Na campanha presidencial, Joe Biden publicou um artigo na revista Foreign Affairs intitulado “Por que a América deve liderar novamente”, no qual expôs sua visão sobre as armas mais perigosas do arsenal norte-americano. “Acredito que o único propósito do arsenal nuclear dos EUA deva ser dissuadir – e, se necessário, retaliar – um ataque nuclear”, afirmou o então candidato. “Como presidente, vou trabalhar para pôr em prática essa crença, consultando os militares e aliados dos EUA.”

A declaração deu aos defensores do controle de armas a esperança de que o presidente adotaria uma política de “não primeiro uso”, ou seja, que os EUA se comprometeriam a nunca iniciar um conflito nuclear. A política atual permite que o presidente ataque primeiro em circunstâncias extremas – por exemplo, em resposta a um ataque químico devastador –, o que reduz a margem para o começo de uma guerra nuclear. Mas agora, quando o mundo está mais próximo do que nunca de um conflito com armas atômicas, por conta da guerra devastadora do presidente russo Vladimir Putin contra a Ucrânia, Biden voltou atrás em suas palavras.

No dia 29 de março, a Casa Branca divulgou um breve resumo da estratégia de Biden em relação a armamentos nucleares, indicando sua decisão: “Os Estados Unidos só considerariam o uso de armas nucleares em circunstâncias extremas para defender os interesses vitais dos Estados Unidos ou de seus aliados e parceiros”.

Assim, torna-se impossível distinguir as posições dos EUA e da Rússia sobre o emprego de armas nucleares. Segundo a doutrina militar russa, uma arma nuclear pode ser usada se o país enfrentar uma ameaça “existencial” – um fato que Putin lembrou a observadores do mundo inteiro enquanto atacava a Ucrânia nas últimas semanas.

A decisão de Biden de manter a política dos EUA tão semelhante à da Rússia significa perder uma oportunidade de construção de uma coalizão internacional contra conflitos nucleares, na visão de defensores do desarmamento.

O senador democrata Ed Markey, copresidente do Grupo de Trabalho de Controle de Armamentos Nucleares e Armas, foi ao plenário do Senado dos EUA em 31 de março para acusar a política: “Infelizmente, a democracia americana e a autocracia da Rússia compartilham uma coisa importante em comum: ambos os sistemas dão aos presidentes dos Estados Unidos e da Rússia os poderes divinos conhecidos como autoridade única para acabar com a vida no planeta como a conhecemos, ordenando um primeiro ataque nuclear”.

De acordo com o Wall Street Journal – que revelou, em 25 de março, a decisão de Biden de manter a autoridade do primeiro ataque –, o presidente dos EUA enfrentou pressão de aliados para abandonar sua promessa de campanha. No final de março, Biden se reuniu com parceiros europeus em meio a preocupações de que a Rússia possa usar uma arma nuclear ou química na guerra contra a Ucrânia (a NBC noticiou no início de abril que três funcionários dos EUA admitiram não haver evidências de que a Rússia tenha transportado armas químicas para as proximidades do território ucraniano).

Diretor de políticas do grupo de controle de armas nucleares Plowshares Fund, Tom Collina argumenta que uma reversão da autoridade de ataque poderia ter beneficiado os esforços internacionais contra a Rússia. “Putin ameaça com o primeiro uso de armas nucleares para manter a Ucrânia como refém e afastar os EUA e a OTAN”, afirmou o diretor em entrevista ao Intercept. “Isso é chantagem nuclear, um precedente perigoso ao qual devemos nos opor. Portanto, é profundamente decepcionante que o governo Biden tenha perdido uma oportunidade crucial de rejeitar o primeiro uso. Em vez disso, a política de Biden também permite o primeiro uso e é essencialmente a mesma da Rússia, comprometendo a capacidade de Biden de construir uma oposição internacional ao que Putin está fazendo.”

Esse contexto pode ser observado no parlamento de pelo menos um dos aliados norte-americanos. Em 1º de abril, dezenas de membros da bancada progressista do Japão – uma coalizão minoritária à esquerda do conservador Partido Liberal Democrata, que é liderado pelo primeiro-ministro japonês Fumio Kishida – juntaram-se a parlamentares da bancada progressista do Congresso dos EUA para pedir que Biden se comprometa com uma política de não primeiro uso. “Uma declaração dos EUA afirmando que nunca iniciaria uma guerra nuclear, apoiada pelo Japão, daria nova vida aos esforços internacionais para reduzir e, eventualmente, eliminar o perigo de uma guerra nuclear”, afirma a carta liderada pela presidente da bancada progressista norte-americana, a democrata Pramila Jayapal. Os parlamentares citaram a importância de tal política, pois as tensões entre os EUA e a China, outra potência nuclear, seguem se agravando (a China possui significativamente menos armas nucleares que os EUA e a Rússia, mas o Departamento de Defesa norte-americano afirma que o país asiático está ampliando seu arsenal).

Outros democratas se calaram ou sinalizaram apoio tácito ao status quo. Em março, os republicanos aproveitaram uma audiência do Comitê de Serviços Armados do Senado com o chefe do Comando Estratégico dos EUA, almirante Charles Richard, para defender a autoridade do primeiro ataque. Quando Richard disse que mudanças na política declaratória prejudicariam as relações com os aliados, o presidente do painel e senador democrata Jack Reed não questionou o argumento. Nenhum outro democrata abordou o assunto.

Apesar dos perigos das armas nucleares, os democratas estão permitindo que o medo de parecerem fracos em meio à guerra da Rússia contra a Ucrânia triunfe sobre uma reforma significativa que poderia tornar o mundo mais seguro. “Certamente sou a favor de deixar claro que os Estados Unidos não serão os primeiros a usarem armas nucleares”, declarou o senador democrata Chris Murphy ao Intercept. “Teria que pensar um pouco mais se este é o momento certo ou qual seria o mecanismo para adotar essa política.”

Entretanto, Murphy minimizou a visão de que as políticas de ataque nuclear dos EUA e da Rússia sejam similares: “a política da Rússia é o que está na cabeça de Vladimir Putin no momento”.

Enquanto mantém a autoridade de primeiro ataque, o governo Biden planeja reverter programas de armas nucleares iniciados na gestão Trump. Segundo o Wall Street Journal, Biden planeja se livrar da bomba gravitacional B83, a maior do arsenal nuclear dos EUA, que estava prestes a ser aposentada até o governo anterior decidir mantê-la. Biden também planeja abandonar um míssil nuclear de cruzeiro lançado do mar ao qual o governo Trump havia dado luz verde.

‘Se os relatos forem verdadeiros, Biden perdeu uma oportunidade histórica de reduzir o papel das armas nucleares na estratégia militar dos EUA’.

Biden, no entanto, decidiu manter o plano do governo Trump de implantar a ogiva W76-2 de “baixo rendimento” em submarinos nucleares. Esse tipo de armamento, menos explosivo em comparação com as armas nucleares mais destrutivas, como mísseis balísticos intercontinentais, aumenta potencialmente as chances de que ocorra uma guerra nuclear.

A Rússia notoriamente tem mais armas nucleares de baixo rendimento que os EUA, o que gerou preocupações sobre as possibilidades do uso desse arsenal na guerra contra a Ucrânia, especialmente se Putin acreditar não haver outra forma de derrotar a resistência. Murphy pediu que os EUA tomem medidas para impedir a proliferação desses armamentos no mundo inteiro.

“É hora de liderarmos uma conversa global sobre a proliferação dessas armas nucleares táticas menores, porque elas permitem que um louco justifique usá-las e acreditar que pode se safar”, afirmou.

Enquanto isso, Biden rejeitou a principal oportunidade de unir aliados em torno do esforço por uma política de não primeiro uso. “Se os relatos da imprensa forem verdadeiros, o presidente Biden perdeu uma oportunidade histórica de reduzir o papel das armas nucleares de dissuasão existencial na estratégia militar dos EUA”, declarou o senador Markey em comunicado após a reportagem do Wall Street Journal. “Manter um papel de combate para as armas nucleares dos EUA é um triunfo para a trilhardária indústria de defesa, mas uma tragédia para todos que contam com o presidente para que ele cumpra sua promessa de campanha de fazer da dissuasão o único propósito das armas nucleares.”

Tradução: Ricardo Romanoff