BRASÍLIA, DF, 10.02.2022 - O presidente Jair Bolsonaro, ao lado do ministro Milton Ribeiro (Educação), durante cerimônia sobre renegociação de dívidas do Fies, no Palácio do Planalto, em Brasília (DF). (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)

Foto: Pedro Ladeira/Folhapress

O pastor presbiteriano e ex-ministro da Educação, Milton Ribeiro – aquele homem de Deus que anda armado e dispara acidentalmente tiro em aeroporto – foi preso preventivamente suspeito de operar um esquemão de propinas para liberação de verbas do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação, FNDE, para prefeituras, que ficou conhecido como o Bolsolão do MEC. Também foram presos dois outros pastores evangélicos, sem cargos públicos, que intermediaram o pagamento das propinas.

Ribeiro é acusado pelos crimes de tráfico de influência, corrupção passiva, prevaricação, tráfico de influência e advocacia administrativa – quando um servidor público usa o cargo para atender interesses particulares. Há fartas provas, como áudios com relatos de prefeitos e um do próprio Milton Ribeiro admitindo que procurou os pastores para atender um pedido de Jair Bolsonaro.

Apesar dos fatos comprovados, a prisão preventiva do pastor tem um quê de lavajatismo. Os requisitos legais para a execução da prisão preventiva não foram cumpridos e, em virtude disso, um habeas corpus tirou o ex-ministro da cadeia no dia seguinte. A farra das prisões ilegais e preventivas durante a Lava Jato ajudou a pavimentar a ascensão do bolsonarismo ao Planalto. É irônico ver o modus operandi lavajatista sendo aplicado contra ele agora. Há provas suficientes para que Milton Ribeiro e os pastores sejam presos após o trânsito em julgado. Bolsonaro também pode acabar no xilindró como o mandante do crime caso não se reeleja.

O bolsonarismo percebeu o potencial de estrago dessa bomba em seu eleitorado e entrou em pânico. Logo após a prisão dos pastores, o núcleo de campanha eleitoral montou uma operação de guerra para tentar conter os danos à imagem do presidente.

Em entrevista dada logo após a prisão, Bolsonaro ajustou o discurso e perguntou lavando as mãos: “Se a PF prendeu, tem um motivo. (…) Se alguém faz algo de errado, pô, vai botar a culpa em mim?”. Há um ano, Bolsonaro afirmou o exato oposto: “Podem ter certeza: eu sou responsável por tudo o que acontece ou deixa de acontecer nos meus ministérios”.

Quando o Bolsolão do MEC estourou pela primeira vez no noticiário, o presidente saiu em defesa do seu ex-ministro ao dizer que botaria a “cara no fogo por ele”. Agora, Bolsonaro fez o que costuma fazer com aliados com potencial para arranhar sua imagem: o largou ferido na estrada. O homem que bateu no peito dizendo ser responsável por tudo o que acontece nos seus ministérios, agora lava as mãos e diz que “ele [o ministro Milton Ribeiro] que pague pelos erros dele”. É importante lembrar da proximidade do ex-ministro com Bolsonaro. A indicação de Milton Ribeiro ao MEC foi feita pela primeira-dama Michelle Bolsonaro.

A tropa de choque bolsonarista nas redes sociais e na imprensa correu para demonstrar indignação com a prisão dos pastores, alegando perseguição da justiça. O ex-ministro do Meio Ambiente e atual comentarista da Jovem Pan, Ricardo Salles, também é acusado por alguns dos crimes cometidos por Milton Ribeiro, disse que Ribeiro é uma vítima dos ratos da política: “Até que se prove o contrário, é um homem correto, um pai de família, um homem religioso e que talvez tenha sido pego por sua inocência a contrapé por esses ratos que roem a política brasileira”.

Salles fingiu esquecer que há uma liderança no comando dessa ratoagem. Quem deu as ordens para Milton Ribeiro atender os pedidos de outros ratos se chama Jair Bolsonaro. E quem afirmou isso em áudio vazado foi o próprio Milton Ribeiro, o homem que Salles considera “correto”. Além do áudio, o ex-ministro confirmou em depoimento à Polícia Federal que as tratativas com os pastores presos só aconteceram depois que Bolsonaro pediu.

O envolvimento do presidente da República como mandante do Bolsolão do MEC é inquestionável.

O juiz que prendeu os pastores virou alvo do ódio bolsonarista nas redes sociais. Relatou ter recebido uma “centena de ameaças” de apoiadores dos pastores. Eduardo Bolsonaro, Flávio Bolsonaro, André Porciúncula e outros bolsonaristas inflamaram suas redes insinuando que o juiz persegue o governo por questões ideológicas, o que é simplesmente falso: o mesmo juiz já condenou vários políticos petistas e emedebistas.

O envolvimento do presidente da República como mandante do Bolsolão do MEC é inquestionável. Além da afirmação de Milton Ribeiro, há registros de que Arilton Moura Correa, um dos pastores presos por participar do esquemão no MEC, tinha passe livre para entrar no Palácio do Planalto.

Entre janeiro e setembro de 2019, o líder evangélico só não foi ao Palácio em março. Segundo apuração da Agência Sportlight, os registros do prédio de trabalho de Jair Bolsonaro apontam 23 entradas do pastor só nos primeiros nove meses de governo. Em quatro ocasiões foram registradas entradas múltiplas de Arilton Moura em um mesmo dia.

O pastor lobista tem sido também um assíduo visitante da Câmara durante o governo Bolsonaro. Soma-se entre 2019 e 2022 um total de 90 visitas à Câmara, algumas delas no gabinete de Eduardo Bolsonaro. Segundo o prefeito da cidade de Luis Domingues (MA), o pastor prestigiado pelo Planalto e pelo bolsonarismo na Câmara pediu R$ 15 mil e um quilo de ouro em propina para poder liberar verbas da educação para a cidade.

10/02/2021 - Com presença do Presidente Bolsonaro, MEC apresenta ações para 2021 à prefeitos.

Prisão de Milton Ribeiro, gravado em um esquema de desvio de verbas, atinge em cheio base mais fiel de Bolsonaro.

Foto: Catarina Chaves/MEC

As digitais de Jair Bolsonaro no seu caso são tão evidentes que a Justiça Federal em Brasília determinou o envio da investigação de volta para o STF por causa do envolvimento do presidente da República. O pedido foi feito pelo MPF depois que a investigação interceptou um telefonema entre Ribeiro e sua filha. Numa conversa cheia de códigos, o ex-ministro deixa claro que Bolsonaro lhe avisou que seria alvo de busca e apreensão.

Antes de saber do vazamento dessa conversa, Bolsonaro alegou, na maior cara de pau, que o fato da prisão ter sido executada pela Polícia Federal seria um claro sinal de que ele não interfere nos trabalhos da corporação. Mas, no dia seguinte, o delegado responsável pelo caso denunciou que sofreu interferência na condução da investigação.

Segundo ele, a PF teria dado tratamento diferenciado a Milton Ribeiro por ordem de superiores. O ex-ministro deveria ter sido preso e levado para Brasília, e não para São Paulo: “O deslocamento de Milton para a carceragem da PF em SP é demonstração de interferência na condução da investigação. Por isso, afirmo não ter autonomia investigativa e administrativa para conduzir o inquérito policial deste caso com independência e segurança institucional”. Ainda segundo o delegado, Milton Ribeiro “foi tratado com honrarias não existentes na lei, apesar do empenho operacional da equipe de Santos que realizou a captura.”

Já presenciamos inúmeros casos de corrupção no governo que se elegeu prometendo acabar com a corrupção: o laranjal do ministro do Turismo, o ex-ministro Ricardo Salles atuando ilegalmente em favor das madeireiras na Amazônia, o orçamento secreto, o escândalo da compra da Covaxin etc. Até agora, todos esses casos em que o governo se meteu não fizeram grandes estragos na base eleitoral do presidente, que permaneceu fiel escândalo após escândalo.

Mas o Bolsolão do MEC é diferente e atinge em cheio bandeiras caras ao bolsonarismo. Trata-se de um episódio em que pastores evangélicos foram flagrados fazendo politicagem baixa com as verbas destinadas às escolas públicas. É um caso que queima o filme de pastores evangélicos e fere a identidade religiosa da base eleitoral evangélica de Bolsonaro. Essas pessoas têm filhos, netos e conhecem a precariedade das escolas públicas. Em sua maioria são pessoas honestas, trabalhadoras, pagadoras de impostos e de dízimo que agora veem seus líderes religiosos se enlameando com dinheiro destinado à Educação.

Diferentemente da rachadinha, do negacionismo na pandemia e dos crimes cometidos pelo governo na Amazônia, a prisão de um pastor torna este um escândalo mais palpável, com alto potencial para diminuir a distância – que já é pequena – entre Lula e Bolsonaro nas intenções de voto do eleitorado evangélico. De qualquer maneira, o tamanho do impacto da prisão do pastor entre os evangélicos ainda é incerto e será medido pelas próximas pesquisas.

No Senado há uma mobilização para a abertura de uma CPI para apurar o caso dos pastores lobistas no MEC. Já há assinaturas suficientes para protocolar abertura da comissão. A abertura de uma CPI que investiga pastores evangélicos fazendo farra com dinheiro destinado às escolas em ano eleitoral pode cair como uma bomba nas pretensões de reeleição de Bolsonaro. Com os coturnos atolados na lama, o bolsonarismo terá dificuldades em continuar empunhando a bandeira do combate à corrupção.