Desde que descobriu um câncer de pâncreas, em outubro de 2020, Fabiano tem usado as planilhas de Excel de um jeito diferente. Sempre úteis na sua empresa, elas agora servem para registrar marcadores tumorais. Os indicadores aparecem em exames de sangue e medem a resposta do paciente ao tratamento contra o câncer. Após 12 sessões de quimioterapia, realizadas ao longo de cinco meses, seus médicos esperavam que as taxas diminuíssem (ou se mantivessem iguais), mas aconteceu o contrário: uma delas aumentou quase 137% e, a outra, mais de 390%.

Fabiano desconfia que não estava recebendo a medicação adequada. “E se os caras estiverem pondo água de coco na minha quimioterapia?”, me disse, desconfiado.

Existe uma razão para o temor. Ele fez seu tratamento na Hemomed, uma clínica que atende cerca de 8.500 pacientes por mês na capital e no interior paulista e é alvo de denúncias em vários órgãos, como o Ministério Público Estadual, o Conselho Regional de Medicina e o Conselho Regional de Farmácia, todos em São Paulo. Acusações também foram feitas à UnitedHealth Group, a UHG, empresa americana que controla o Grupo Amil e que credenciou a Hemomed para tratar os pacientes com câncer de seus planos de saúde mais baratos. Em alguns municípios, a clínica é a única opção oferecida pela Amil.

Conversei com quatro médicos oncologistas e com outras pessoas, entre elas executivos e ex-executivos da UHG e da Amil, que reforçaram as suspeitas de Fabiano. Todos disseram que muitos pacientes tratados na Hemomed não têm os resultados esperados na redução dos tumores, nem mostram alterações nos exames clínicos. Vários sequer têm os efeitos colaterais conhecidos dos tratamentos quimioterápicos, como, por exemplo, queda de cabelo ou anemia.

Em resumo, médicos, executivos e pacientes desconfiam que, para garantir preços muito baixos, a Hemomed ofereceria medicamentos oncológicos de origem duvidosa ou aplicaria subdoses nos pacientes. Especialistas da área criticam, sobretudo, uma possível negligência da UHG e da Amil em não investigar as suspeitas.

O Ministério Público de São Paulo, contudo, já iniciou pelo menos duas investigações sigilosas e deve pedir a abertura de um inquérito policial em breve. Já os conselhos regionais de medicina e de farmácia de São Paulo fizeram, desde 2021, ao menos seis vistorias às unidades da Hemomed e da Medfar, farmacêutica contratada para preparar a medicação utilizada em todas as unidades da clínica.

De acordo com um relatório concluído em 7 de abril pelo Conselho Regional de Medicina, os tratamentos mencionados nos protocolos estão “dentro dos parâmetros das práticas atuais”, mas os prontuários de cinco pacientes – analisados por um “grupo técnico de oncologistas” convidados pelo órgão – contêm “poucas descrições dos efeitos colaterais esperados e habituais em casos semelhantes” e também há “poucos registros de exames subsidiários, necessários para o acompanhamento adequado”. Por isso, o órgão recomendou que “mais investigações sejam realizadas, envolvendo outras instituições”, como a Vigilância Sanitária. Eu entrevistei três dos cinco pacientes citados no documento – um deles é Fabiano.

Além desse relatório final, analisei outros parciais, como o da vistoria do CRF na Hemomed de São Paulo e na Medfar. Também li as denúncias feitas ao MP e ao setor de compliance da UHG por dois oncologistas que trabalharam para o grupo. São os médicos Raphael Brandão, que foi diretor-executivo médico da Amil até 2020 e era responsável pelo setor de oncologia da empresa, e Jorge Abissamra Filho, que trabalhava em Mogi das Cruzes e era responsável pela área de oncologia do Hospital Ipiranga. Os documentos mostram que havia motivos para a UHG e a Amil se preocuparem com o tratamento oferecido aos seus clientes.

“Todos os dias aparece um paciente para a gente que está tomando remédio [mas] não está funcionando, tumor está crescendo”, declarou o oncologista Brandão, numa reunião de quase uma hora de duração, em março de 2020, com o vice-presidente do capital humano da UHG no Brasil, Ricardo Burgos, e o diretor médico executivo da UHG no Brasil, Charles Al Odeh. O encontro foi gravado, e eu ouvi o áudio na íntegra.

Se vendendo como uma empresa que ajuda a reduzir custos, a Hemomed cresceu ao longo dos seus 26 anos de atuação na oncologia e possui, atualmente, 10 unidades em oito municípios paulistas. Segundo dados da própria empresa, repassados a mim quando a visitei em 8 de março, são atendidos cerca de 1.500 pacientes da Amil por mês, mas a clínica tem contrato com mais de 30 planos de saúde. Somente na capital, são realizadas cerca de 500 sessões de quimioterapia mensalmente.

O presidente da Hemomed, Bruno Santucci Alves da Silva, atua como oncologista na clínica. Ele também é sócio da Medfar, empresa que prepara os medicamentos utilizados pelos pacientes. O Código de Ética Médica, no entanto, proíbe que o profissional que exerce a medicina tenha relação com empresas farmacêuticas. É uma forma de evitar que se obtenha “vantagem pelo encaminhamento de procedimentos, pela comercialização de medicamentos […] cuja compra decorra de influência direta”. Questionado sobre isso, Santucci disse em nosso encontro que não descumpre o Código de Ética, porque a Hemomed é uma associação sem fins lucrativos e ele foi eleito apenas presidente dela, com mandato de 2020 a 2024.

Por e-mail, a assessoria da UHG e da Amil disse que as suspeitas de Brandão quanto às “supostas irregularidades envolvendo tratamento quimioterápico” nunca foram confirmadas e que “em momento algum, foi constatada a existência de qualquer caso clínico que embasasse a crítica” do médico.

Olhos fechados

A primeira denúncia a que tive acesso foi feita em agosto de 2019 pelo oncologista Brandão, à época o diretor-executivo médico da Amil. Ele enviou um e-mail para cinco executivos da UHG. O médico havia participado, dias antes, de uma apresentação da Hemomed e deveria analisar o contrato que estava prestes a ser feito com o plano de saúde. A oferta de preço muito abaixo do mercado causou estranheza em Brandão. Por telefone, ele me disse que se lembrou, naquele momento, de ouvir colegas oncologistas comentarem sobre a má reputação da clínica durante uma viagem para um congresso internacional, dois meses antes.

No e-mail enviado aos executivos da UHG, o oncologista falou sobre a incompatibilidade dos preços oferecidos pela Hemomed. Enquanto o “tíquete médio de tratamento” nos hospitais da Rede Americas, que fazem parte do mesmo grupo da Amil, não custaria menos de R$ 1.500 por sessão de cada paciente, a Hemomed garantia o serviço por valores entre R$ 300 e R$ 500. Em um cálculo feito com base no número total de credenciados do plano de saúde na cidade de São Paulo, chamado de “custo por vida”, isso representa menos de R$ 3 por beneficiário – o valor de mercado gira em torno de R$ 15, escreveu Brandão.

Por e-mail, a assessoria de imprensa da UHG afirmou que desconhece esse comunicado. Já o médico me disse que não só informou oficialmente a empresa como havia relatado tudo isso pessoalmente para vários de seus superiores.

O diretor-executivo médico da Amil acreditava que os pacientes com câncer poderiam estar tomando placebo na Hemomed.

Outro e-mail interno confirma os valores informados por Brandão. Enviado pela vice-presidente da UHG nos Estados Unidos, Chelsey Berstler, a mensagem diz que os tratamentos podem variar entre R$ 1.600 e R$ 2.400 em hospitais da Rede América, como na unidade de Santos, apresentada como um bom modelo de gestão.

A UHG nunca deu resposta oficial sobre as suspeitas, segundo Brandão. Ele, então, denunciou novamente a Hemomed, em e-mail enviado em 3 de outubro de 2019 à vice-presidente do setor jurídico e de compliance, Maria Alicia Lima Peralta, e à chefe da qualidade médica, Taissa Sotto Mayor. Além de mencionar a inexplicável diferença de preços ofertados pela Hemomed, Brandão escreveu a elas que “existe uma suspeita de tal prestador não fornecer o medicamento adequado, ou talvez a dose adequada. Como oncologista chefe do nosso grupo, não me sinto confortável com tais possibilidades. Gostaria do auxílio de vocês neste caso”. Em outras palavras, o diretor-executivo médico da Amil estava dizendo que os clientes em tratamento de câncer poderiam estar tomando placebo, como ele confirmou em nossa conversa.

Desde 2021, a UHG vem reduzindo suas operações no Brasil. Uma das estratégias da empresa foi ficar apenas com os convênios mais lucrativos, como os empresariais. Em dezembro, a Amil repassou os 337 mil planos individuais para outra operadora do mesmo grupo, a Assistência Personalizada à Saúde, APS. O segundo passo era vender a APS para uma empresa de investimentos recém-criada, chamada Fiord Capital. Essa operação, contudo, foi barrada pela Agência Nacional de Saúde Suplementar, a ANS, que exigiu mais explicações sobre a negociação e a garantia de que ela não afetaria os beneficiários do plano de saúde.

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João Brizzi para o Intercept Brasil

Mesmo tratamento, resultados opostos

“Calma aí, que ainda tem mais notícia ruim”. Fabiano tentava amenizar a entrevista, brincando. Por chamada de vídeo, ele falou sobre o primeiro tratamento que fez na Hemomed para o câncer de pâncreas e que não teve resultado positivo – foram 12 sessões de quimioterapia com medicamentos muito fortes.

Os marcadores tumorais só aumentavam, de acordo com seus exames, aos quais tive acesso. Na primeira sessão, em dezembro de 2020, um dos marcadores estava em 119,7 U/mL – o ideal é abaixo de 39 U/mL. O outro, que não deve passar de 5 ng/mL, estava melhor – 3 ng/mL. Em outubro de 2021, um novo exame diagnosticou que ele estava com metástase no fígado, e os marcadores tumorais já haviam alcançado as alarmantes taxas de 3.562,0 U/mL e 81,8 ng/mL, respectivamente.

Preocupado, Fabiano buscou uma segunda opinião na clínica do oncologista Brandão e ouviu outra má notícia: teria que repetir o tratamento anterior, mas o ideal era que fosse em outra clínica. Como seu plano de saúde, o Sobam, só é aceito na Hemomed de Jundiaí, precisou pagar R$ 12 mil por cada sessão de quimioterapia, num gasto total de R$ 144 mil.

Dependendo do paciente ou do tipo de câncer, pode não haver resposta à quimioterapia. Mas o que aconteceu depois mostra que esse não era o caso de Fabiano, como mostram seus exames, lidos por mim. Após nove sessões com os mesmos tipos de medicamentos, um dos marcadores tumorais caiu 69%, e o outro baixou quase 16%. Ainda estão longe do ideal, mas ao menos houve a primeira boa notícia: Fabiano passou a responder ao tratamento quimioterápico que antes não havia funcionado. Ele também sente mais efeitos colaterais.

“Antes, o meu cabelo não caiu e agora caiu para caramba. E eu estou com a boca machucada, com afta. Isso não aconteceu da primeira vez”, me contou – o que aumenta as suspeitas do paciente e de oncologistas em relação à integridade dos fármacos usados pela Hemomed. Segundo o Manual de Oncologia Clínica do Brasil, um dos remédios que Fabiano tomou nos dois tratamentos, o irinotecano, “definitivamente causa queda de cabelo” nos pacientes.

De acordo com uma oncologista do Instituto Nacional do Câncer, o Inca, que falou comigo sob a condição de anonimato, por se tratar de um assunto “muito delicado”, é incomum que os marcadores tumorais de um paciente aumentem em um primeiro momento e diminuam depois com o mesmo tratamento. “Isso não é esperado e parece contraditório”, ela disse.

‘Não bastasse o medo de morrer da doença, existe o de não ter o tratamento correto, o que pode me matar mais rápido’.

Telma Sampaio de Oliveira, de 44 anos, também diz que não teve os efeitos colaterais esperados para os cinco tipos de quimioterapia que fez desde 2020, quando descobriu um câncer de ovário. Três dos medicamentos que ela já tomou – carboplatina, taxol e gencitabina – podem causar anemia e vômito em até 96% dos pacientes, de acordo com o Manual de Oncologia Clínica do Brasil. Mas ela conta que não sentiu nada disso, e sua doença piorou. Agora, tem metástases no pulmão, fígado, pâncreas e peritônio.

Ela sempre fez quimioterapia pela Amil na Hemomed de Guarulhos, única clínica credenciada ao plano dela, e ouvia dos médicos que a doença evoluía por causa do seu tipo de tumor, que costuma responder mal ao tratamento. Telma, então, decidiu buscar uma segunda opinião e encontrou o oncologista Abissamra.

Segundo ela me disse, o médico afirmou que seu caso é complicado. Contudo, o profissional acreditava que o tratamento não era confiável e havia uma suspeita de que a Hemomed usava medicamentos de origem duvidosa ou doses reduzidas. “Não bastasse o medo de morrer dessa doença, ainda existe o medo de não ter o tratamento correto, o que pode me matar mais rápido”, desabafou Oliveira, que não tem condições de arcar com os altos custos de sessões particulares.

O medo igualmente existia para William Fungaro Gusmatti, que relatou ter feito quatro sessões na Hemomed de um tratamento muito agressivo para câncer de cólon, mas não teve diarreia nem neuropatia periférica, que são choques nas mãos e nos pés, comuns em 48% a 92% dos pacientes que, assim como ele, tomaram o remédio oxaliplatina.

Em fevereiro de 2020, quando descobriu o câncer e fez esse mesmo tratamento em outra clínica de Mogi das Cruzes, Gusmatti diz que sentiu esses efeitos colaterais. Segundo a esposa dele, Marisa Miguel Gusmatti, o marido precisou repetir as quimioterapias, porque descobriu uma metástase em outubro de 2021. Mas ele não começou o tratamento de imediato, porque a Amil estava descredenciando todas as clínicas da cidade que atendiam pacientes oncológicos dos planos mais baratos.

Gusmatti fez a primeira quimioterapia na Hemomed somente em dezembro e logo notou a diferença. “Em vez de diminuir ou estabilizar, o tumor só aumentou, e ele passou a sentir muitas dores”, me disse Marisa por telefone. Ela procurou o oncologista Brandão e relatou o caso. O marido dela foi atendido gratuitamente pelo médico, ficou internado por uma semana em São Paulo e fez uma sessão de quimioterapia no hospital. Dessa vez, vomitou e teve diarreia. Mas o tratamento chegou tarde demais. Ele morreu em Mogi das Cruzes há cerca de um mês e meio, poucos dias depois de receber alta.

Além de apresentar os casos de Fabiano, Oliveira e Gusmatti para a oncologista do Inca, mostrei-os também para o ex-chefe de oncologia de um hospital público de Minas Gerais, que igualmente pediu para não ser identificado. Ambos disseram que os resultados parecem estranhos e precisam ser questionados.

O ex-chefe de oncologia mineiro considera os casos de Fabiano e Gusmatti, que foram expostos aos mesmos tratamentos e tiveram reações diferentes, como os mais preocupantes. “Isso pode acontecer, mas é muito raro”. A oncologista do Inca concorda, principalmente no caso de Fabiano. “Não dá para afirmar que a primeira quimioterapia não foi feita, mas é um comportamento incomum”.

No caso de Telma, o que chama atenção da oncologista do Inca é a falta de efeitos colaterais, principalmente a anemia, após a exposição a tantos tratamentos. Para combater as células cancerígenas, a quimioterapia destrói todas as células de crescimento rápido, inclusive as que produzem a hemoglobina. Se essa proteína não está deficiente, isso pode ser um indício de que as células cancerígenas também não estão sendo destruídas.

Questionado sobre os casos mencionados nesta reportagem, o presidente da Hemomed, o oncologista Bruno Santucci Alves da Silva citou artigos científicos e argumentou que “a análise da queda dos marcadores tumorais precisa ser bastante criteriosa”, pois a redução do tamanho do tumor “é o parâmetro mais objetivo e largamente utilizado em todo mundo”. Segundo ele, a falta de efeitos colaterais em alguns casos também pode estar dentro do percentual de pacientes que não os apresentam. “O efeito terapêutico não está diretamente relacionado à presença de efeitos colaterais”.

O presidente da Hemomed ainda alegou que a clínica sofre perseguição, porque revolucionou o mercado de saúde, oferecendo tratamento a preço baixo com eficiência. Essa resposta, contudo, não convence quem entende como funciona o sistema de saúde privado. Sem tratar especificamente do caso da Hemomed, que sequer conhece, Clemente Nobrega, consultor especializado em estratégias de inovação e autor do livro “O novo mercado da saúde e o novo médico”, me disse que as empresas de saúde precisam mostrar estudos que comprovem a suposta eficiência. “Não basta ser barato, tem que ser barato e com bom resultado”, afirmou por telefone. “A melhor maneira é medir o desfecho, auditá-lo, divulgá-lo e estimular o público a consultar esses dados. Não é dizer que está revolucionando”.

Nobrega acrescentou que as empresas, de um modo geral, miram apenas o lucro e não a qualidade de vida dos seus clientes. “O sistema de saúde induz distorções que se refletem em maus resultados”, me disse o especialista por telefone.

Essa “distorção sistêmica”, reforçou, ocorre em todo o setor e é provocada principalmente pela falta de transparência sobre o que acontece com os pacientes depois de submetidos a um tratamento médico. “Sem medir o desfecho, é praticamente impossível não haver pessoas com sequelas graves e pacientes que morrem sem precisar morrer. Pode ser que uma empresa exagere mais e chegue às manchetes, mas é o sistema todo que está torto”, analisou Nobrega.

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João Brizzi para o Intercept Brasil

Punição a quem denuncia

A explicação do presidente da Hemomed sobre a falta de efeitos colaterais e o aumento de marcadores tumorais de quem se trata na clínica não responde à principal questão de médicos e pacientes: por que pessoas submetidas a tratamentos iguais tiveram respostas diferentes? A Amil também não buscou essa resposta, nem deu o auxílio que Brandão pediu. “Percebi claramente que eu havia incomodado”, ele me disse por telefone.

Em março de 2020, sete meses depois de ter enviado o primeiro e-mail com suas suspeitas, o oncologista foi demitido por justa causa. A UHG alegou que ele tinha um consultório particular, o que configurava “prática de atos de concorrência” com “prejuízos” para a empresa. No entanto, e-mails e conversas de WhatsApp que pude ler mostram que seus chefes sempre souberam do consultório.

A partir de 11 de outubro de 2019, uma semana depois de Brandão ter denunciado formalmente a Hemomed, surgiram 43 reclamações na UHG contra ele ao longo de cinco meses. “Eu nunca fui ouvido sobre essas acusações. Estava sendo investigado sem poder me defender”, me disse.

Segundo a UHG, a rescisão do contrato de Brandão ocorreu em virtude de graves violações contratuais e de políticas internas da empresa, que envolveram a constituição de uma clínica particular, o desvio de pacientes dos hospitais da Rede Americas para essa clínica, a utilização de médicos do grupo para atendimentos aos seus pacientes privados, além de “indicações graves de comportamento inapropriado no trato com uma grande quantidade de profissionais de saúde funcionários”.

O médico, no entanto, considera que a demissão foi motivada por perseguição e entrou com uma ação em um tribunal arbitral em novembro de 2020. O instrumento extrajudicial é utilizado por empresas para resolver conflitos legais sem ir à justiça comum. Os casos são analisados por um colegiado indicado pelas partes envolvidas, chamados de árbitros.

As denúncias contra a Hemomed estiveram entre os principais assuntos nas audiências. O vice-presidente médico da UHG no Brasil, Al Odeh, admitiu que já tinha ouvido informações negativas sobre a Hemomed antes mesmo de isso se tornar um “tema recorrente” trazido por Brandão. Segundo ele, “o preço muito competitivo” chamou sua atenção e poderia até ser “uma ótima notícia do sistema de saúde que alguém faça isso com essa eficiência”. Mas Odeh destacou que nunca viu o contrato da Amil com a Hemomed e que só tinha conhecimento de uma denúncia, a de Brandão. Para o executivo, cabia ao oncologista, e não à empresa, “mergulhar mais nas situações que ele identificou” antes de fazer a denúncia.

Os médicos concluíram que teriam sido perseguidos pelo mesmo motivo – mexer no vespeiro da Hemomed.

Nenhuma investigação aprofundada foi necessária cerca de dois anos antes, quando a Rede Americas encerrou o contrato com a Hemomed, que atendia pacientes do Hospital Paulistano, pertencente ao mesmo grupo da Amil. Ela prestava serviço como clínica terceirizada, para dar assistência de retaguarda quando o hospital não tinha condições de atender à demanda. “A clínica era muito mal falada no mercado de São Paulo”, principalmente quanto à “qualidade do tratamento”, me contou Mauro Borges, à época diretor de operações da Rede Americas.

Por telefone, ele me disse que por volta de 2018 pediu para dois médicos, também diretores do grupo, fazerem uma visita à clínica. “Eles não conseguiram avaliar como funcionava a operação da Hemomed, e nem tivemos segurança sobre os resultados assistenciais. Um dos sócios que os atenderam foi até irônico e chegou a dizer que os equipamentos do local tinham sido adquiridos de maneira irregular”, disse Borges, que decidiu deixar todos os atendimentos nas mãos do próprio Hospital Paulistano para “garantir a segurança dos pacientes”.

A Hemomed nega que tenha atendido pacientes da unidade. De acordo com a assessoria de imprensa da clínica, a única relação com o hospital “foi através do Hemocentro São Lucas, na parte de coleta de medula para transplante” e sequer havia contrato, pois se tratava de uma demanda pontual que durou cerca de três meses. Já a assessoria da UHG confirmou que havia contrato para prestação de “serviços oncológicos”, mas ele foi encerrado, “??junto com outros prestadores”, porque a Rede Americas decidiu, “como estratégia de negócio, internalizar esse serviço”.

Interrogada na audiência da arbitragem, a diretora de compliance da UHG no Brasil, Luciana Servija, alegou que após as denúncias de Brandão foi feita uma primeira análise, chamada de “screening [verificação] reputacional”. Segundo Servija, não havia “respaldo nos protocolos de investigação”, como a identificação de nomes de pacientes, para dar continuidade ao caso. Questionados por meio da assessoria de imprensa da UHG, tanto Servija quanto Al Odeh reiteraram o que disseram na audiência de arbitragem.

A ausência de outras denúncias ou a falta de informações mais detalhadas não explicam porque uma segunda queixa, feita ao compliance da UHG pelo oncologista Abissamra Filho em setembro de 2021, está parada até agora. Em sua denúncia contra a Hemomed, o médico citou o nome de três pacientes que, segundo ele, não estavam recebendo o tratamento adequado.

Abissamra contou que, em 2021, a Amil descredenciou todas as clínicas de quimioterapia de Mogi das Cruzes que atendiam beneficiários dos planos mais baratos, o que corresponde à maioria dos usuários, e passou a oferecer apenas a Hemomed como opção a esses pacientes.

Assim como Brandão, ele foi demitido depois da sua denúncia. “Eu falei de forma anônima, mas, como dei nomes de clientes, imagino que tenham deduzido que fui eu [o denunciante]. Quatro dias depois, fui expulso do hospital”, contou. A assessoria da UHG alega que o oncologista foi desligado da empresa porque, com a chegada da Hemomed, seus serviços não eram mais necessários.

Foi o irmão de Abissamra, também oncologista, que lhe mostrou postagens de Brandão no Instagram nas quais ele relatava a perseguição que sofreu na UHG. Abissamra, então, enviou uma mensagem ao colega em outubro de 2021: “Denunciei a Amil e estou passando por isso. Queria falar com você”. A conversa seguiu por telefone, e eles chegaram à conclusão de que teriam sido perseguidos pelo mesmo motivo – mexeram no vespeiro da Hemomed.

Na reunião realizada em março de 2020, o vice-presidente do capital humano da UHG, Ricardo Burgos, e o diretor médico executivo, Al Odeh, tentaram fazer um acordo com Brandão. Para pressioná-lo, usaram como cartada a investigação interna em andamento contra ele. Mas o oncologista não cedeu e reforçou sua indignação. “Não foi feito nada, não foi investigado”, disse, se referindo às suspeitas em relação à Hemomed. Burgos e Al Odeh se calaram sobre isso.

Brandão perdeu o processo que moveu contra a UHG na arbitragem e foi condenado a pagar mais de R$ 4 milhões para a empresa. Inconformado, denunciou o árbitro André de Luizi Correia na Polícia Civil por falsidade ideológica. Ele descobriu que o escritório de advocacia de Luizi já tinha ocupado o mesmo endereço e tinha o mesmo número de telefone do escritório Terra Tavares, que representava a Rede Americas no tribunal arbitral. Os dois escritórios também já haviam atuado juntos em outras causas na justiça comum. Nada disso foi informado pelo árbitro antes de assumir o julgamento.

Em nota, o escritório Terra Tavares e o árbitro, por meio de seu advogado, disseram que Brandão apenas tenta reverter judicialmente decisões já tomadas contra ele em várias instâncias e que “jamais houve qualquer sociedade, vínculo comercial ou relação” que impedisse Correia de atuar naquele procedimento. “O árbitro André efetuou a revelação que lhe cabia, na forma da lei”.

Ainda existem mais três processos em andamento: uma ação no Tribunal Regional do Trabalho de São Paulo, um pedido de anulação da sentença da arbitragem no Tribunal de Justiça paulista e um pedido de execução da empresa para que Brandão pague a multa, que, somada ao valor original, já é de quase R$ 6 milhões. Além disso, a Hemomed está processando Brandão por danos morais. A empresa pede uma indenização de no mínimo R$ 500 mil, a publicação de um vídeo de retratação nas redes sociais do médico, a exclusão de uma entrevista que ele deu para um canal no YouTube e remoção de todas as postagens que Brandão fez sobre “tratamentos com medicamentos quimioterápicos adulterados/ineficazes”, incluindo aquelas que não mencionam o nome da clínica. A justiça negou os pedidos da Hemomed até que o processo seja concluído.

Preços ‘impraticáveis’

O dono de uma clínica com quem conversei me disse ser impossível concorrer com os preços oferecidos pela Hemomed. Ele foi um dos prestadores descredenciados pela Amil e perdeu grande parte do faturamento que vinha do atendimento dos pacientes de categorias mais baratas do plano de saúde. Pediu para não ser identificado, pois teme perder também os poucos pacientes que restaram, beneficiários das categorias mais caras.

“O valor praticado pela Hemomed não pagava nem 50% dos custos que eu tinha. Fiquei igual louco fazendo cálculos, tentando entender como eles conseguiam prestar um serviço tão barato. Me pergunto se descobriram a oncologia de novo ou se tudo que todo mundo fez até hoje está errado”, desabafou, por telefone.

Em vez de cobrar por procedimento realizado, a Hemomed recebe um valor fixo por mês, calculado em cima do total de beneficiários na região. Assim, se a Amil tem 100 mil clientes em um município e paga cerca de R$ 3 por cada um, como o oncologista Brandão disse no e-mail enviado ao compliance da UHG, a clínica receberá R$ 300 mil por mês para atender todos os pacientes oncológicos que surgirem naquele local.

A Hemomed se negou a responder sobre os valores que cobra para os planos de saúde credenciados, mas informou que 60% dos pacientes são atendidos no modelo tradicional, ou seja, cobrando por cada procedimento. Os demais 40% se encaixam no modelo de valor fixo por mês, que leva em consideração custos históricos e dados epidemiológicos daquela carteira de clientes, “permitindo remunerações diferenciadas”. O presidente da clínica acrescentou, ainda durante minha visita, que o contrato com as prestadoras prevê cobrança extra em caso de utilização de novas tecnologias no tratamento. “O protocolo estabelecido para os pacientes é o mesmo, independente do fator remuneração”, garantiu Santucci.

‘Me pergunto se a Hemomed descobriu a oncologia de novo ou se tudo que todos fizeram até hoje está errado’.

Em dezembro de 2021, durante uma vistoria à Hemomed de São Paulo, fiscais do Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo, o Cremesp, descobriram que a clínica tem protocolos internos que submetem a prescrição de alguns remédios a uma discussão prévia com a diretoria técnica, da qual faz parte o presidente da empresa. De acordo com o relatório, o protocolo precisa de esclarecimento para evitar interferência nas prescrições médicas e para que “se afaste a possibilidade de tratamentos diferentes para pacientes semelhantes em função de restrições econômicas impostas pela direção ou pelos convênios médicos”.

Os medicamentos sujeitos à aprovação são o bevacizumab e o trastuzumab, geralmente adicionados ao primeiro tratamento do câncer de ovário e de endométrio, respectivamente. Eles estão no rol da Agência Nacional de Saúde e, por isso, deveriam ser oferecidos pelos planos de saúde sem nenhuma restrição, dependendo apenas da prescrição médica. A Hemomed justificou que o protocolo quanto ao bevacizumab é “uma medida de segurança”, pois o paciente não pode usar esse medicamento com menos de quatro a seis semanas do procedimento cirúrgico. Sobre o trastuzumab, a justificativa é que o remédio “ainda não entrou na bula brasileira como arsenal terapêutico” para câncer de endométrio.

Conforme o contrato que pude ler, a Hemomed paga à Medfar R$ 30 por manipulação de cada quimioterapia. O documento não informa quem é o responsável por comprar os remédios, mas o presidente da Hemomed, Bruno Santucci, me disse em nosso encontro que é a clínica. Porém, não há registro de nenhum farmacêutico, profissional mais habilitado para fazer compra de medicamentos, entre os 62 funcionários da empresa, segundo o Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde, o CNES. A Hemomed me informou os nomes de quatro farmacêuticos contratados entre 2020 e 2021. A CEO da empresa, Júlia Pinheiro Medeiros, não soube responder em minha visita por que eles não constavam nos registros oficiais e me disse que pediu para o setor responsável verificar a situação.

Quem acompanhou os fiscais do Conselho Regional de Farmácia, o CRF, durante a vistoria ocorrida em dezembro foi o farmacêutico Adelmo Alves Nunes, que disse ser funcionário da Hemomed. No entanto, além de não constar entre os funcionários registrados no CNES, ele sequer havia comunicado ao conselho o vínculo profissional, o que é uma exigência.

O mistério sobre onde Nunes realmente trabalha é maior ainda, porque uma enfermeira que acompanhou a vistoria do CRF à Hemomed de Osasco, também em dezembro, mencionou que ele é um farmacêutico da Medfar. Questionados sobre essas contradições, os representantes Hemomed insistiram que Nunes trabalha na clínica desde outubro de 2021. No seu LinkedIn, porém, ele diz que é funcionário da Hemomed desde 2019, o que contraria a informação da empresa. Na visita que fiz à clínica, aliás, não o encontrei.

A falta de informação sobre quem é, de fato, o profissional responsável pela manipulação dos quimioterápicos também mereceu destaque no relatório de vistoria realizado na Hemomed de Mogi das Cruzes, em novembro. Os fiscais anotaram que os rótulos das bolsas de quimioterapia não tinham essa informação, indispensável. Tampouco constam a data e a hora em que a manipulação do medicamento foi feita ou mesmo o prazo de validade e as condições de temperatura para conservação e transporte.

Questionei o CRF e o Cremesp sobre as informações dos relatórios e sobre o que elas significavam do ponto de vista da segurança para os pacientes atendidos pela Hemomed, mas os conselhos não responderam. O Cremesp disse que sua apuração, iniciada em dezembro, é sigilosa e que “a análise do produto quimioterápico que está sendo infundido é de competência da vigilância sanitária”. Nem a vigilância estadual e nem a municipal, porém, realizaram vistoria na Hemomed com o objetivo de avaliar a medicação usada nos pacientes, segundo me informaram por telefone as assessorias de imprensa. Já o CRF se negou a responder às minhas perguntas.

Atualização: 11 de abril, 10h05

Após a publicação desta reportagem, a assessoria de imprensa da Hemomed reforçou que trabalha com uma “rígida política de análise de desfecho clínico” e que é possível auditar a manipulação de medicamentos por meio de “engenharia reversa do processo”, permitindo que qualquer lote “possa ser analisado a posteriori”. A empresa afirmou ainda que “os médicos que a acusam preferiram cooptar apenas três pacientes em redes sociais em busca de argumentos para manterem a tese pessoal”. No entanto, como citado na reportagem, os três casos que contamos também foram analisados pelo Conselho Regional de Medicina, que concluiu a partir dos prontuários de cinco pacientes que mais investigações sobre a Hemomed são necessárias.