“Na primeira semana, eu já queria ir embora. Todos os dias eram horríveis. Me chamavam de picolé de piche, mão virada, viadinho. E a gerente não falava nada”, relembra Augusto sobre os meses que passou como funcionário da rede de lanchonetes McDonald’s. Ao Intercept, o jovem relata ter sofrido assédio sexual, moral e racismo dentro da empresa.

Augusto conta que, certo dia, aproveitou o horário de descanso para dormir no vestiário. Quando acordou, percebeu que outro funcionário, que constantemente o assediava, havia ejaculado em seu braço. Foi a gota d’água para que ele procurasse a orientação de um advogado e entrasse na justiça contra o McDonald’s. Acabou fazendo um acordo com a empresa, que lhe rendeu uma indenização. Mas um termo de confidencialidade o proíbe de tocar no assunto.

O caso de Augusto não é isolado. Em 2021, entidades sindicais apresentaram ao Ministério Público do Trabalho 96 reclamações trabalhistas relacionadas a assédio moral, assédio sexual e racismo contra o McDonald’s. “Todos os trabalhadores que chegam até nós estão emocionalmente desgastados”, me disse a advogada Betina Santos, integrante da União Geral dos Trabalhadores e colaboradora da equipe jurídica da campanha Sem Direitos Não É Legal, que tem atuação global pelos direitos dos trabalhadores do McDonald’s.

O volume de casos apresentados chamou a atenção do Ministério Público.  Em junho de 2021, a procuradora Elisa Maria Brant de Carvalho Malta, da Procuradoria Regional do Trabalho da 2ª Região, em São Paulo, instaurou um inquérito civil para investigar as denúncias. Por se tratar de assédio, o inquérito está sob sigilo. Procurado, o órgão afirmou que não daria entrevistas sobre o caso.

Food app delivery workers wait outside a McDonald's Corp. restaurant in Sao Paulo, Brazil, on Wednesday, April 1, 20202. As the coronavirus pandemic strangles economies and throws people out of work, food delivery drivers are competing for orders. Photographer: Victor Moriyama/Bloomberg via Getty Images

No Brasil, marca é controlada pela Arcos Dorados, maior franquia independente do McDonald’s em todo o mundo. São 1.020 restaurantes, 50 mil funcionários e dois milhões de clientes diariamente.

Foto: Victor Moriyama/Bloomberg via Getty Images

‘Assédio sexual sistêmico’

A ex-funcionária Mariana trabalhou um pouco mais de três anos em uma das lanchonetes da franquia McDonald’s. Ela afirma ter sofrido tantos problemas no trabalho que acabou caindo em depressão. “Eu era muito humilhada pelos gerentes. Um deles me humilhava na frente dos clientes. Ele falava que eu tinha que ter mais atenção, que eu era burra. Eu ficava muito mal”, relembra.

Ela conta que um funcionário a assediava constantemente. “Mesmo quando eu estava trabalhando na cozinha, com as câmeras e tudo, ele tentava me agarrar, me abraçar. Eu tentava barrar ele, mas mesmo assim ele vinha. Ele tentava agarrar várias meninas. Não era só comigo”.

Mariana diz que recorreu diversas vezes à gerente da loja, que “não dava a mínima”. Desamparada e psicologicamente afetada, a trabalhadora resolveu pedir demissão. “Quando eu estava lá, eu tinha crises nervosas, de ansiedade. Eu não conseguia dormir. Ficava a noite toda pensando. Não queria acordar pra ir trabalhar. Sair de lá foi a melhor coisa que aconteceu”.

As acusações de cultura abusiva dentro dos restaurantes do McDonald’s não se resume ao Brasil. Em 2020, sindicatos de vários países denunciaram a empresa por “assédio sexual sistêmico” para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico, a OCDE, na Holanda.

O corpo jurídico do McDonald’s Brasil, entretanto, costuma recorrer a uma mesma estratégia para encerrar rapidamente ações trabalhistas relacionadas a assédio e racismo: fazer acordos como o assinado com Augusto. Um jeito bem mais rápido, barato e discreto de evitar escândalos que manchem a imagem da empresa perante o mercado e seus acionistas.

“A prática é essa. É o silenciamento do trabalhador”, afirma Betina Santos. Os valores pagos aos funcionários que procuram a justiça giram em torno de R$ 3 a R$ 5 mil, revela a advogada. “Esses trabalhadores são pessoas de baixa renda, que acabam aceitando. Uma conclusão que nós temos é que essa prática está na margem de risco. O McDonald’s já conta com essas reclamações trabalhistas. Pensando nisso, ainda é lucrativo perpetuar práticas discriminatórias”.

‘Já acolhi uma trabalhadora que recebeu R$ 69 no fim do mês’.

A advogada relembra alguns acordos com valores baixos. “Em um caso de racismo, em que o gerente usava termos pejorativos para se referir ao cabelo de uma trabalhadora, o valor do acordo foi de R$ 3 mil pelos danos morais. Em outra situação, um trabalhador que sofria humilhações verbais e até físicas, como beliscões para agilizar o atendimento, recebeu menos de R$ 2 mil”.

A campanha Sem Direitos Não É Legal surgiu em 2012 nos EUA e existe desde 2015 no Brasil. Seu objetivo é levar informações para que trabalhadores da rede de lanchonetes não tolerem situações de abuso e discriminação no trabalho. Santos estima que 85% dos funcionários acolhidos pela campanha ganham menos que um salário mínimo. “Vemos nos holerites muitos descontos indevidos. Essa prática de contratar por hora e fazer esses descontos é muito comum. Já acolhi uma trabalhadora que recebeu R$ 69 no fim do mês”.

Ao Intercept, o McDonald’s afirmou que “sem o conhecimento de mais detalhes das denúncias” não é possível “fazer qualquer esclarecimento nessa reportagem e/ou, até mesmo, apuração interna quanto aos fatos descritos”.

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Ilustração: Matheus Santa Cruz para o Intercept Brasil

As ‘méquizices’ que não aparecem na TV

Avaliado globalmente em US$ 45,8 bilhões, o McDonald’s está entre as 10 marcas mais valiosas do mundo, segundo o ranking de 2021 da consultoria Interbrand. A lista traz empresas como Amazon, Google, Microsoft e Coca-Cola. No segundo trimestre de 2021, a rede de fast food obteve um lucro líquido de US$ 2,219 bilhões com suas atividades no mundo todo.

No Brasil, a marca é controlada pela Arcos Dorados, maior franquia independente do McDonald’s em todo o mundo. São 1.020 restaurantes, 50 mil funcionários e dois milhões de clientes atendidos diariamente.

O marketing agressivo dos últimos anos transformou o McDonald’s em Méqui, com grafia abrasileirada. E, na campanha mais recente, exibida exaustivamente no horário nobre da televisão brasileira, artistas como Luísa Sonza, Simone e Simaria, Ludmilla e Jorge e Mateus contam suas “méquizices” preferidas. Mas muitas outras “méquizices” não aparecem na TV.

Basta entrar em qualquer unidade do McDonald’s para notar que grande parte dos funcionários é jovem. “Muitas vezes, é o primeiro emprego desses jovens de periferia. Eles não sabem o que [pode] estar errado ali”, aponta Rafael Guerra, coordenador da Sem Direitos Não É Legal no Brasil.

O problema envolve, inclusive, a alimentação dos funcionários. “Eles não têm condições nem de levar comida [para o trabalho], ganham muito pouco. É bem complicado, triste. Tem loja em que você só pode comer o hambúrguer mais barato. Muitas vezes, os trabalhadores comem o hambúrguer requentado, o que sobrou”, diz Guerra.

A advogada Santos menciona que, além da questão dos baixos salários, os funcionários apontam também irregularidades na jornada de trabalho. “Muitos deixam de cumprir o horário de descanso em troca de lanches”.

No Facebook, o grupo Trabalhei no McDonald’s’ reúne mais de 57 mil membros. Lá, é muito comum ver quem atuou na empresa em outras épocas, como os anos 80 ou 90, dizendo que os mesmos problemas já eram enfrentados no passado. A maioria dos posts feitos por funcionários aborda os baixos salários, a carga excessiva de trabalho, o esgotamento mental, a vontade de pedir demissão e, principalmente, traz críticas aos superiores.

Grupo aberto reúne ex-funcionários com histórias em comum: excesso de trabalho, salários baixos e esgotamento.

Gerentes: um problema recorrente

Os trabalhadores do McDonald’s entrevistados pelo Intercept trazem em seus relatos algo em comum: a omissão ou os abusos dos superiores nos restaurantes. No mês passado, nós mostramos, por exemplo, que gerentes chegaram a coagir funcionários com covid-19 a trabalhar. Mas os jovens trabalhadores com quem conversei para esta reportagem apontam um segundo problema em comum: seus corpos, seus tons de pele e suas orientações sexuais.

Fernando entrou no McDonald’s em 2017, logo depois de ser expulso de casa pelos pais ao contar que é gay. Começou, então, a produzir conteúdo para a internet contando curiosidades sobre a rotina de funcionário do McDonald’s. Ele alega que, assim que começou a ganhar popularidade nas redes sociais, passou também a ser perseguido por seus superiores. “Uma gerente falou na minha frente que eu era um bosta como treinador, mas como marketing eu era ótimo. Ela, inclusive, já havia gritado comigo”, conta.

“Em outro momento, um gerente pediu para eu tirar minha aliança do dedo porque só héteros podiam usar aliança. Isso foi a gota d’água para mim e resolvi pedir demissão”. Mesmo assim, Fernando decidiu não processar a empresa.

Paulo também trabalhou em uma unidade do McDonald’s. Ele conta que, logo na primeira semana no emprego, foi humilhado pelo gerente. “Ele estava me ensinando a trocar o óleo da fritadeira. Na primeira vez em que fui trocar, acabei derrubando gordura. Ele me colocou para ajoelhar no chão e limpar aquele monte de gordura com dois panos finos”, relembra. Paulo chegou a pedir se poderia usar o esfregão para facilitar a limpeza. O gerente teria dito que não. No dia, um colega de trabalho teria ficado incomodado com a situação.

Em outra ocasião, uma gerente teria comunicado aos funcionários que uma de suas canetas havia sumido e que ninguém iria embora enquanto ela não encontrasse o objeto. Em dado momento, um colega de trabalho alertou Paulo: a gerente teria ido até a mochila dele procurar a caneta. “Eu era o único negro do plantão. Ela poderia ter ido em outra mochilas, mas foi direto na minha. Acredito que tenha sido racismo”.

Paulo entrou com uma ação contra a empresa, mas ainda não recebeu oferta de acordo.

Questionado, o McDonald’s afirmou que reitera seu “compromisso com a promoção de um ambiente de trabalho inclusivo e respeitoso, onde as pessoas se sintam seguras e tenham liberdade plena de expressão”. “Sobre o questionamento realizado pela reportagem se há ‘casos de assédio moral, sexual e racismo sistêmico dentro das unidades’, negamos veementemente essa prática, assim como não somos coniventes com quaisquer situações isoladas que eventualmente ocorram nos restaurantes e escritórios”, disse a empresa, por meio de sua assessoria de imprensa. Sobre os casos relatados, a empresa informa que “sem o conhecimento de mais detalhes das denúncias não é possível fazer qualquer esclarecimento” – leia aqui a íntegra da resposta.

A Arcos Dourados também afirmou que “respeita a apuração aberta pelo Ministério Público do Trabalho de São Paulo e tem colaborado ativamente, apresentando todas as informações solicitadas” e que tem um canal interno de denúncias com garantia de sigilo e anonimato.