Olavo de Carvalho.

Ilustração: The Intercept Brasil; Folhapress

O pensamento olavista se baseia fundamentalmente em uma premissa conspiracionista: a existência de um complô internacional dos comunistas para dominar o mundo através da imposição de uma hegemonia cultural que romperá fronteiras, destruirá nações e colocará o mundo sob o comando de um governo único. Todas as outras ideias políticas de Olavo são subprodutos desse delírio que ele chama de “globalismo”. Olavo de Carvalho morreu, mas o olavismo sobrevive e continuará por muito tempo entre os brasileiros.

Apesar de não encontrar eco entre nenhum estudioso sério na academia, a conspiração fez a cabeça de muitos brasileiros através de artigos publicados por importantes veículos de imprensa como a Folha de S. Paulo, O Globo, Zero Hora, Bravo, República, Época e outros. O olavismo não é, portanto, simplesmente um fenômeno nascido na internet. O pensamento olavista foi impulsionado por parte da mesma grande imprensa que Olavo jurava estar a serviço do “globalismo”. Este conceito delirante não foi uma criação do guru da extrema direita. Trata-se de uma deturpação das ideias do filósofo italiano marxista Antonio Gramsci feita pela extrema direita americana, que passou a tratar o “marxismo cultural” como um fantasma a ser combatido em todo o mundo.

A ideia já estava presente no Brasil dentro das Forças Armadas desde os tempos em que Olavo aparecia nos jornais como um astrólogo. Durante a Guerra Fria, um livro secreto da ditadura militar, conhecido como Orvil, circulou entre os militares brasileiros. As ideias contidas nele são as mesmas que Olavo viria a popularizar anos mais tarde.

Não foi à toa que em 1999 Olavo foi condecorado pelo Comando do Exército e discursou no Clube Militar do Rio de Janeiro. Para o então ministro do Exército, general Gleuber Vieira, os artigos de Olavo na imprensa atestavam que Olavo era um homem “inteligente, prudente, equilibrado e de bom senso”. Em 2001, Olavo recebeu outra condecoração, dessa vez do Comando da Aeronáutica. Entre 2001 e 2002 ministrou uma série de palestras para os militares. Com a eleição de Lula em 2002, Olavo se mudou para os EUA, mas continuou colaborando com os militares brasileiros. A sintonia entre as ideias dos militares e do guru da extrema direita se dá há pelo menos duas décadas.

Nos anos 90 e 2000, Olavo aprofundou as paranoias dos militares originadas na Guerra Fria e documentadas no Orvil. No início dos anos 2010, o guru se tornou uma figura midiática quando passou a usar uma retórica de ódio em seus vídeos contra as esquerdas publicados no Youtube. A postura combativa e o palavreado chulo fizeram sucesso. Em agosto de 2013, durante o primeiro governo Dilma e na esteira dos grandes protestos das Jornadas de Junho, Olavo publicou o “O mínimo que você precisa saber para não ser um idiota”, um livro que reuniu uma série de artigos publicados na grande imprensa, todos partindo da falsa premissa do “globalismo”. O livro se popularizou, virou best-seller e forneceu a base intelectual para a nova extrema direita bolsonarista. Teorias obscuras que antes eram tratadas como secretas dentro das Forças Armadas começaram a ganhar popularidade. O resto da história vocês conhecem: Bolsonaro foi eleito e passou a comandar o país seguindo a cartilha conspiratória de Olavo em todos os setores do governo.

Com a ascensão dos militares ao poder junto com Bolsonaro, Olavo recebeu carta branca do ex-capitão para indicar ministros e funcionários do alto escalão do governo. Todos os nomeados foram alunos de Olavo e estavam alinhados às paranoias anti-globalistas dele e dos militares. Ernesto Araújo, Filipe Martins, Ricardo Vélez e Abraham Weintraub foram alguns dos mais proeminentes olavistas dentro do governo. Todos tiveram atuação trágica em suas funções e acabaram sendo escanteados pelo presidente. Nem para os propósitos do bolsonarismo eles serviram. O fracasso era previsível, já que quem toma decisões baseadas em alucinação tem dificuldades com as práticas do mundo real. Apesar de estarem focados numa mesma missão, o início do mandato bolsonarista ficou marcado por um antagonismo entre duas alas do governo: a dos olavistas e a dos militares. Foi um racha que não se deu por divergências ideológicas, mas por disputa de poder dentro do governo. Depois de trocarem alguns ataques públicos, a fervura baixou e as coisas se acomodaram novamente.

Se depender das entidades de ensino ligadas às Forças Armadas, as alucinações de Olavo vão continuar vivas nas mentes e corações das próximas gerações de brasileiros.

Se depender das entidades de ensino ligadas às Forças Armadas, as alucinações de Olavo vão continuar vivas nas mentes e corações das próximas gerações de brasileiros. Um trabalho de conclusão de curso intitulado “O Globalismo e o papel do Exército Brasileiro” foi apresentado em 2019 em um curso de especialização na Escola de Comando e Estado Maior do Exército (ECEME). O trabalho foi aprovado por uma banca examinadora formada só por militares. Segundo o autor, a pesquisa teve como objetivo “apresentar as estratégias globalistas, em particular o ambientalismo, o globalismo pedagógico e a revolução cultural, que tem como agentes os metacapitalistas encastelados nas Organizações Internacionais, como ONU e UNESCO”.

Na dedicatória, o milico agradece Olavo “por ter avisado sobre os perigos contra a nação, quando ninguém acreditava”. O nome do guru aparece pelo menos 17 vezes ao longo do trabalho. A pesquisa é um amontoado das ideias produzidas pela pseudociência de Olavo que tem como objetivo apontar o papel do Exército no enfrentamento dos agentes do “globalismo” comunista. Segundo o autor, os ataques dos globalistas aos estados-nação “atenta diretamente contra a missão constitucional da Força Terrestre de defesa da Pátria”. O estudo conclui que organizações internacionais, como a ONU, são agentes do globalismo para a “destruição das pátrias do mundo”: “Com destaque para a Unesco, os globalistas traçaram uma estratégia de mudança de atitudes e crenças por meio de técnicas de dominação psicológica embutidas nas normas pedagógicas a serem seguidas pelos países. As modificações no ensino foram realizadas de forma coordenada pelos Organismos Internacionais, principalmente no sentido de sua padronização. Este aspecto explica a decadência da educação no mundo todo, não apenas no Brasil, embora este último venha sendo degradado neste aspecto de maneira ainda mais acentuada que os demais”. O autor defende que o papel das Forças Armadas vai além do de fazer frente às ameaças de cunho bélico. Para ele, “é também papel das Forças Armadas fazer frente às ameaças difusas, ideológicas ou culturais (…), influenciando outras instituições e a Pátria como um todo” e, assim, “evitar este mal (globalismo) e conduzir o Brasil para o caminho da defesa de sua identidade e existência”.

Desde o golpe de 1964, o alto comando das Forças Armadas tem obtido sucesso na missão de tornar a ideologia de extrema direita hegemônica dentro das instituições de ensino militares e dos quartéis. Com o avanço das escolas militares impulsionado pelo governo, o cenário futuro é assustador. Olavo se foi, mas as suas convicções paranóicas baseadas em pseudociência seguirão fortes dentro da cultura dos militares brasileiros.