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Foto: Sérgio Alberti/Folhapress

Atualização: 5 de julho de 2022, às 17h55

Este texto foi atualizado com trechos de uma resposta dos Arautos dos Evangelhos enviada ao Intercept.

Imagine que uma seita comandada por homens ultra católicos de extrema direita construiu castelos imensos e igrejas suntuosas para abrigar escolas de regime de internato para crianças e jovens. Nesses internatos, os alunos passam por uma lavagem cerebral que os induz a rejeitar a própria família e os obrigam a cultuar os fundadores dessa seita como divindades. Todos os internos são obrigados a vestir uniforme medieval com correntes na cintura, botas de cavalarias e a seguir um rigoroso conjunto de regras de comportamento. Os alunos sofrem agressões físicas, verbais, assédio sexual, alienação parental, tortura, estupro e até homicídio.

Parece um roteiro macabro de filme de terror no estilo The Handmaid’s Tale, mas, segundo dezenas de denúncias, isso pode estar acontecendo hoje no Brasil, dentro das instalações do Arautos do Evangelho. O grupo costuma recrutar crianças de origem pobre, encantando seus pais com a possibilidade dos filhos estudarem de graça em um castelo imponente, com princípios católicos e disciplina militar. Com pouco mais de 3 mil membros e cerca de 700 alunos, a associação cresceu nos últimos anos e hoje tem 15 colégios espalhados por várias cidades do país.

Em 2019, uma matéria do Fantástico revelou uma série de abusos que ocorriam dentro das escolas do grupo. A partir da reportagem, mais de 70 pessoas, entre ex-internos e pais, procuraram a Defensoria Pública do Estado de São Paulo para denunciar os crimes cometidos na principal unidade dos Arautos do Evangelho, que fica em Caieiras, São Paulo. Os Arautos negam que tenham ocorrido abusos, afirmando que os vídeos do Fantástico foram divulgados “de forma distorcida” e mostram, na verdade, “orações de libertação”.

Neste mês, a Justiça determinou que todas as escolas do grupo parem de matricular novos alunos e exigiu que todos os alunos sejam mandados de volta para casa até o fim deste semestre. Na decisão, a juíza afirma que “na ideologia desta instituição, os pais representam um perigo e são até considerados inimigos por desvirtuarem os filhos dos caminhos religiosos”. Em 5 de maio, após a publicação deste texto, o Tribunal de Justiça de São Paulo cassou a liminar que proibia novas matrículas. Em resposta a esta reportagem, os Arautos negaram as acusações, que consideram “absurdas”, e afirmaram que a família é parte essencial do desenvolvimento dos jovens.

Os Arautos do Evangelho foi fundado em 1999 por João Clá Dias, braço direito de Plínio Corrêa na antiga Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade, a famosa TFP — o grupo católico ultrarreacionário e anticomunista que teve papel importante no golpe de 1964 e na defesa da ditadura militar.

A TFP foi uma das principais responsáveis pela organização das Marchas da Família com Deus pela Liberdade, que conclamaram o golpe contra o então presidente João Goulart. Plínio Corrêa era escritor, advogado, professor e foi o deputado mais votado na Constituinte de 1934 pela Liga Eleitoral Católica.

Com a morte de Plínio em 1995, dois grupos dentro da TFP passaram por uma disputa judicial pelo controle da entidade. O grupo liderado por João Clá venceu a batalha e obteve o direito de continuar a usar a marca TFP, mantendo o legado de Plínio com a fundação do Arautos do Evangelho. Em 2001, o grupo conseguiu o reconhecimento do Vaticano pela benção do papa João Paulo II. Hoje, para surpresa de ninguém, os herdeiros da TFP apoiam Jair Bolsonaro.

Além de terem que idolatrar a figura de Plínio Correa como se fosse um santo católico, os alunos dos Arautos também são obrigados a adorar como santidades as figuras da mãe de Plínio, Dona Lucilia, e do fundador João Clá — que é considerado o único santo vivo. Uma reportagem do Metrópoles revelou que, ao ingressarem nas escolas, as crianças são obrigadas a se consagram como “escravas” do líder João Clá.

A partir daí, passam a receber como recompensa objetos tratados como sagrados como retalhos de roupa do líder, além de pedaços do seu corpo como fios de cabelo e pedaços de unha. A água utilizada para lavar as roupas de Clá também é considerada sagrada e utilizada em rituais de exorcismo heterodoxos, que não são aprovados pelo Vaticano.

As crianças são vigiadas a todo momento, não podem ouvir música do mundo exterior, não têm acesso a TV e internet e os contatos telefônicos com os pais são controlados e vigiados. Teoricamente, as crianças podem voltar para a casa dos pais nos fins de semana, mas, segundo relatos de alguns pais, na prática, são intimidadas a ficar na escola e a evitar contato com o mundo exterior.

Em 2017, o Vaticano abriu uma investigação interna contra o Arautos do Evangelho para apurar essas irregularidades e decidiu mandar um cardeal ao Brasil para avaliar seu trabalho. O resultado dessa visita foi ordem expressa do Vaticano para que os alunos hospedados nas escolas dos Arautos voltassem à casa de suas famílias. A ordem não foi respeitada. João Clá renunciou após sofrer um AVC, mas continua como líder da entidade. O Vaticano nomeou um comissário para auxiliar nas mudanças da associação.

Os Arautos afirmam que a única denúncia formal de abuso sexual foi arquivada em maio de 2021 pelo Ministério Público do Estado de São Paulo “por serem absolutamente inverídicos os fatos” e que há um inquérito por denunciação caluniosa contra quem realizou a denúncia. Em resposta à coluna, afirmam ser um “organismo católico”, aprovado pelo Papa João Paulo II em 2001 enquanto associação privada de fiéis de direito pontifício.

Em 2016, a aluna Livia Uchida, de 27 anos, foi encontrada morta dentro das dependências de uma escola dos Arautos em Caieira, São Paulo, após cair do quarto andar do castelo. Segundo os líderes do grupo, ela caiu por acidente enquanto limpava as janelas. Mas a história não convenceu a mãe da jovem, que alega que os Arautos apagaram o vídeo das câmeras internas.

Apesar do arquivamento do inquérito como acidente, para o presidente do Conselho Estadual de Defesa dos Direitos Humanos do Estado de São Paulo, que acompanha o caso, “há fortes suspeitas de que houve homicídio. Ela não caiu. Ela foi empurrada”. Depois da morte de Uchida, sua imagem passou a ser cultuada como divindade pelos líderes e alunos do grupo.

O Arautos do Evangelho tem muito dinheiro, ostentando instalações gigantescas e luxuosas. Segundo um ex-integrante do grupo que trabalhou na área financeira da instituição, a renda mensal dos Arautos em 2015 foi de R$ 11 milhões. A grana vem de doações de católicos do Brasil e de vários outros países. Sem mostrar seus balanços financeiros, os Arautos afirmam que este valor é muito maior que as entradas mensais e que as contas da associação são auditadas pela Delloite Brasil.

Hoje estão presentes em 78 países de cinco continentes. A TFP é ativa no mundo e coordena uma rede fundamentalista católica internacional com ligações políticas com a extrema direita de vários países. O avanço internacional da TFP se deu sob o pretexto de combater o globalismo comunista. A Ordo Iuris, um instituto jurídico filiado a esse rede da TFP, ajuda a financiar os grupos pró-família no mundo inteiro. Assim como no Brasil, difundem os ideais monarquistas, mantém relações com as famílias reais e financiam campanhas contra direitos LGBTQ e contra o aborto.

Mesmo após a série de denúncias contra os Arautos, os bolsonaristas não deixaram de prestigiar o grupo. O Arautos foi chamado para organizar o coral da missa de sétimo dia do falecimento da mãe de Jair Bolsonaro. Em outro momento, o presidente convidou os estudantes do grupo para participarem de uma cerimônia natalina no Planalto.

As denúncias de agressões, assédio sexual, tortura e estupro contra menores também não impediram que a deputada defensora da família e dos bons costumes, Carla Zambelli, se casasse numa igreja dos Arautos do Evangelho.

Diferentemente da antiga TFP, os Arautos do Evangelho não costumam defender políticos publicamente, mas abriram uma exceção para Bolsonaro. Emparedados pela reportagem do Fantástico, o grupo tentou vender a tese de que essas denúncias só foram veiculadas pela Globo com o intuito de atingir o presidente da República, que compartilha os mesmos valores do grupo.

Um dos líderes dos Arautos gravou vídeo afirmando que as denúncias jornalísticas contra o grupo e o presidente são um complô “para minar as bases conservadoras, que defendem as famílias, os valores morais, os valores judaico-cristãos, que defendem, enfim, a soberania nacional”. Quando surgiram as denúncias, o falecido guru do bolsonarismo Olavo de Carvalho foi um dos principais defensores dos Arautos nas redes sociais.

Apesar de terem recebido a benção do Papa em 2001, os Arautos são avessos à institucionalidade católica, não respeitam os princípios do catolicismo e comandam uma espécie de seita paralela ao Vaticano. O papa Francisco é tratado internamente como um anticristo, tanto que a sua ordem para mandar os alunos para casa foi solenemente desrespeitada. Agora vamos ver se esses guardiões da moral e dos bons costumes vão respeitar a determinação da Justiça. Políticos bolsonaristas não costumam respeitá-la.

Correção: 5 de junho de 2022, às 17h55
Uma versão anterior deste texto afirmava que o Vaticano havia dado uma ordem expressa para que as escolas do grupo fossem fechadas. Na verdade, a ordem foi para que as crianças hospedadas na instituição fossem devolvidas às suas famílias.