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Por mais de uma vez nesta última semana, rascunhei algumas palavras sobre Dom Phillips, o jornalista que desapareceu com o indigenista Bruno Pereira na terra indígena do Vale do Javari, Amazonas, no último domingo, 5 de junho. Mas meu texto sempre ficou incompleto. Decidi, então, que era melhor esperar os dois retornarem para dizer ao Dom o quanto ele foi importante em um momento decisivo da minha carreira. Porém, seis dias já se passaram e Dom ainda não voltou.

Eu o conheci em meados de 2018, quando fomos juntos a Manaus. Queríamos descobrir informações sobre um contrato milionário entre o governo do Amazonas, então chefiado por Amazonino Mendes, e Rudolph Giuliani, advogado de Donald Trump, para uma consultoria em segurança pública. A reportagem foi publicada em outubro daquele ano, em português e em inglês.

Fazia apenas três meses que eu havia sido contratada para trabalhar no Intercept e era a primeira vez que ia a um estado do Norte. É possível imaginar o quanto eu estava insegura na ocasião. Embora já tivesse uma carreira consolidada em Teresina, me sentia incapaz de fazer uma cobertura de interesse internacional, em uma região totalmente desconhecida e ao lado de um jornalista tão experiente quanto Dom, principalmente sobre assuntos relacionados à Amazônia. Esse sempre foi o seu foco de cobertura no Brasil. De tão insegura, eu achava que seria apenas a sua assistente – coube a Dom provar que eu estava errada.

Logo na nossa primeira conversa, ele me mostrou, com uma generosidade que nem sempre se encontra no nosso meio profissional, que trabalharíamos juntos, de igual para igual. Ele nem precisou verbalizar isso com aquele seu sotaque característico. Apenas ouviu atentamente o que eu já havia apurado, riu comigo de um vídeo em que o governador Amazonino usava o famoso advogado de Trump como garoto propaganda na campanha eleitoral e anotou no seu inseparável bloquinho tudo que eu havia descoberto sobre o contrato. Em troca, me falou o que sabia a respeito da segurança pública no Amazonas e explicou como a facção local Família do Norte, a FDN, rivalizava com o Primeiro Comando da Capital, o PCC, de São Paulo. Então, partimos para a rua.

Ainda me sentindo uma estagiária, passei a observar como Dom se comporta nas conversas com as fontes. Ele não tem pressa de encerrá-las, pergunta detalhes tão minuciosos que, às vezes, eu – equivocadamente – até achava desnecessários. “Isso vai dar muito trabalho pra transcrever”, pensei, logo na primeira entrevista. Foi então que, disfarçadamente, olhei para o seu bloquinho e vi que ele anotava o minuto exato em que o entrevistado dizia algo importante e resumia a ideia com uma frase curta – “escrevo em inglês, para ser mais rápido”, me disse depois. Assim, não seria necessário transcrever horas de conversa, bastava ouvir o mais importante. De uma forma simples e espontânea, Dom me ensinou, sem dizer que estava ensinando.

Quando eu soube de seu desaparecimento, a primeira coisa que lembrei foi de uma noite em que precisamos correr de um tiroteio. Dom tem uma fonte em Manaus que ficou de nos avisar caso houvesse algum homicídio. Como estávamos falando de segurança pública, era importante descrever uma cena como essa. Estávamos jantando quando o telefone tocou; largamos tudo e partimos para o local.

Não nos pareceu arriscado ir à cena do crime, que estava cheia de policiais e de jornalistas. Só não contamos com a possibilidade de os membros da facção que haviam cometido o homicídio voltarem ao local. Mas eles voltaram – atirando. Eu e Dom tínhamos acabado de entrevistar familiares da vítima e estávamos conversando com pessoas da vizinhança quando ouvimos o barulho de tiros. Na correria, nos esprememos dentro do carro de uma equipe de TV e saímos daquela rua às pressas.

Dom é destemido e ama o jornalismo. Quando conversamos sobre direitos trabalhistas, entre um chá de cadeira e outro das autoridades amazonenses, tive a impressão de que fazer reportagens, para ele, é mais um hobby do que um trabalho. Ele sente prazer no que faz.

Quando desapareceu, Dom estava trabalhando em uma reportagem que será parte de um livro chamado “Como Salvar a Amazônia”. Desde janeiro de 2021, Dom se dedicava prioritariamente ao livro e, por isso, precisou fazer sacrifícios financeiros com a esposa, Alessandra Sampaio. Ela desistiu de seu emprego com mulheres refugiadas no Rio de Janeiro para morar em Salvador e reduzir as despesas. O casal conta com a entrega de um novo rascunho do livro para receber seu próximo pagamento mas, com o desaparecimento do Dom, não se sabe quando isso será possível.

A família de Bruno também passa por momentos delicados. Ele estava licenciado de um cargo de chefia na Funai desde que foi exonerado pelo braço direito do então ministro da Justiça Sergio Moro, em 2019. O indigenista era o coordenador-geral de Indígenas Isolados e de Recente Contato, mas foi substituído no cargo por um missionário evangélico com pouca experiência no assunto.

Uma campanha de arrecadação foi criada para ajudar as duas famílias nesse momento de incertezas.

Desde que Dom e Bruno desapareceram, temos cobrado do governo Bolsonaro e das Forças Armadas que agilizem as buscas por eles, mas de onde menos se espera é de onde não sai nada. O Exército iniciou o trabalho com 48h de atraso e, mesmo assim, sem usar aeronaves, que são essenciais para procurar quem está perdido no meio de uma floresta.

Foi necessário que a justiça determinasse, quatro dias depois do desaparecimento, que o governo federal reforçasse as buscas. A juíza Jaiza Fraxe atendeu a um pedido da Defensoria Pública da União e da Unijava, a União das Organizações Indígenas do Vale do Javari – essa, sim, empenhada em encontrar Dom e Bruno desde as primeiras horas do desaparecimento. Quem está na linha de frente das buscas são os indígenas, utilizando suas próprias embarcações.

A omissão e o descaso dos órgãos federais fazem aumentar o sofrimento das famílias, dos amigos e dos colegas de profissão de Dom e Bruno. Afinal, casos recentes mostram que denunciar conflitos agrários e em terras indígenas tem sido cada vez mais arriscado. Segundo um monitoramento da Associação Brasileira de Jornalistas, a Abraji, apenas de janeiro a maio deste ano, foram registrados seis ataques contra jornalistas, comunicadores e meios de comunicação na região Norte. Em 2021, ocorreram ao menos 21 casos na região.

A ferramenta Sinal de Fumaça, que monitora a crise socioambiental no Brasil, condensou em um fio no Twitter vários episódios de violência no campo e na floresta, muitos deles com mortes, somente no governo Bolsonaro. Só o tamanho da thread já assusta. Sem que os órgãos federais levem a sério as buscas por Dom e Bruno, a chance de que eles estejam seguros diminui a cada dia que passa – assim como a minha esperança de poder dizer ao Dom tudo o que escrevo agora.