NO FINAL DE JANEIRO, os militares tomaram o poder em Burkina Faso, derrubando o presidente democraticamente eleito do país, Roch Marc Christian Kaboré.

O golpe foi anunciado na televisão estatal na segunda-feira, 24 de janeiro, por um jovem oficial que disse que os militares tinham suspendido a Constituição e dissolvido o governo. Ao seu lado estava sentado um homem em farda camuflada, que ele apresentou como o novo líder de Burkina Faso: o tenente-coronel Paul-Henri Sandaogo Damiba, comandante de uma das três regiões militares do país.

Damiba é um soldado altamente treinado, graças em grande parte ao exército dos EUA, que tem um longo histórico de preparar soldados da África que depois acabam promovendo golpes. Damiba participou em pelo menos meia dúzia de exercícios de treino dos norte-americanos, de acordo com o Comando Africano dos EUA, ou AFRICOM.

Em 2010 e 2020, ele participou em um programa anual de treino de operações especiais conhecido como exercício Flintlock. Em 2013, Damiba foi aceito em um curso de Treinamento e Assistência em Operações de Contingência na África, um programa de treinamento em manutenção da paz financiado pelo Departamento de Estado dos EUA. Em 2013 e 2014, Damiba participou do Curso de Oficial Básico de Inteligência Militar na África, patrocinado pelos Estados Unidos. Em 2018 e 2019, participou de compromissos com um Elemento de Apoio Civil Militar do Departamento de Defesa dos EUA em Burkina Faso.

Damiba é apenaso último de uma série de líderes golpistas da África Ocidental que foram treinados pelas forças armadas americanas, enquanto os EUA despejaram mais de US$ 1 bilhão em assistência de segurança para promover a “estabilidade” na região. Desde 2008, oficiais treinados pelos EUA tentaram pelo menos nove golpes (e foram bem-sucedidos em pelo menos oito) em cinco países da África Ocidental, incluindo Burkina Faso (três vezes), Guiné, Mali (três vezes), Mauritânia e Gâmbia.

Desde os anos 2000, os Estados Unidos têm destacado regularmente pequenas equipes de comandos para aconselhar, prestar assistência e acompanhar as forças armadas locais, mesmo em batalha; forneceram armas, equipamentos e aeronaves; ofereceram muitas formas de treinamento, incluindo o Flintlock, que é conduzido pelo Comando de Operações Especiais da África e focado no aumento das capacidades antiterroristas das nações da África Ocidental, incluindo Burkina Faso, Guiné, Mali, Mauritânia, Níger, Nigéria e Senegal.

“Quando os EUA priorizam o treinamento tático, nós ignoramos metas de longo prazo que poderiam criar governos mais estáveis”, disse Lauren Woods, diretora do Monitor de Assistência em Segurança, um programa da organização sem fins lucrativos Center for International Policy. “Precisamos de mais transparência e debate público sobre o treinamento militar estrangeiro que fornecemos”. E precisamos fazer um trabalho muito melhor pensando nos riscos a longo prazo – incluindo golpes e abusos das forças que treinamos”.

O AFRICOM enfatiza que sua cooperação de segurança e suas “atividades de capacitação” promovem o “desenvolvimento de militares profissionais”, que são disciplinados e comprometidos com o bem-estar de seus cidadãos. “O treinamento militar americano inclui módulos sobre a lei do conflito armado, subjugação ao controle civil e respeito aos direitos humanos”, disse a porta-voz do AFRICOM, Kelly Cahalan, ao Intercept. “As tomadas de poder por militares são inconsistentes com o treinamento e a educação militar dos EUA”.

Mas os golpes de Estado conduzidos por oficiais treinados pelos EUA têm se tornado uma ocorrência cada vez mais comum em Burkina Faso e em outros lugares da região.

‘Desde 2008, oficiais treinados pelos EUA tentaram pelo menos nove golpes (e foram bem-sucedidos em pelo menos oito deles) em cinco países da África Ocidental’.

No meio de 2021, por exemplo, os boinas verdes americanos chegaram à Guiné para treinar uma unidade de forças especiais liderada pelo coronel Mamady Doumbouya, um jovem oficial carismático que também serviu na Legião Estrangeira francesa. Em setembro, membros da unidade de Doumbouya tiraram um tempo de sua instrução ainda em andamento – em táticas de pequenas unidades, cuidados táticos de combate e a lei do conflito armado – para invadir o palácio presidencial e depor o presidente de 83 anos do país, Alpha Condé. Doumbouya logo se autoproclamou o novo líder da Guiné e os Estados Unidos encerraram o treinamento.

Em 2020, o coronel Assimi Goïta, que trabalhou durante anos com as forças de Operações Especiais dos EUA, participou dos exercícios de treinamento Flintlock e de um seminário da Universidade de Operações Especiais Conjuntas na Base Área MacDill, na Flórida, foi quem chefiou a junta que derrubou o governo do Mali.

“O ato de motim no Mali é fortemente condenado e inconsistente com o treinamento e educação militar dos EUA”, disse na ocasião o tenente-coronel Anton T. Semelroth, porta-voz do Pentágono.

Depois de promover o golpe, Goïta assumiu uma posição menor e ficou com o cargo de vice-presidente em um governo de transição encarregado de devolver o Mali ao governo civil. Mas, nove meses depois, ele tomou o poder novamente em seu segundo golpe.

Goïta nem sequer foi o primeiro oficial malinês treinado pelos EUA a derrubar o governo do país. Em 2011, quando um levante apoiado pelos EUA na Líbia derrubou o autocrata Muammar Gaddafi, os combatentes tuaregues a seu serviço saquearam os depósitos de armas do regime, viajaram ao seu país natal, o Mali, e começaram a tomar conta da parte norte do país. Indignado com a resposta ineficaz de seu governo, Amadou Sanogo – um oficial que aprendeu inglês no Texas, recebeu treinamento de inteligência no Arizona e passou pelo treinamento básico de oficiais de infantaria do exército na Geórgia – resolveu agir com as próprias mãos e derrubou o governo democraticamente eleito de seu país.

“Os EUA são um grande país com um exército fantástico”, ele disse após o golpe de 2012. “Eu tentei colocar em prática aqui todas as coisas que aprendi lá”.

Em 2014, outro oficial treinado pelos EUA, o tenente-coronel Isaac Zida, tomou o poder em Burkina Faso em meio a protestos populares. Dois anos antes, quando ainda era major, Zida participou de um curso de treinamento em contra-terrorismo na Base Aérea MacDill, que foi patrocinado pela Universidade de Operações Especiais Conjuntas, e participou de um curso de inteligência militar em Botsuana que foi financiado pelo governo dos Estados Unidos.

No ano seguinte, outro golpe em Burkina Faso instalou no poder o general Gilbert Diendéré. Ele não só tinha participado do exercício antiterrorismo Flintlock, liderado pelos EUA, mas também atuou literalmente como um garoto-propaganda, aparecendo em uma foto do AFRICOM dirigida aos soldados burquinenses antes de seu destacamento para o Mali em apoio ao exercício Flintlock de 2010.

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O então major Gilbert Diendéré se dirige aos soldados burquinenses antes de serem enviados ao Mali em apoio ao exercício Flintlock 10, do AFRICOM, em Ouagadougou, Burkina Faso, em 1º de maio de 2010.

Foto: U.S. Air Force Master Sgt. Jeremiah Erickson, Flintlock 10 Public Affairs

Em 2014, duas gerações de oficiais com formação nos EUA se enfrentaram na Gâmbia quando um grupo de golpistas treinados pelos EUA tentaram (mas não conseguiram) derrubar outro golpista treinado pelos EUA, Yahya Jammeh, que havia tomado o poder em 1994. A rebelião fracassada tirou a vida de Lamin Sanneh, o suposto líder do movimento, que havia obtido um mestrado na Universidade Nacional de Defesa, NDU na sigla em inglês, em Washington, D.C.

“Não posso ignorar a sensação de que o seu estudo nos Estados Unidos influenciou de alguma forma as suas ações”, escreveu o ex-mentor de Sanneh na NDU, Jeffrey Meiser. “Não posso deixar de pensar se simplesmente imprimir em nossos estudantes estrangeiros o ‘programa americano’ não é contraproducente e antiético”.

Em 2018, a agência de notícias militares Stars and Stripes informou que o general Mohamed Ould Abdel Aziz, líder de um golpe contra o presidente eleito da Mauritânia, “trabalhou com as forças americanas que treinam no país africano”. Preso e acusado de corrupção após uma década no poder, Aziz foi recentemente libertado sob fiança devido a problemas de saúde.

Os golpistas treinados pelos EUA não estão estritamente confinados à África Ocidental. Antes de Abdel-Fattah el-Sissi depor o primeiro presidente democraticamente eleito do Egito, Mohammed Morsi, ele passou por treinamento básico em Fort Benning, na Geórgia (em 1981) e instrução avançada na Faculdade de Guerra do Exército dos EUA (em 2006).

Um estudo de 2018 feito pelo think tank favorito dos militares, a Rand Corporation, lançou dúvidas sobre a noção de que o treinamento militar dos EUA cria golpistas.

“Há pouca evidência de que a [assistência ao setor de segurança] em geral (medida em dólares) associa-se à propensão a golpes na África”, de acordo com o Estudo, que foi escrito para o Escritório do Secretário de Defesa e observou que havia uma associação “marginalmente significativa” no período pós-Guerra Fria.

Um ano antes, porém, um estudo de Jonathan Caverley da Escola Naval de Guerra dos EUA, e Jesse Savage, do Trinity College de Dublin, no Journal of Peace Research, analisou dados de 1970 a 2009, e encontrou uma “relação robusta entre o treinamento de militares estrangeiros nos EUA e as tentativas de golpe de Estado apoiados pelos militares”, apesar de os autores limitarem sua análise ao programa Internacional de Educação e Treinamento Militar – “que se concentra explicitamente na promoção de normas de controle civil”.

Tradução: Maíra Santos