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Foto: Marcos Brindicci/Getty Images

Os donos da grande imprensa brasileira seguem obcecados na tentativa de emplacar uma candidatura alternativa às de Lula e Bolsonaro. A chamada terceira via seria um ponto de equilíbrio entre os polos à esquerda e à direita, um meio-termo saudável para quebrar uma polarização que atravanca o cenário político do país. Nada mais falso.

Lula não está no polo oposto de Bolsonaro. O petista é um centro-esquerdista clássico que governou o país de maneira democrática em coalizão com partidos de direita e centro-direita durante oito anos.

Bolsonaro é um extremista de direita que passou os últimos quatro anos colocando a faca no pescoço da democracia e destruindo o estado brasileiro.

A tal terceira via não se encontra em uma posição equidistante no espectro ideológico entre Lula e Bolsonaro. Representada principalmente pela candidatura de Sergio Moro, a terceira via que os donos da imprensa querem empurrar goela abaixo da população é uma candidatura muito mais próxima de Bolsonaro. Não foi à toa que Moro largou a toga para se tornar um ministro bolsonarista. A afinidade ideológica entre os dois é bastante clara.

‘Tratar Lula como um extremista de esquerda que polariza com o fascismo só pode ser explicado pelo antipetismo alucinado’.

O homem que a imprensa insiste em pintar de moderado foi um ministro bolsonarista dos mais radicais. Lembremos da tentativa de emplacar o excludente de ilicitude para policiais, também conhecido como licença para matar suspeitos. Moro não rompeu com Bolsonaro porque discordava dos seus radicalismos. Rompeu por uma disputa de poder e para preparar sua candidatura à presidência da República.

Transformar um extremista de direita em um direitista moderado faz parte de uma operação para impedir a volta de Lula. Esse é o grande engodo que está na praça eleitoral pescando os eleitores menos atentos.

Tratar Lula como um extremista de esquerda que polariza com o fascismo só pode ser explicado pelo antipetismo alucinado, essa doença mental coletiva que assolou o país na última década. A cobertura da agenda dos presidenciáveis tem sido brutalmente desigual. No fim do ano passado, por exemplo, a cerimônia de filiação de Moro ao Podemos teve amplo destaque na mídia, enquanto a viagem de Lula pela Europa, quando se reuniu com grandes líderes mundiais, ficou escanteada no noticiário.

Essa operação da grande mídia para tirar Lula do páreo e colocar Sergio Moro tem ficado ainda mais clara neste ano eleitoral. Os editoriais, que expressam a opinião dos proprietários dos jornais, não disfarçam a campanha antipetista. Para se ter uma ideia, só neste ano, o Estadão publicou editoriais com os seguintes títulos: O PT não sabe o que é cidadania, O mal que Lula faz ao Estado, Lula promete o atraso , O mal que Lula faz à oposição e O mal que Lula faz à democracia.

É legítimo que os barões dos grandes jornais expressem suas opiniões em editoriais. O problema está na distorção dos fatos e de conceitos com o intuito de alinhar o noticiário com os interesses da chamada terceira via e minimizar o alcance de qualquer informação positiva para a candidatura de Lula. Os editoriais do Estadão são o exemplo mais bem-acabado, mas Folha e o grupo Globo também estão nessa missão.

Nesta semana, o último processo contra Lula foi suspenso pelo STF. A Folha de S.Paulo, que noticiou as condenações de Lula em letras garrafais em manchetes de capa, não deu o mesmo destaque para as suspensões dos processos. Longe disso. A suspensão da última ação penal contra Lula foi para a capa, mas ficou de canto, quase escondida: “Última ação contra petista é suspensa” — o nome de um ex-presidente que governou o país oito anos é omitido no destaque da notícia e vira um mero “petista”.

A chamada anterior (abaixo), em que o nome de Lula é citado, pode ser usada como justificativa para a omissão do nome do ex-presidente. Ocorre que a chamada anterior é uma cama de gato para induzir o leitor a acreditar que a suspensão do processo é uma vitória da impunidade: “Casos similares ao de Lula-Moro favorecem políticos”. Na sequência, Artur Lira aparece como um beneficiário da suspensão dos processos contra Lula.

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Juntas, as chamadas na capa da Folha de S.Paulo induzem o leitor a pensar que a impunidade venceu.

Foto: Reprodução/Folha de S. Paulo

É desonesto induzir o leitor a acreditar que a justiça não foi feita nas suspensões dos processos que tornaram Lula inocente. As reportagens da Vaza Jato e as mensagens da Operação Spoofing comprovaram que o ex-presidente Lula foi vítima de uma perseguição judicial, o chamado lawfare. Foram elas que embasaram a decisão do ministro Lewandowski de suspender o último processo penal.

Não há o que discutir quanto a isso, mas a Folha quer que você acredite que o STF fez com que tudo acabasse em pizza. Coincidentemente, essa narrativa é a mesma do lavajatismo e da candidatura de Moro. E, lembremos, esse é o mesmo jornal que publicou com grande destaque na capa uma ficha policial falsa da então presidenciável Dilma Rousseff, indicada por Lula para a sucessão.

Numa época em que nem se falava em “fake news”, o  jornal recebeu a imagem por e-mail e publicou na capa sem fazer o trabalho básico do jornalismo: a checagem. O antipetismo alucinado nunca encontrou limites nessa parte relevante do jornalismo brasileiro.

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Em O Globo, fim da última ação penal contra Lula vira chamadinha no canto inferior da capa.

Foto: Reprodução/O Globo

O Globo, que também noticiou as condenações de Lula em grandes manchetes de capa, também fez com que a suspensão do último processo penal aparecesse discretamente na capa, esquecida no canto inferior da página em letras pequenas. O Jornal Nacional, o jornal televisivo mais assistido do país, seguiu o mesmo padrão, dedicando pouco mais de um minuto para assunto, bem diferente das longas e completas reportagens em que Lula apareceu como condenado.

O Estadão, o mais sincerão dos jornais, nem se deu ao trabalho de colocar a notícia na capa. Omitiu e pronto. O jornal achou mais importante colocar na capa uma chamada para um projeto do SESC: a criação de uma “minipraça entre SESC e Itaú Cultural na Avenida Paulista”.

Essa lógica, baseada no antipetismo alucinado que jogou o país na vala do lavajatismo e do bolsonarismo, também foi reproduzida nos grandes portais de notícias. Dar pouco destaque para a suspeição do ex-juiz e para o fato que Lula se tornou inocente perante a lei é uma decisão editorial. Na prática, a suspensão de todos os processos inocenta o petista de todas as acusações que o noticiário martelou durante anos na cabeça da população como se fossem verdades.

A notícia que deveria merecer destaque está na decisão de Lewandowski que suspendeu a última ação penal contra Lula: “os procuradores República responsáveis pela denúncia referente à compra dos caças suecos agiam de forma concertada com os integrantes da ‘Lava Jato’ de Curitiba, por meio do aplicativo Telegram, para urdirem, ao que tudo indica, de forma artificiosa, a acusação contra o reclamante [Lula]”.

O ministro não deixou pedra sobre pedra e fez questão de mostrar o conjunto da obra do lawfare lavajatista: “Valendo lembrar que investigações do mesmo juiz, relativas aos casos ‘Triplex do Guarujá’ e ‘Sítio de Atibaia’, foram consideradas inaproveitáveis pelo Supremo”.

A grande mídia não dá destaque para essas conclusões irrefutáveis do ministro por um motivo que me parece evidente: isso implicaria em ter que assumir que ela foi conivente com o lawfare lavajatista. Isso seria ruim para o candidato Sergio Moro e bom para o candidato Lula. Não é uma escolha difícil para os donos da imprensa.