Muita gente se assustou quando apareceu um cartaz com uma suástica em uma manifestação antivacina em Londrina, em outubro do ano passado. Mas aquela não foi a primeira vez. Um mês antes, em Campinas, interior de São Paulo, uma mulher desfilou com o símbolo nazista em um outro protesto pró-Bolsonaro e antilockdown.

Mas a manifestação mais escandalosa foi em 21 março, em Porto Alegre. Doris Denise Neumann, advogada e hoje candidata pelo Patriota, falou em um vídeo: “Essa os alemães vão entender. ‘Arbeit Macht Frei’, não foi isso que a gente aprendeu? Que o trabalho nos faz ser livre? Pois aqui estamos reivindicando o trabalho”, ela disse, repetindo o lema nazista presente na entrada do campo de concentração de Auschwitz em frente às câmeras.

Parecem manifestações extremistas isoladas de insatisfação contra uma política sanitária controversa. Mas são a parte visível nas ruas de um fenômeno que tem acontecido nas profundezas antivax do Telegram: grupos no aplicativo estão se tornando um novo celeiro de neonazistas. Descobri isso diretamente com Neumann. “Onde consigo achar conteúdo contra o passaporte sanitário e as vacinas?”, perguntei à advogada. Ela me indicou o canal Médicos Pela Vida.

Com mais de 100 mil assinantes, ele reúne mensagens de um complexo ecossistema com mais de 300 outros canais. É um universo “que envolve desde apoiadores do presidente, grupos de antivacina tradicionais a grupos religiosos”, me explicou João, pesquisador do Laboratório de Humanidades Digitais, o LHD, da Universidade Federal da Bahia. O LHD monitora mais de 300 canais de Telegram da direita desde 2018 – e seus achados são preocupantes.

Teorias da conspiração e vídeos diretamente hitleristas, por exemplo, são encontrados facilmente nas trocas de mensagens que chegam nos canais do ecossistema. Referências textuais às palavras Hitler, nazismo e especialmente judeu têm aumentado expressivamente nos canais de extrema direita no Brasil.

Menções às palavras Hitler, nazismo e judeu em postagens no Telegram.

Gráfico: Júlia Coelho e Rodrigo Bento/The Intercept Brasil

Gastei alguns dias nos canais antivax disponíveis no Telegram. Não demorou 20 minutos para encontrar canais com mais de 24 mil inscritos que, além de divulgarem maneiras de se burlar restrições sanitárias, também tinham posts pedindo a descriminalização do nazismo. Eram mensagens encaminhadas de outros canais – esses, por sua vez, com puro conteúdo explicitamente nazista.

“Na nossa pesquisa, tinham algumas categorias relativas à pandemia e antivacina, o que se mostrou no ecossistema como um todo”, me disse Marina, também pesquisadora do LHD. Segundo ela, o passaporte vacinal é uma pauta que conecta segmentos específicos antivax a discussões políticas, em uma narrativa que se radicalizou com o tempo. “Você recoloca a questão das vacinas em termos de uma gramática da liberdade, direito de viver, direito de expressão. Isso se conecta com o bolsonarismo”.

A percepção dos pesquisadores é que a presença de conteúdo neonazista e antissemita, sempre permeado de teorias conspiratórias, se intensificou a partir de janeiro deste ano. No início, diz João, esse tipo de mensagem era mais dispersa. Agora a situação mudou. “Eu fiquei impressionado. É muito vídeo sendo produzido. Tem duas linhas argumentativas: uma de que eles são anticristãos e a outra de que eles são os donos das farmacêuticas”.

Do Telegram para o YouTube. E volta.

Enquanto navegava pelos grupos antivax, vi que um vídeo de uma criança supostamente tendo efeitos adversos após tomar a vacina era muito comentado. Em um dos comentários, havia um link para uma postagem em outro canal: “A quem interessa a injeção da besta no povo cristão? Seria um plano da besta para reescrever nosso DNA?”

Depois, em meio a postagens com truques antivacina, um post compartilhado de outro canal pedia a legalização do nazismo no Brasil. Vários outros mencionavam uma suposta conspiração mundial dos ricos contra as pessoas “decentes”, contra o Ocidente, contra as liberdades. Chegando em outro canal do mesmo administrador, bingo: vídeos explicitamente glorificando o Terceiro Reich de Hitler, reprodução de propagandas da época do nazismo. Para ir do Médicos Pela Vida ao canal abertamente neonazista, bastava um comentário e dois cliques.

Os grupos antivax seguem o mesmo funcionamento de outros: há um pequeno número de pessoas responsável pela maior parte do conteúdo. A maioria dos participantes só lê, ou lê e encaminha as mensagens para outros grupos. Muitas vezes, o usuário é levado às narrativas extremistas por meio de um canal mais ameno. “Geralmente, você tem canais em que você debate muita coisa e vez ou outra surge um post ali com alguma mensagem antissemita ou abertamente neonazista. E você tem por outro lado canais em que o conteúdo é expressamente antissemita e nazista”, diz João.

A maior parte dos vídeos compartilhados, segundo os pesquisadores, é do YouTube. “Ganha de qualquer outra plataforma”, afirma João. Do Telegram, o usuário é levado para um vídeo no YouTube e, de lá, para recomendações mais radicalizadas. Então há o caminho contrário: a descrição desses vídeos tem links para canais mais extremistas no Telegram. “Aí, ele manda você para o nível maior de radicalização, que 5G é plano mundial de dominação, nova ordem mundial e coisas do tipo. Vira e mexe, vai estar presente que essa nova ordem mundial é obviamente comandada por judeus e por aí vai”.

‘Nazistas criticavam a vacinação como danosa à saúde por ser parte de uma conspiração judia para infectar arianos’.

Mostrei algumas peças do conteúdo encontrado nos canais a Odilon Caldeira Neto, pesquisador do Observatório de Extrema Direita. Um deles, segundo Caldeira, tinha “indício claro” de neonazismo: foi um conteúdo produzido no canal Derrubando as Pedras da Geórgia, com 24 mil inscritos, que relatava que o vírus era “a coroa da besta” e que os não vacinados seriam “aniquilados e concentrados”.

Entre os demais canais, havia um em que se aludia a uma conspiração contra o cristianismo para mudar o DNA. Em outro canal, que falava “O Deus de Israel não é o pai de messias”, havia indíces de conspiracionismo e antissemitismo de séculos, tendo circulado em canais de 10 mil e 15 mil assinantes, respectivamente. Esse canal estava diretamente ligado e reproduziu esse conteúdo no canal Aslan, com 13 mil inscritos, e ao Médicos Pela Verdade, com 13,5 mil inscritos.

Onde neonazis e conspiracionistas se encontram.

Ilustração: Amanda Miranda para o Intercept Brasil

Onde neonazis e conspiracionistas se encontram

A associação entre nazismo, extrema direita, teorias místicas e da conspiração não é nova. Na verdade, elas nasceram junto com o próprio nazismo. Segundo Eric Kurlander, professor de história na Stetson University e autor de “Hitler’s Monsters: a Supernatural History of the Third Reich” (“Os monstros de Hitler: uma história sobrenatural do Terceiro Reich”, em tradução livre), havia nazistas de alto escalão, como Rudolf Hess e Julius Streicher, que se interessavam por ocultismo, religião new age e homeopatia. Vacinas também estavam na mira. “Eles criticavam a vacinação como danosa à saúde por ser parte de uma conspiração judia para infectar arianos”, me disse Kurlander. “Temos evidência empírica de ligações entre os antivax e os nazistas”.

Mas essa ligação não precisa ser explícita. Pode começar com uma interpretação mística, sobrenatural ou mesmo anti-materialista da pandemia e da vacina. Em seu livro, Kurlander identifica o que chama de “imaginário sobrenatural”, que traz elementos de uma espécie de religião pagã, alternativa ou da Nova Era. Também traz o que os alemães chamavam de ciência de fronteira (Grenzwissenschaft), ou seja, a ciência que está à margem dos cientistas convencionais.

“O que eu encontrei é que alemães e austríacos que abraçaram essas teorias não eram imediatamente fascistas, mas tendiam a não confiar no que você poderia chamar de autoridade epistêmica. Eles não confiavam nas explicações do mundo materialistas”, explica Kurlander.

‘Você vai entrando numa comunidade gradualmente, ela vai aumentando o volume. Esse processo vincula você pouco a pouco ao abismo’.

Essas autoridades eram, por exemplo, a ciência tradicional, a academia, a democracia liberal e as instituições liberais. “Essas pessoas também estão inseridas em ideias racistas, imperialistas e fascistas. Então, historicamente, absolutamente há uma conexão entre esse tipo de rejeição da ciência dominante e a direita”.

Kurlander diz que não está surpreso que isso esteja acontecendo agora no Brasil, porque também fez uma pesquisa nos Estados Unidos com Steven Smallpage, cientista político, e Robert Askew, psicólogo, sobre pensamento paranormal e conspiratório. O estudo foi apresentado em 2021 e revelou que pessoas com altos indíces de crença na medicina New Age ou no monstro do Lago Ness tendem a também ter alto indíces de autoritarismo de direita e orientações sociais que associamos ao fascismo. “É muito provável que haja a mesma conexão no Brasil”, ele diz.

O pesquisador João também vê uma articulação internacional. “Existe uma porta de contato entre grupos neonazistas internacionais dentro do Telegram e indivíduos específicos dentro desses grupos que fazem uma curadoria, colocam legenda, a marca do canal”.

Para Fabrício Pontin, professor de Relações Internacionais na Universidade La Salle-Canoas e um dos maiores especialistas em olavismo no Brasil, também não há surpresa na adesão crescente às teorias mais radicais. “Eles estão tentando fazer aquela aposta de micro engajamento. A coisa vai começando pequena, vai começando a produzir conteúdo, e daí de baixo para cima eles conseguem criar mais vínculo”, explica.

“Você vai entrando numa comunidade gradualmente, ela vai aumentando o volume. Esse processo vincula você pouco a pouco ao abismo. Então, você vai banalizando algumas práticas e, quando vê, está radicalizado. Esse processo é clássico nessas redes de pertencimento. Você vai fazer um afastamento da tua comunidade de política anterior. ‘Então tem uma grande conspiração global liderada pelos judeus, pô, nunca tinha pensado, né? Ah, então é por isso que meu banco tá me ferrando’”.