Depois da corajosa decisão de agosto passado, retirando as forças dos Estados Unidos do Afeganistão, o governo de Joe Biden anunciou no último dia 11 de fevereiro que pretende dividir os ativos do banco central afegão – mantidos em posse do Federal Reserve de Nova York – entre as famílias das vítimas do 11 de setembro e esforços “em benefício do povo afegão’ ainda não especificados. A decisão pode fazer Biden causar ainda mais destruição e mortes no Afeganistão, além das causadas pelos 20 anos de guerra encerrados por ele.

Durante meses, o governo vem debatendo como será o futuro das relações econômicas com um Afeganistão controlado pelo Talibã. Os ativos, que estavam inicialmente congelados quando o Talibã assumiu o controle do país em agosto, são essenciais para a liquidez e funcionalidade básica da sua economia. Com a falta de compromisso firme do governo para devolver os ativos ao banco central – que os economistas americanos ajudaram a projetar e ainda ajudam a administrar, e afirmam ainda ser independente do Talibã – o povo afegão dependerá de ajuda humanitária no futuro próximo. Os relatórios já dizem que a ajuda não é suficiente para evitar o declínio vertiginoso das condições de vida enfrentadas pelo povo afegão.

A questão é de economia básica: o confisco dos fundos do banco central paralisou a atividade econômica. As pessoas perderam o acesso ao dinheiro mantido em bancos. Funcionários do governo e professores não estão recebendo seus pagamentos. Os importadores não têm acesso a capital para manter as importações. Da mesma forma, os exportadores não conseguem acessar capital para manter seus negócios operando. A moeda, o afegani, despencou em valor, o que faz com que a inflação seja muito maior no Afeganistão do que no resto do mundo.

“Todas as reservas cambiais que estão nos Estados Unidos e na Europa pertencem ao povo afegão”, diz Shah Mehrabi, professor de economia do Montgomery College, que atua no conselho superior do banco central. “A decisão de liberar apenas parte dos fundos continuará a prejudicar milhões de crianças, mulheres e famílias afegãs, que estão sofrendo uma das piores crises humanitárias e econômicas do mundo”. Mehrabi afirma que, apesar das notícias de que o dinheiro do banco central seria enviado para grupos de ajuda humanitária, ele tinha a expectativa de que os valores fossem liberados para o banco, que ainda inclui dois membros americanos no conselho.

Um porta-voz da Casa Branca disse que o governo criaria um fundo fiduciário para beneficiar o povo afegão de várias maneiras.

Nos últimos meses, enquanto os democratas da Câmara discutiam sobre a redação de cartas e os senadores fugiam das perguntas sobre a responsabilidade dos Estados Unidos pela crise, a situação no Afeganistão piorou rapidamente. Várias organizações internacionais alertaram que essas condições levaram quase 10 milhões de afegãos à beira da fome. Para sobreviver, as pessoas estão queimando seus móveis e outros pertences para se aquecerem, ou vendendo o que têm para conseguir comida. Apesar dos 20 anos de guerra, de uma seca excepcionalmente longa e de um inverno particularmente severo terem preparado o cenário de crise, a causa imediata do sofrimento do povo afegão é a apreensão dos bens do país, juntamente com sanções impostas pelo governo dos Estados Unidos.

O governo Biden ofereceu US$ 308 milhões em assistência humanitária e implementou políticas para agilizar a entrega dessa ajuda, mas a apreensão de bilhões de dólares em ativos cuja propriedade legítima é do povo afegão – que está novamente se ajustando à vida sob o severo domínio do Talibã – os deixou sem meios para construir uma economia sustentável capaz de importar os alimentos e combustível necessários para a sobrevivência nas áreas inóspitas do país.

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Uma criança afegã, sofrendo de desnutrição, é atendida em um hospital em Cabul, Afeganistão, em 16 de janeiro de 2022.

Foto: Sayed Khodaiberdi/Agência Anadolu via Getty Images

Os membros do Congresso demoraram a entender os efeitos da política do governo Biden na região. Em dezembro, os deputados democratas Pramila Jayapal, de Washington, Chuy García, do Illinois, e Sara Jacobs, da Califórnia, lideraram mais de 40 de seus colegas para redigir uma carta ao governo, enfatizando a necessidade de “uma mudança cuidadosa, mas urgente, na atual política dos Estados Unidos em relação ao congelamento das reservas e atuais sanções ao Afeganistão”.

Na semana passada, Jayapal, líder da bancada progressista no Congresso, apresentou uma emenda sobre as sanções junto à America COMPETES, uma legislação de apoio à inovação e competitividade do país. Embora não tenha pedido o fim das sanções norte-americanas, a emenda estabeleceria as bases para o Congresso estudar formalmente os efeitos desastrosos das políticas econômicas. Os democratas da Câmara poderiam aprovar a emenda com seus próprios votos, mas 44 deles se juntaram a todos os demais republicanos da Câmara para bloquear sua aprovação. O Intercept entrou em contato com cada um dos 44 democratas, e nenhum deles deu uma explicação oficial sobre sua oposição ao estudo da devastação enfrentada pelos afegãos por resultado das políticas dos Estados Unidos.

Com o fracasso da emenda, a ação legislativa para lidar com a crise está paralisada por enquanto, embora Jayapal tenha mostrado otimismo de que a votação possa dar início a uma flexibilização das restrições por parte dos Estados Unidos. Em entrevista ao Intercept na quarta-feira, ela disse que a bancada considerava uma vitória conquistar a grande maioria dos democratas em uma votação que “pela primeira vez, realmente abordou os efeitos humanitários dessas sanções”. Seu gabinete não respondeu de forma imediata a um pedido de comentário sobre o anúncio do governo Biden.

Um assessor de política externa democrata de alto escalão, cujo anonimato foi assegurado para que pudesse compartilhar seus pensamentos sobre as ações do governo Biden, disse que tal política “efetivamente equivale a um assassinato em massa”. De acordo com o assessor, Biden “recebeu alertas do Secretário Geral da ONU, do Comitê Internacional de Resgate e da Cruz Vermelha, com um consenso unânime de que a liquidez do banco central é de suma importância, e nenhuma ajuda pode compensar a destruição do sistema financeiro do Afeganistão e de toda a sua macroeconomia.”

Mark Weisbrot, codiretor do Centro de Pesquisa Econômica e Política, concordou com a caracterização da decisão de Biden como causadora de fome em massa. A maioria das pessoas “não entende o aspecto econômico” da decisão de Biden, disse ele ao Intercept. “Se um país não tem reservas e não tem um banco central em funcionamento, então nenhuma quantidade de ajuda chegará perto de compensar isso.”

Esta semana, após meses de insistência de ativistas de direitos humanos e organizações não governamentais internacionais, o Congresso finalmente começou a debater o papel dos Estados Unidos na rápida escalada da crise humanitária no Afeganistão. Na quarta-feira, em uma audiência há muito tempo adiada no subcomitê de Relações Exteriores do Senado para o Oriente Médio, o presidente do subcomitê, Chris Murphy, democrata do Connecticut, reconheceu que a ajuda humanitária por si só não seria suficiente para evitar a morte que se aproxima rapidamente de milhares de afegãos.

Murphy não pediu diretamente uma mudança na política dos Estados Unidos durante a audiência, mas ele disse em entrevista ao Intercept que o governo precisará aliviar as sanções e descongelar alguns ativos afegãos para reduzir a crise. “Acredito que é hora de liberarmos o dinheiro”, disse ele, embora reitere as preocupações sobre a possibilidade de o banco central afegão permanecer de fato independente por muito tempo sob o domínio do Talibã.

O único outro senador a defender publicamente essas ações é o senador Bernie Sanders, independente do Vermont, que tuitou sua posição sobre o assunto no mês passado. Nenhum dos gabinetes dos senadores respondeu imediatamente a um pedido de comentário sobre a decisão de Biden.

Outros senadores em geral rejeitam os questionamentos sobre a cumplicidade dos Estados Unidos em um potencial genocídio afegão. Em entrevistas para o Intercept na semana passada, vários senadores declaradamente liberais discordaram ou refutaram a premissa das perguntas sobre o regime de sanções. A senadora democrata Tammy Duckworth, do Illinois, uma veterana da guerra dos Estados Unidos no Iraque, negou conhecimento sobre os muitos relatórios indicando que a assistência humanitária por si só será insuficiente para ajudar os afegãos. Tammy Baldwin, senadora democrata por Wisconsin, apontou para a recusa anterior do Talibã em permitir que mulheres e meninas frequentassem a escola e trabalhassem, para justificar as políticas de Biden, mas disse que estudaria mais relatórios confirmando que, desde que assumiu o poder em agosto, o Talibã continuou a permitir que as mulheres mantivessem um papel na vida pública.

O senador Rand Paul, republicano do Kentucky — um firme oponente das sanções, que fez um discurso inflamado contra a proposta do senador Ted Cruz de sancionar a Rússia há algumas semanas – fugiu do tema sobre a situação do povo afegão, dizendo ao Intercept que a retirada do governo Biden provocou a crise e que ele não apoia a redução das sanções ou a liberação de ativos congelados desta vez. A atuante e progressista senadora Mazie Hirono, democrata do Havaí, respondeu a uma pergunta sobre a devastação causada por sanções e bens congelados com uma outra pergunta: “Ainda estamos falando sobre o Afeganistão?”

Uma mulher caminha por uma estrada em direção à sua casa depois de receber pão da campanha Salve os Afegãos da Fome, em Cabul, Afeganistão, em 18 de janeiro.

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Na audiência do subcomitê desta semana, o presidente e CEO do Comitê de Resgate Internacional, David Miliband, e o consultor do Grupo Internacional de Crise, Graeme Smith, condenaram veementemente as políticas financeiras da comunidade internacional no Afeganistão. Juntos, os dois descartaram os argumentos de que a ajuda humanitária poderia compensar a normalização das relações econômicas com o Afeganistão, e refutaram aqueles que usam as crueldades do Talibã para justificar as crueldades infligidas pelo Ocidente.

O depoimento deles contrastou com a atitude evasiva dos senadores que compareceram. Ed Markey, senador democrata do Massachusetts, concentrou-se nas políticas discriminatórias do Talibã, e não na destruição que as democracias ocidentais infligiram ao povo afegão. Markey se recusou a responder a vários pedidos do Intercept para esclarecer sua posição. Cory Booker e Bob Menendez, senadores democratas de New Jersey, não compareceram. Chris Van Hollen, senador democrata de Maryland, limitou suas interações a questões informativas básicas. O senador decano por Indiana, Todd Young, o único membro republicano a comparecer, reconheceu que os Estados Unidos devem “identificar um caminho a seguir para lidar com um Afeganistão governado pelo Talibã”. Mas ele se recusou a abrir explicitamente a possibilidade de normalizar as relações econômicas e descongelar os ativos afegãos.

Em um debate que diz muito sobre a situação, Jeanne Shaheen, democrata de New Hampshire, apontou para a marginalização histórica das mulheres pelo Talibã para justificar a manutenção das políticas econômicas destrutivas dos Estados Unidos. Miliband respondeu que o Talibã está fazendo concessões consideráveis sobre a igualdade de gênero, e está atualmente permitindo que as mulheres afegãs – cujos salários permanecem sem pagamento em meio ao atual congelamento de bens – trabalhem e frequentem a escola.

Miliband então apresentou o que ele disse ser a pergunta mais recorrente entre as mulheres afegãs presentes em sua organização: “Como o Ocidente acha que está ajudando nosso futuro se não podemos alimentar nossas famílias?”

Alex Weatherhead e Ryan Grim contribuíram com a reportagem.

 

Tradução: Antenor Savoldi Jr.