No dia 1º de dezembro, um relato publicado no LinkedIn destoou dos posts com dicas corporativas, ofertas de emprego e autoajuda usuais na rede social. Larissa*, de 19 anos, usou a rede para relatar que, ao comparecer ao que pensou ser uma entrevista de emprego em Alphaville, na região metropolitana de São Paulo, se deparou com uma residência. Lá, ela diz ter sofrido assédio sexual do recrutador, um consultor de inovação chamado Bruno Bianchi. Ao expor a situação, ela percebeu que não era a única.

Pelo menos três mulheres afirmaram ter passado por situações semelhantes com o recrutador, que estava com o aviso de “estou contratando” no LinkedIn. O Intercept ouviu seis pessoas que confirmaram os relatos de abusos de Bianchi. Profissional que diz ter 18 anos de experiência, ele tem uma empresa de consultoria e afirma prestar serviços para empresas de tecnologia.

No LinkedIn, ele se apresentava como head of growth (chefe de expansão, em tradução livre), conselheiro estratégico, cientista de vendas e fundador de empresas, entre outras ocupações. Em seu perfil no Instagram, afirma ser mentor de projetos de aceleração para startups. Uma delas, a Igloo, empresa para a qual ele afirma ter sido consultor, nega qualquer relação formal de trabalho e diz que teve apenas uma reunião com ele.

Larissa perdeu o pai, vítima da covid-19, em 2021. Por isso, estava em busca de emprego para ajudar a mãe, que passou a sustentar a casa sozinha.

A suposta vaga era para trabalhar com prospecção de clientes e vendas de um sistema de informática. A jovem disse que ficou sabendo da oportunidade por uma amiga. “O Bruno me chamou no LinkedIn e começamos a conversar. Depois, ele me ligou via Google Meet e explicou tudo sobre a empresa”, ela me contou. O trabalho seria remoto e havia a opção de ter a carteira assinada ou de prestar serviços como pessoa jurídica. “Ele falou que, se eu escolhesse ser CLT, ganharia um pouco mais de R$ 1.500″, afirmou.

Depois, Bianchi teria sugerido uma entrevista presencial. “Eu achei que seria em um escritório. E fui”.

Vítima decidiu publicar a denúncia para alertar outras pessoas, já que Bruno era conhecido na rede social. Seu relato trouxe outros casos à tona.

Por volta das 9h de 1º de dezembro de 2021, ela – que mora em Guarulhos, no outro extremo da região metropolitana de São Paulo – chegou ao prédio em Alphaville depois de quase três horas de trajeto. Uma amiga a acompanhou para que não fosse até o local desconhecido sozinha, mas ficou do lado de fora aguardando.

O endereço, que parecia empresarial, não levantava suspeitas. O complexo comercial citado por Bianchi tem site e até perfil no Instagram – porém, o nome e o número da rua pertenciam a outro prédio no mesmo bairro. Quando chegou, ela mandou mensagem perguntando o que deveria fazer. “A recepção era enorme, parecia um shopping. Dava para ele descer e a gente conversar ali. Mas pensei que talvez eu fosse conversar com outras pessoas da empresa, não sei”. Bianchi, então, teria pedido que ela subisse até o sétimo andar.

“Ao entrar no prédio, comecei a desconfiar de que era um edifício residencial, mas, por ser uma startup, não se passavam coisas ruins na minha cabeça”, escreveu em seu relato. O primeiro susto aconteceu no momento em que Bruno abriu a porta e a suspeita foi confirmada. Não era um escritório. Não havia outras pessoas da empresa para entrevistá-la. Era uma residência.

Ela conta que Bianchi estava sem máscara, descalço, de calça e camisa de botão levemente aberta – um comportamento totalmente inadequado para uma entrevista de emprego. “Tinha a cozinha, o sofá, a televisão ligada. Na hora em que eu vi que era a casa dele, pensei: ‘meu Deus do céu. Já era. Eu vou morrer. Se eu gritar, ninguém vai me escutar. Se eu gritar, ele me dá um murro na cara, eu desmaio e pronto. Não tem o que fazer'”.

Bianchi teria dito para ela tirar a máscara e, então, passado a insistir em uma mesma pergunta: “você não quer beber alguma coisa?”. Apesar do calor e da sede depois de horas no transporte coletivo, ela não aceitou. “Em nenhum momento ele parou de insistir para eu beber alguma coisa. Eu pensei: ‘estou na casa dele, não vou beber nada, porque se ele colocar alguma coisa na minha bebida, já era'”.

‘Na hora em que eu vi que era a casa dele, pensei: ‘meu Deus do céu. Já era. Eu vou morrer’.

Durante a conversa, ela diz ter estranhado o fato de não haver nenhuma informação nova sobre a vaga de emprego. “Ele falou exatamente as mesmas coisas da chamada de vídeo. Não tinha necessidade nenhuma de eu ter ido para lá. Ao falar, ele ficava encostando no meu braço, na minha perna, e eu já estava com medo, mas não queria alimentar isso na minha cabeça”, relatou.

Então, Bianchi teria sugerido mostrar o sistema informático para ela. Segundo Larissa, ele a chamou para se dirigir até outro cômodo. Era o quarto dele. Lá, além da cama ainda desarrumada, ela notou que o computador era um notebook. “Dava para ele pegar e levar para a sala. Mas ele quis que eu fosse até o quarto dele”.

No ambiente, havia uma escrivaninha e uma cadeira. Enquanto ele mostrava como funcionava o sistema, ela permaneceu de pé olhando a tela do computador. Então, Bianchi teria perguntado se ela toparia fazer um treinamento rápido. Ela respondeu que sim. “Ele falou: ‘senta’, e questionei se ele não iria levantar da cadeira para que eu sentasse. Ele disse: ‘não, senta aqui’ e deu dois tapinhas na perna”.

A jovem, então, perguntou se não havia uma outra cadeira. Bianchi teria respondido que não e apontado para o próprio colo novamente. Ela disse, então, que ficaria de pé. “Não sabia o que fazer. Estava com medo dele. Não via a hora de ir embora ou gritar”. Nesse momento, Bianchi teria pedido que ela virasse de costas. “Ele começou a mexer no meu cabelo e disse: ‘nossa, como o seu cabelo é grande’. Nessa hora, eu estava suando frio, morrendo de medo. Não sei, eu travei. Qualquer coisa que ele falasse para eu fazer, eu ia fazer. Eu estava desesperada. Desesperada”.

Bianchi teria perguntado mais uma vez se ela não queria algo para beber. Até que o celular da jovem começou a tocar. “É a mamãe?”, ele teria perguntado em tom sarcástico. Ela disse que sim e colocou a mochila nas costas, dando a entender que queria ir embora. “Aí ele me abraçou e me deu um beijo na bochecha. Não sei quantas vezes. Ele ficava me abraçando toda hora, perguntando se eu estava animada com a vaga”.

No relato publicado no LinkedIn, ela fala que sentiu nojo e medo. “Eu poderia gritar, ofender ele. Mas o meu medo era ele me agarrar, tentar algo pior, me matar”, escreveu. Sair do apartamento foi um alívio, mas o sentimento de angústia permanecia. “Foi horrível. Quando vi minha amiga, comecei a chorar e abracei ela. Ela queria chamar a polícia na hora, mas eu estava com medo dele. Eu só queria ir embora, porque estava com muito, muito medo dele”, ela me contou.

O caso, até agora, rendeu um pré-registro de ocorrência. Já o post na rede social foi incentivado pela amiga. “Como ele é bem famosinho no LinkedIn, temos que expor o assédio, porque não sabemos quantas meninas vão passar por isso”, disse a amiga, de acordo com ela. Ao chegar em casa, ela fez a publicação, que acabou rendendo mais de 9 mil reações e mais de 1.300 comentários. Boa parte das pessoas se solidarizaram com a jovem. Entre os comentários, uma surpresa: outras vítimas relataram casos parecidos com o mesmo recrutador.

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Ilustração: Sharisy Pezzi para o Intercept Brasil

‘Eu também fui vítima dele’

Entre 2018 e 2021, Bruno Bianchi trabalhou na MangoBits, uma startup de tecnologia focada em inteligência artificial. Foi lá, em maio de 2020, que a profissional de relações públicas Yara Prado o conheceu. Na época, Prado já se sentiu desconfortável logo na primeira conversa. “Ele entrou em contato comigo por telefone, dizendo que estava com o meu currículo, e marcou uma entrevista presencial na MangoBits. Já na ligação para a entrevista, achei o jeito dele invasivo demais, me ligando às 22h, cheio de intimidade”.

Isso piorou quando a rotina de trabalho começou. “O Bruno me assediava todos os dias via telefone. Ele me ligava após o expediente para ficar falando comigo. Eu tentava desligar, e ele sempre vinha com alguma coisa importante da empresa e depois mudava o assunto. Ele pedia constantemente para ir conhecer a minha casa. ‘Quando vou conhecer seu cafofo?’, ele falava”.

Então, ela disse para Bianchi que não se sentia confortável com essa situação. Não adiantou. “Mesmo assim, ele insistia em querer me levar alguma coisa em casa ou que eu fosse na casa dele. Isso acontecia todos os dias”.

Certa vez, Prado falou que tinha uma namorada. “Aí ele mudou comigo bruscamente. Começou a me tratar mal, ser mal-educado, não cumpria os prazos e as funções dele”, disse. O estopim teria acontecido por telefone. “Ele veio me questionar sobre um assunto de trabalho e passou a gritar comigo, dizendo que quem mandava era ele, que eu não era ninguém para dar ordens a ele, completamente agressivo”. Na hora, ela entrou em desespero e começou a chorar. “Pedi, por favor, para ele ter educação e me ouvir, mas ele não parava. Ele falou que eu era uma merda perto da empresa, que ninguém nunca ia me ouvir. No outro dia, ele tinha tirado todos os meus acessos e me desligado da empresa”.

Na época, Prado conta que recorreu a um dos sócios da startup para narrar o que aconteceu. “Ele disse que eu deveria ter gravado a ligação e que a minha palavra não valia nada”.

Em dezembro, Bianchi estava com um aviso de ‘estou contratando’ no LinkedIn.

Meses depois, um outro sócio da empresa retomou contato com Prado por e-mail, perguntando se ela não toparia voltar a integrar a equipe. “Fiquei surpresa com o seu e-mail”, ela respondeu. “Passei por uma situação extremamente humilhante e constrangedora com o Bruno, uma vez que ele me assediou moralmente e sexualmente”, pontuou. O ex-sócio pediu desculpas pelo acontecido dizendo que, na época, não imaginou que o caso tinha sido tão grave. “Achei que fosse apenas um desentendimento e nem dei a devida atenção”, ele escreveu.

Um ex-colega de trabalho de Bianchi topou conversar com o Intercept, mas pediu para permanecer anônimo. “Ele é uma pessoa violenta. Durante uma reunião, perdeu a linha e saiu na porrada com um dos colaboradores. Nesse dia, ele foi desligado da empresa”. O episódio teria acontecido em julho de 2020 – um mês depois do caso envolvendo Prado.

No início de dezembro, Bianchi estava com um aviso de “estou contratando” no LinkedIn. Sua foto ganhou um destaque e começou a chamar atenção de pessoas procurando trabalho. Os comentários no post mostram que ele estava contatando uma série de mulheres para supostas vagas de emprego.

“Fui abordada por esse cara recentemente. Achei bem estranho”, postou uma delas, que disse ter recusado fazer uma entrevista. “Estou em choque ao ler o seu relato”, comentou uma outra mulher, que diz ter feito uma entrevista com Bianchi em 1º de dezembro, o mesmo dia em que Larissa, a autora do post, foi até Alphaville. Procurada pelo Intercept, a outra mulher entrevistada pediu anonimato. “Fizemos uma reunião via Google Meet. Foi muito clara, muito transparente, sem nenhum indício de segundas intenções. No fim do dia, o Bruno me mandou mensagem perguntando se poderíamos agendar algo presencial em Alphaville, e eu falei que sim. Ele me passou o endereço e ficou agendado para alguns dias depois”.

Com o post no LinkedIn o acusando de assédio, Bianchi acabou cancelando a entrevista presencial com a candidata, e aí afirmou que ela poderia ser online. Ele também tirou do seu perfil a informação de que estava contratando pessoas.

Horas depois da segunda entrevista, na qual Bianchi teria fechado a contratação, a profissional se deparou com o relato de assédio no LinkedIn. “Fiquei horrorizada. Mandei um print para o Bruno e perguntei se ele podia me explicar o que era aquilo”, falou. “Ele perguntou se poderia me ligar. Conversou comigo e com o meu marido e explicou que estava sendo injustiçado”. Apesar da oportunidade de emprego, a profissional disse que preferiu não trabalhar com Bianchi depois de tomar conhecimento do relato.

Profissional da área de tecnologia da informação, outro ex-colega de Bianchi também comentou a postagem, dizendo estar em choque com o acontecido. Para o Intercept, ele relatou que ambos trabalharam juntos de 2017 a 2018, vendendo sistemas corporativos. “Ele era um cara um pouco na dele, quieto, bem sozinho. Percebemos desde cedo que mentia, aumentava ou manipulava fatos, tanto para nós da empresa quanto para os clientes”.

A Omnismart, empresa de tecnologia da informação para a qual Bianchi prestava consultoria, publicou uma nota dizendo que o contrato entre eles foi suspenso. “Orientamos os nossos advogados a acompanharem o caso e tomaremos as providências cabíveis”.

Violência doméstica e nude vazado

O relato de Larissa fez com que a história de Fernanda*, ex-namorada de Bianchi, também viesse a público. Segundo ela, a relação começou pelo Tinder em julho de 2018. Ela tinha 19 anos e Bianchi, 36. “Ele me criticava muito. Nós saíamos para comer, e ele queria controlar o que eu comia, me olhava com desgosto e me chamava de gorda na mesa do restaurante mesmo. Na época, eu já estava super magra, mas acabava fechando a boca só para agradar a ele”.

Em uma noite de janeiro de 2020, ela contou, os dois beberam bastante e foram para a casa dele. Ela dormiu. “Acordei às 4h da manhã com ele em cima de mim me dando soco, tapa, chute, socando minha costela, meu rosto, puxando meu cabelo. Eu estava pelada, mas não me lembro de ter tirado a roupa para dormir. Prefiro nem saber”.

Durante a madrugada, Fernanda me disse, Bruno teria lido conversas em seu celular e descoberto que ela havia traído ele com um colega de trabalho dela. “Quando vi o meu celular na mão dele, falei: ‘ok, já sei o que você viu, não precisa me bater mais'”, relembrou. “Eu apanhei, mas me sentia muito culpada. Meus pais ficaram desesperados quando me viram. No auge da culpa, eu disse que tinha traído o Bruno e apanhado porque mereci”.

A violência não se resumiu ao aspecto físico. A ex-namorada relatou que Bianchi enviou para a empresa inteira prints das conversas que ela teve com o colega. “Ele também mandou fotos minhas nua, fotos que eu tinha enviado para ele. Foi muito constrangedor. Na hora que as pessoas da empresa começaram a receber isso por e-mail, eu comecei a passar mal, até vomitei. Colocaram até foto do Bruno na portaria, com medo de ele aparecer lá. Ele também enviou isso tudo para os meus pais”.

O baque emocional foi grande. Para retomar a vida, Fernanda pediu demissão da empresa e recorreu à terapia. “Fiz um B.O. de violência doméstica. No dia em que fui fazer o exame de corpo de delito, fiquei passando mal de culpa. Achei que ia ferrar ele e acabei não fazendo o exame. Eu não tinha o pensamento de que ele estragou a minha vida”.

Em agosto de 2021, um ano e meio depois do boletim de ocorrência ser registrado, ela e Bianchi foram intimados a depor. Na mesma época, Larissa marcou um encontro com uma amiga em um bar no bairro de Pinheiros, em São Paulo, e, coincidentemente, Bianchi estava lá. “Ele me pediu um milhão de desculpas. Falou que se arrependeu de tudo que fez, que admitia ter me machucado psicologicamente e fisicamente. Por um momento, eu pensei que ele tinha mudado. Até ver o relato no LinkedIn”.

Segundo Larissa, o B.O. que ela fez foi “indeferido”. Por meio de seu advogado, Rafael Fontanelli Grigolli, Bruno Bianchi negou todas as acusações e afirmou que vai buscar na justiça a responsabilização de todos os envolvidos nas denúncias. Rigolli informou também que entrou com uma liminar para que o post de Larissa fosse removido do LinkedIn. A justiça acatou. “Temos um time jurídico forte para provar a inocência do Bruno”, ele me disse.