A noite de 5 de maio foi animada no Boulevard Recepções, em Natal. A casa de eventos recebeu centenas de médicos que estavam na capital do Rio Grande do Norte para o 40º Congresso Brasileiro de Pediatria, realizado pela Sociedade Brasileira de Pediatria, a SBP. A festa, com direito a abadá, duas atrações musicais, open bar e comida à vontade, foi oferecida aos pediatras pela farmacêutica Mantecorp Farmasa e tinha um objetivo muito específico: promover o antialérgico Alektos.

Depoimentos de quem participou da festança, assim como fotos e vídeos divulgados por alguns médicos em suas redes sociais, comprovam que a estratégia deu certo. Em pouco tempo, pediatras do Brasil inteiro já tiravam divertidas fotos com o boneco de um urso amarelo claro, mascarado e muito fofinho. Era o mascote da festa, apelidado de Alekito. Ele recepcionava os convidados, que, segundo uma médica, tinham que fornecer número do CRM, endereço, celular e e-mail na entrada. A empolgação era tanta que um representante da farmacêutica foi ao palco falar o nome do remédio como um grito de guerra – “Alektos!” – e outra médica postou uma foto em que posa oferecendo uma bebida ao mascote Alekito.

Festa realizada pela Mantecorp Farmasa durante congresso de pediatria escancara 'promiscuidade' das relações entre médicos e a indústria farmacêutica.

Médica oferece copo com bebida ao Alekito, mascote de antialérgico vendido pela Mantecorp Farmasa.

Foto: Reprodução/Facebook

A empresa contratada para organizar a festa foi a Ikone Eventos, em parceria com Washington Espanhol da Barraca Santa Praia. Para participar, os médicos deveriam se inscrever ao longo do dia no stand da Mantecorp Farmasa no congresso. Uma nota em que a diretora da Ikone comemorava o sucesso do evento foi publicada em um site de colunismo social no dia 12 de maio, mas excluída em seguida. O link, contudo, ainda está disponível em cache.

O patrocínio da indústria farmacêutica a eventos de medicina é comum, mas existem alguns limites, impostos por um acordo que existe desde 2012 e foi atualizado em 2016 entre entidades médicas e a Associação da Indústria Farmacêutica de Pesquisa, a Interfarma, que representa cerca de metade das empresas do setor no Brasil. Segundo o documento, é proibido “oferecer presentes que possuam caráter de uso pessoal, incluindo (mas não se limitando a) itens eletrônicos e/ou ingressos para show, teatro e eventos esportivos”. Por meio da assessoria de imprensa, a Mantecorp Farmasa informou que não é associada à Interfarma e, por isso, “não é signatária desse acordo”.

Assim, as fronteiras são constantemente ultrapassadas, como revelam as imagens da festa promovida pela farmacêutica. Fotos mostram pediatras com canecas na mão e vestindo abadás. Ambas as peças foram customizadas especialmente para aquele evento. As legendas e hashtags não deixam dúvida sobre o que os médicos estavam promovendo – “Noite Mantecorp Farmasa! Festa Incrível! Obrigada #mantecorpfarmasa”, escreveu uma pediatra no seu perfil no Instagram.

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Médicos posam com abadá feito especialmente para a Noite Mantecorp Farmasa em Natal e com o mascote Alekito.Fotos: Reprodução/Instagram

O Alektos foi liberado pela Anvisa em 2011 e era comercializado pela Takeda Pharmaceuticals International, uma biofarmacêutica global sediada no Japão. Em janeiro de 2021, o Conselho Administrativo de Defesa Econômica, o Cade, aprovou a aquisição de um conjunto de medicamentos da farmacêutica japonesa pelo grupo farmacêutico brasileiro Hypera, que vende os remédios sob prescrição por meio de uma de suas empresas, a Mantecorp Farmasa. Entre eles, está o antialérgico que não saía da boca de centenas de pediatras na festa em Natal.

No início de maio, o ministro do Supremo Tribunal Federal Dias Toffoli atendeu a um pedido da farmacêutica nacional EMS e suspendeu uma decisão do Tribunal Regional Federal da 1ª Região que aumentava em mais de 20 anos a validade de patente do Alektos para a Hypera.

‘Custo da empresa vai para o paciente’

Conversei com três médicos experientes sobre a festa no Congresso Brasileiro de Pediatria. Segundo um deles, que falou comigo na condição de anonimato por temer retaliação da própria classe, quando um remédio que não é tão recente no mercado é objeto de intensa promoção, “é porque a empresa quer fazer um ‘upgrade’ nas vendas”.

Outro entrevistado foi Pedro Carvalho Diniz, professor de internato e residência médica no Hospital Universitário da Universidade Federal do Vale do São Francisco. Embora questionável, opinou Diniz, patrocinar eventos médicos não chega a ser imoral. Já oferecer festas, brindes, viagens ou jantares, ele disse que sim. “Ao que parece, o patrocínio está dando lugar ao assédio cada vez mais. O caso dessa festa no congresso de pediatria é mais bizarro do que a média”, afirmou.

‘Eu chamo isso de promiscuidade. É um grau diferente de interação.’

O primeiro médico vai além: “Quando chega ao ponto de uma empresa oferecer uma grande festa, com centenas de médicos usando abadá, eu chamo isso de promiscuidade. É um grau diferente de interação”, argumentou.

Para Bruno Ishigami, infectologista e mestrando em Saúde Pública pela Fiocruz, é inevitável que os médicos sejam influenciados, mesmo que inconscientemente, pelos patrocínios das empresas aos eventos ou pelos mimos que recebem. Além disso, acrescentou, se a indústria farmacêutica visa lucro, ela vai querer ter de volta o dinheiro que investiu. “O custo que a empresa tem com esses eventos vai para alguém, e é para o nosso paciente. Ao aceitar mimos, estimulamos práticas que vão encarecer o remédio ou influenciar na prescrição de determinado medicamento”, disse Ishigami.

Em 2003, um editorial que ficou famoso no meio médico, publicado no British Medical Journal, alertava para a questionável relação entre profissionais de saúde e a indústria farmacêutica. Intitulado “Sem mais almoço grátis” em português, o texto defende que tal envolvimento tem efeito em pesquisas, além de influenciar na prescrição de medicamentos e trazer consequências para os pacientes.

Manter a distância, portanto, seria não apenas prudente e ético, mas uma forma de evitar o “abraço de avareza e excesso que distorce as informações médicas e o atendimento”. Quase 20 anos depois, parece que centenas de médicos na festa patrocinada pela Mantecorp Farmasa em Natal ainda não entenderam o recado.

Além dos brindes e da bebedeira, a Mantecorp Farmasa deu de presente aos pediatras shows gratuitos. Vídeo: Reprodução/Facebook

Patrocinadores têm espaço reservado

Na programação de qualquer congresso de medicina, a indústria farmacêutica tem seu espaço vip, geralmente ocupado pelos patrocinadores – são os simpósios-satélite, reservados para as empresas apresentarem produtos, pesquisas ou debates que lhes interessam. No 40º Congresso Brasileiro de Pediatria, não seria diferente.

As maiores patrocinadoras foram a brasileira Mantecorp Farmasa – ou Hypera – e duas gigantes globais da indústria de leite infantil artificial, a Danone e a Nestlé, que ofertaram a cota platina. O patrocínio ouro foi dado pela Astrazeneca, GSK, Jonhson & Jonhson, Novo Nordisk, Sanofi, Farmoquímica e EMS. Os menores patrocínios, que representam a cota prata, foram ofertados pela Pfizer, Ache, Biolab, PTC Therapeutics e pela produtora de laticínios brasileira Piracanjuba.

Das 15 empresas que ajudaram a custear o evento, 10 marcaram presença no simpósio-satélite – nove delas deram os patrocínios platina e ouro. Somente EMS, Ache, Biolab, Piracanjuba e PTC Therapeutics ficaram de fora da programação. A farmacêutica brasileira Myralis foi a única que não patrocinou o congresso e participou do simpósio-satélite, que ocorreu nos dias 4 a 6 de maio, no horário de almoço – quem frequenta esses eventos sabe que esse é o momento ideal para alimentar os médicos.

A Hypera, que também financiou, por meio da Mantecorp Farmasa, a festa com direito a abadá e mascote, apresentou uma palestra sobre a associação de antibióticos com probióticos para prevenir diarréia no público infantil, expôs uma atualização sobre o uso de anti-inflamatórios e, claro, apresentou as “novidades do tratamento de alergias em crianças”, a mais recente inovação no mundo dos antialérgicos e o “mais seguro corticoide nasal”.

A micareta da Mantecorp Farmasa fez sucesso entre os pediatras, que desfrutaram de pratos gratuitos e open bar literalmente vestindo a camisa da empresa.

A micareta da Mantecorp Farmasa fez sucesso entre os pediatras, que desfrutaram de pratos gratuitos e open bar literalmente vestindo a camisa da empresa.

Foto: Reprodução/Instagram

Chama atenção também a relação entre as farmacêuticas patrocinadoras do congresso e membros de diretorias de sociedades e associações médicas que atuaram como palestrantes nos simpósios-satélite. O secretário do Departamento de Terapia Intensiva Pediátrica da Sociedade Paulista de Pediatria, Tiago Henrique de Souza, falou sobre transtornos gastrointestinais em pacientes pediátricos no espaço reservado à Nestlé. Também estava com ele a nutróloga pediátrica Maria Carolina de Pinho Porto – essa não foi a primeira vez que ambos estiveram em eventos realizados pela empresa.

Pedi à assessoria de imprensa da Nestlé um posicionamento da empresa e dos médicos. Por e-mail, a multinacional informou que a contratação dos palestrantes “atendeu a todos os requisitos legais e éticos aplicáveis, por meio de contrato de prestação de serviços, destacando-se a independência total do palestrante na elaboração e apresentação da aula para o fórum” e que a empresa tem “compromisso pela ética e atendimento à todas as regulamentações vigentes”.

Na palestra promovida pela Danone sobre nutrientes essenciais para o lactente, quem falou foi o gastroenterologista pediátrico Mário César Vieira, que trabalhou em projetos de pesquisa para a empresa, para o Instituto de Nutrição Nestlé e para os Laboratórios Aché. Por causa dessa relação, o médico teve o conflito de interesse apontado em um artigo científico que publicou em 2019, junto com outro médicos, no Jornal da Pediatria.

Por meio de uma nota, a Danone disse que “apoia iniciativas de pesquisa e sua divulgação no meio científico, sempre seguindo as normas éticas que regem as boas práticas da empresa e do meio científico”. Acrescentou, ainda, que “se mantém isenta em relação aos conteúdos apresentados e sobre a programação dos eventos, que ficam sob responsabilidade da organização”.

No espaço reservado para a GSK, a infectologista Lessandra Michelin defendeu a segurança como prioridade da vacina Infanrix Hexa, indicada para a imunização de crianças contra seis doenças, entre elas o tétano e a hepatite B. A médica já foi diretora da Sociedade Brasileira de Infectologia, cargo que deixou pouco antes de assumir como gerente médica de vacinas da farmacêutica. Procurada por meio da assessoria de imprensa, a médica e a empresa não responderam.

Já no painel da Novo Nordisk, que atua no tratamento do diabetes, a nutróloga pediátrica e secretária da Sociedade Brasileira de Pediatria, Virgínia Resende Silva Weffort, falou sobre tratamento de obesidade infantil. Em 2021, a médica recebeu ao menos R$ 23,5 mil da empresa por palestras e consultorias. Em nota, a SBP disse que “repudia veementemente qualquer insinuação de falta de isenção ou de autonomia por parte de seus dirigentes”. Acrescentou também que o apoio de indústrias aos seus eventos “tem sido feito mediante contratos, pelos quais se assegura a atuação da entidade e de seus profissionais dentro dos preceitos éticos, morais e legais”.

A assessoria de imprensa da Novo Nordisk afirmou por e-mail que não financia eventos de entretenimento e endossa em seus patrocínios os critérios estabelecidos pela Interfarma. A empresa garante que as atividades envolvendo médicos, como palestras e simpósios, “são sempre regidas por contratos previamente assinados em que constam expressamente a remuneração definida e a garantia de independência técnica e científica do contratado” e que a remuneração dos profissionais deve “refletir o valor justo de mercado”.

Por nota, Weffort disse que sua participação no simpósio-satélite “restringiu-se à mediação dos debates entre os palestrantes convidados”, mas seu nome na programação consta como palestrante. Ela também disse que não recebeu pagamento ou doação da Novo Nordisk – não é o que mostram as informações que estão públicas no site DeclaraSUS, do governo de Minas Gerais. A médica destaca, contudo, que “não há qualquer conflito de interesse em suas representações como especialista em nutrição infantil. Todas as suas palestras são baseadas em evidências científicas e amparadas na literatura médica”.

Junto com ela estavam Benito Lourenço, presidente do Departamento Científico de Adolescência da Sociedade de Pediatria de São Paulo, e Carlos Alberto Nogueira de Almeida, diretor do Departamento de Nutrologia Pediátrica da Associação Brasileira de Nutrologia. Por e-mail, as duas entidades disseram que não iriam se manifestar. Elas também não repassaram contatos dos dois médicos, que dão palestra em eventos promovidos pela Novo Nordisk.

Não existe almoço grátis. Nem micareta.

Correção: 30 de maio, 22h
Uma versão anterior deste texto afirmava que a dra. Lessandra Michelin acumulava funções de diretora da Sociedade Brasileira de Infectologia e de gerente médica de vacinas da farmacêutica GSK. Michelin deixou a diretoria da SBI pouco antes de ser contratada pela GSK em fevereiro de 2021. A informação foi corrigida.

Atualização: 31 de maio, 13h34
Esta reportagem foi atualizada com trechos da resposta da Novo Nordisk, que respondeu nossos questionamentos após a publicação.