequenciado pela primeira vez, os cientistas ficaram intrigados com o “local de clivagem da furina”. Essa estranha característica na proteína spike (ou espícula) do vírus nunca havia sido vista em betacoronavírus relacionados à SARS, a classe à qual pertence o SARS-CoV-2, o tipo de coronavírus que causa a doença respiratória covid-19.

O local de clivagem da furina permite que o vírus se ligue e libere de forma mais eficiente seu material genético dentro da célula humana, e é uma das razões pelas quais o vírus é tão transmissível e nocivo. Mas os cientistas estão divididos em relação à forma como esse local específico acabou no vírus, e o local de clivagem se tornou o foco principal de um acalorado debate sobre as origens da pandemia.

Muitos dos que acreditam que o vírus que causou a pandemia surgiu de um laboratório apontam que é improvável que a sequência específica de aminoácidos que compõem o local de clivagem da furina tenha ocorrido de forma natural.

Os defensores da ideia de que o SARS-CoV-2 surgiu de um “transbordamento” natural vindo de hospedeiros animais dizem que o vírus pode ter evoluído naturalmente de outro vírus ainda não descoberto. Eles também argumentam que é improvável que os cientistas tenham criado tal variação.

“Não há nenhuma razão lógica para que um vírus criado utilize um local de clivagem de furina tão inferior ao ideal, o que exigiria uma façanha de engenharia genética incomum e de complexidade desnecessária”, escreveram 23 cientistas no início deste mês em um artigo na revista Cell. “Não há evidências de pesquisas anteriores no [Instituto de Virologia de Wuhan] envolvendo a inserção artificial de locais completos de clivagem de furina em coronavírus.”

Mas a proposta descreve o processo de busca por novos locais de clivagem de furina nas amostras de coronavírus de morcego coletada pelos cientistas, e sua inserção nos spikes de vírus relacionados à SARS feita no laboratório.

“Vamos introduzir locais de clivagem apropriados específicos para humanos e avaliar o potencial de crescimento em [um tipo de célula de mamífero geralmente usado em microbiologia] e culturas de HAE”, nome dado às células encontradas no revestimento das vias aéreas humanas, afirma a proposta.

A nova proposta, que também descreve um plano de vacinação em massa de morcegos em cavernas, não traz evidências conclusivas de que o vírus que causou a pandemia tenha surgido de um laboratório. Especialistas em vírus permanecem bastante divididos sobre suas origens. Mas vários cientistas que trabalham com coronavírus disseram ao Intercept que a proposta pode ter mudado o cenário do debate.

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Inclinando a Balança

“Algum tipo de limite foi ultrapassado”, disse Alina Chan, cientista de Boston e coautora do livro “Viral: The Search for the Origin of Covid-19” (Viral: a busca pela origem da covid-19, ainda não lançado). Chan tem se pronunciado sobre a necessidade de uma investigação minuciosa sobre a possibilidade de que o SARS-CoV-2 tenha surgido de um laboratório, embora se mantenha aberta às demais teorias possíveis acerca de seu desenvolvimento. Para Chan, a novidade revelada pela proposta foi que a descrição da inserção de um novo local de clivagem de furina em coronavírus de morcego — algo que as pessoas especulavam anteriormente, mas não tinham evidências – pode realmente ter acontecido.

“Olhando por um ponto de vista mais amplo: um novo coronavírus do tipo SARS surge em Wuhan com um novo local de clivagem. Agora temos evidências de que, no início de 2018, houve a proposta de inserção de novos locais de clivagem em novos vírus relacionados à SARS em seu laboratório”, disse Chan. “Isso com certeza inclina a balança para um lado, a meu ver. E acho que para muitos outros cientistas também.”

Richard Ebright, biólogo molecular da Universidade Rutgers que defende a possibilidade de que o SARS-CoV-2 possa ter sido originado em um laboratório, concorda. “A relevância disso é que o SARS Cov-2, o vírus pandêmico, é o único vírus em todo o gênero de coronavírus relacionado à SARS que contém um local de clivagem totalmente funcional na junção S1, S2”, disse Ebright, referindo-se ao local onde duas subunidades da proteína spike se encontram. “E agora temos uma proposta do início de 2018, propondo explicitamente a engenharia dessa sequência nessa posição em coronavírus quiméricos gerados em laboratório.”

‘Uma possível cadeia de transmissão agora tem uma lógica consistente – o que não existia antes de eu ler a proposta’.

Martin Wikelski, diretor do Instituto Max Planck de Comportamento Animal na Alemanha, cujo trabalho de rastreamento de morcegos e outros animais foi mencionado sem seu conhecimento no pedido de financiamento, também diz que isso o deixou mais aberto à ideia de que a pandemia pode ter suas raízes em um laboratório. “As informações da proposta com certeza mudam meus pensamentos sobre uma possível origem do SARS-CoV-2”, disse Wikelski ao The Intercept. “Na verdade, uma possível cadeia de transmissão agora tem uma lógica consistente – o que não existia antes de eu ler a proposta.”

Mas há quem defenda que a pesquisa representava pouco ou nenhum risco, apontando que a proposta exigia que a maior parte do trabalho de engenharia genética fosse feito na Carolina do Norte, e não na China. “Dado que o trabalho não foi financiado e não foi proposto para ser feito em Wuhan, é difícil avaliar qualquer influência sobre a origem do SARS-CoV-2”, Stephen Goldstein, cientista que estuda a evolução dos genes virais na Universidade de Utah, e autor do recente artigo na revista Cell, comentou em um e-mail para o Intercept.

Outros cientistas contatados pelo Intercept observaram que há evidências publicadas de que o Instituto de Virologia de Wuhan já estava envolvido em alguns dos trabalhos de engenharia genética descritos na proposta, e que os vírus projetados na Carolina do Norte poderiam ser facilmente usados na China. “É parte da rotina dos cientistas enviar uns aos outros por correspondência diversos pequenos envelopes com plasmídeo seco em papel de filtro”, disse Jack Nunberg, diretor do Centro de Biotecnologia da Universidade de Montana.

Vincent Racaniello, professor de microbiologia e imunologia da Universidade de Columbia, foi categórico ao afirmar que a proposta não mudava sua opinião de que a pandemia foi causada por um transbordamento natural de animais para humanos. “Não há dados para apoiar uma ‘ideia’ de origem em laboratório”, escreveu Racaniello em um e-mail. Ele disse acreditar que a pesquisa proposta tinha o potencial de se enquadrar na categoria de pesquisa de ganho de função, assim como um experimento detalhado em outra proposta de financiamento obtida pelo Intercept em 2021. O governo financia essas pesquisas, nas quais os cientistas intencionalmente tornam os vírus mais patogênicos ou transmissíveis para estudá-los, apenas em circunstâncias específicas. E a DARPA rejeitou a proposta, pelo menos em parte, devido a preocupações de que ela envolvesse tal tipo de pesquisa.

Embora Racaniello reconheça que a pesquisa na proposta da DARPA envolve algum perigo, ele disse que “os benefícios superam em muito os riscos”. Ele também disse que o fato de os vírus descritos na proposta não serem patógenos conhecidos diminui sua preocupação. “Isso não é SARS”, disse ele, referindo-se ao SARS-CoV-1, o vírus que causou um surto de 2003. “É relacionado à SARS.”

Mas o SARS-CoV-2 não é um descendente direto desse vírus — é um parente.

Na verdade, os vírus descritos na proposta de concessão, que foi postada pela primeira vez online pelo grupo de pesquisa DRASTIC, não eram de patógenos conhecidos. E os autores da proposta de financiamento defendem que, como os cientistas usariam vírus de morcego relacionados à SARS, e não o vírus da SARS que infecta humanos, a pesquisa estava livre das “preocupações com o ganho de função”. Mas, de acordo com vários cientistas entrevistados pelo Intercept, os vírus representam uma ameaça.

“O trabalho descreve a geração de coronavírus completos relacionados à SARS de morcego que, se acredita, possuem um risco de transbordamento humano. E esse é o tipo de trabalho que permite às pessoas defender, de forma plausível, que poderia ter levado a uma origem laboratorial do SARS-CoV-2”, disse Jesse Bloom, professor do Centro de Pesquisa em Câncer Fred Hutchinson e diretor do Bloom Lab, que estuda o evolução dos vírus. Bloom aponta que os cientistas reconhecem o risco para os humanos em sua proposta. “É um objetivo explícito da proposta de financiamento identificar os coronavírus relacionados à SARS de morcego que eles acham que representam o maior risco.”

Stuart Newman, professor de biologia celular que dirige o laboratório de biologia do desenvolvimento do New York Medical College, também disse que o fato de os vírus não serem conhecidos por serem perigosos não exclui a possibilidade de se tornarem perigosos. “Isso é bastante enganoso”, disse Newman sobre esse argumento. “As pessoas que defendem o surgimento natural dizem que tudo começou com um vírus de morcego que evoluiu para ser compatível com humanos. Se você usar essa lógica, esse vírus pode ser uma ameaça porque também pode fazer essa transição.” Newman, um crítico de longa data da pesquisa de ganho de função e fundador do Conselho de Genética Responsável, disse que a proposta confirmou alguns de seus piores medos. “Isso não é passar um pouco dos limites”, disse Newman. “Isso é fazer tudo o que as pessoas dizem ser capaz de provocar uma pandemia.”

Embora a proposta de financiamento não forneça a prova cabal de que o SARS-CoV-2 escapou de um laboratório, para alguns cientistas ela aumenta as evidências de que isso possa ter acontecido. “Se esse estudo específico levou ou não [à pandemia], certamente poderia ter levado”, disse Nunberg, do Centro de Biotecnologia de Montana. “Uma vez que você cria um vírus não natural, você está basicamente colocando ele em um ambiente evolucionário instável. O vírus vai passar por um monte de mudanças para tentar lidar com suas imperfeições. Então, quem sabe o que pode acontecer.” Os riscos de tal pesquisa são profundos e irreversíveis, disse ele. “Não é possível chamar o vírus  de volta depois de libertá-lo no ambiente.”

A DARPA, uma divisão do Departamento de Defesa, disse que a legislação a impedia de confirmar que a proposta foi avaliada. “Como a EcoHealth Alliance pode ou não ser a fonte direta do material em questão, e estamos impedidos pelos Regulamentos Federais de Aquisição de divulgar os licitantes ou quaisquer detalhes da proposta associada, recomendamos que você entre em contato com eles para confirmar a autenticidade do documento”, um porta-voz da DARPA escreveu em um e-mail para o Intercept. O jornal British Daily Telegraph informou que confirmou a legitimidade do documento com um ex-membro do governo Trump.

A matéria do Telegraph indicou de forma equivocada que os cientistas propuseram inocular morcegos com vírus vivos. Na verdade, eles queriam inoculá-los com proteínas S quiméricas, que tinham proposta de serem desenvolvidas por meio de um subcontrato no laboratório de Ralph Baric na Universidade da Carolina do Norte em Chapel Hill, não em Wuhan. Baric não respondeu ao pedido por comentários feito pelo Intercept.

Conflito de Interesses

Muitas dúvidas sobre a proposta continuam, inclusive se alguma das pesquisas nela descritas chegou a ser concluída. Mesmo sem o financiamento da DARPA, havia muitas outras maneiras possíveis de pagar pelos experimentos. E os cientistas entrevistados para este artigo concordam que, muitas vezes, os pesquisadores colocam em prática parte dos experimentos que descrevem nas propostas, antes ou depois de enviá-las.

“Trata-se de um grupo de pesquisadores altamente financiados, que não deixaria uma rejeição interromper seu trabalho”, disse Chan, autora de “Viral”.

Talvez a questão mais preocupante sobre a proposta seja por que, dentro do pequeno grupo de cientistas que busca informações que possam esclarecer as origens da pandemia, aparentemente, até agora, havia tão pouco conhecimento acerca do trabalho planejado. Peter Daszak e Linfa Wang, dois dos pesquisadores que enviaram a proposta, até então não reconheciam sua existência.

Daszak, presidente da EcoHealth Alliance, trabalhou para acabar com o interesse na ideia de que o novo coronavírus foi originado em um laboratório. Em fevereiro de 2020, quando a pandemia começou a atingir as principais cidades dos Estados Unidos, ele começou a organizar cientistas para escrever uma carta aberta, que foi publicada no Lancet, abordando as origens do vírus. “O compartilhamento rápido, aberto e transparente de dados sobre esse surto agora está sendo ameaçado por rumores e desinformação sobre suas origens”, dizia o comunicado assinado por Daszak e 26 coautores. “Estamos juntos para condenar fortemente as teorias da conspiração que sugerem que a covid-19 não tem uma origem natural.”

Daszak orientou e reuniu assinaturas para a carta, sempre sugerindo que ele e seus colaboradores no projeto proposto à DARPA, Baric e Wang, se distanciassem de tal esforço.

“Falei com Linfa [Wang] ontem à noite sobre a declaração que enviamos. Ele pensa, e eu concordo com ele, que você, eu e ele não devemos assinar esta declaração, para mantermos distância e, assim, ela não se volte contra nós”, escreveu Daszak a Baric em fevereiro de 2020, algumas semanas antes de aparecer na revista, de acordo com um email que veio à tona um ano depois pelo grupo de pesquisa investigativa de saúde pública US Right to Know. “Vamos publicá-lo de uma maneira que não fique vinculado à nossa colaboração, para que seja ao máximo uma voz independente.” Por fim, Daszak assinou a carta.

“Também acho que esta é uma boa decisão”, respondeu Baric. “Caso contrário, parece interesse próprio e perdemos impacto.”

Baric e Wang – professor do programa de doenças infecciosas da Escola Médica Duke-NUS, em Cingapura – não responderam às perguntas do Intercept sobre sua decisão de não assinar a carta no Lancet.

Daszak também foi membro da equipe conjunta que a Organização Mundial da Saúde enviou à China em fevereiro de 2020 para investigar as origens da pandemia, que concluiu que era “extremamente improvável” que o vírus tivesse sido liberado de um laboratório (em março de 2021, a OMS convocou uma investigação mais aprofundada das origens do vírus e afirmou que “todas as hipóteses permanecem em aberto”).

“Acho muito decepcionante que um dos membros da equipe conjunta OMS-China, que é essencialmente o grupo de cientistas encarregados como representantes da comunidade científica e da Organização Mundial da Saúde para investigar isso, tenha mesmo essa proposta, sabia que essa linha de pesquisa estava pelo menos sendo considerada, e não mencionou nada”, disse Bloom, da Fred Hutch. “Qualquer informação relacionada a ajudar as pessoas a pensar sobre o assunto precisa ser disponibilizada e explicada de forma transparente.”

Tradução: Antenor Savoldi Jr.