BRASILIA, BRAZIL - NOVEMBER 11: Brazilian President Jair Bolsonaro looks on during the Presentation of Food Donation Program at Planalto Palace on November 11, 2021 in Brasilia, Brazil. The program Comida no Prato aims to connect companies who want to donate food with institutions that are able to receive them for distribution to those in need. The levels of poverty and hunger grew in Brazil in 2020 and 2021, fueled by the effects of the pandemic. (Photo by Andressa Anholete/Getty Images)

Ilustração: Rodrigo Bento/The Intercept Brasil; Getty Images

As pesquisas indicam um cenário inédito na corrida para o governo de São Paulo. Faltando menos de três meses para a eleição, o candidato tucano, Rodrigo Garcia, aparece bem atrás do candidato petista, Fernando Haddad. É um cenário novo para o estado em que o PSDB mantém uma dinastia há quase 30 anos, tendo eleito sete governadores consecutivos, e onde o antipetismo sempre foi uma força avassaladora. O eleitorado do interior paulista é tradicionalmente conservador e vê-lo disposto a eleger um candidato de esquerda é surpreendente.

Com o acordo que definiu a saída de Márcio França da corrida para o Palácio dos Bandeirantes, Haddad agora vislumbra a possibilidade real de matar a eleição logo no primeiro turno. A tragédia bolsonarista em Brasília talvez seja o fator principal para esse novo quadro. O antibolsonarismo virou uma força eleitoral importante no estado e superou o antipetismo.

Bolsonaro conseguiu a proeza de ser mais rejeitado que Lula no estado, algo impensável há quatro anos. Nas eleições presidenciais de 2018, Bolsonaro recebeu mais que o dobro de votos que Haddad no estado e venceu a disputa em 97,8% dos municípios paulistas. Já nas eleições para o governo paulista, o candidato petista Luiz Marinho ficou com 12% dos votos e viu o BolsoDoria triunfar.

A ascensão do bolsonarismo mexeu com o tabuleiro do jogo. Antes, um apoio de Alckmin e Márcio França à uma candidatura petista no estado seria impensável. São apoios importantes que ajudam a dar uma diluída no antipetismo. Haddad terá um palanque fortíssimo com a presença de dois ex-governadores do Tucanistão, além de Lula.

Apesar da rejeição ao ex-presidente ainda ser alta entre os eleitores do estado, ele ainda assim venceria a eleição presidencial contra Bolsonaro por uma vantagem de 13 pontos percentuais. Bolsonaro é rejeitado por 64% dos paulistas, enquanto Lula é rejeitado por 51%. Boulos e Marina Silva também estarão no palanque de Haddad. É um cenário completamente diferente de 2018, quando o PT teve apenas o PCdoB como aliado na disputa pelo Palácio dos Bandeirantes.

Outra vantagem eleitoral em relação a 2018 é o fato de que Haddad tem um perfil mais palatável ao eleitor paulista que Luiz Marinho. Um professor que foi ministro e dialoga com o empresariado tende a ser um esquerdista menos assustador aos paulistas do que um sindicalista desconhecido da maioria.

Nos próximos dias, o PT deve anunciar o candidato a vice de Haddad. O PSOL quer a vaga, mas, pelos recentes movimentos do PT buscando o centro, é improvável, para não dizer impossível, que isso ocorra. A escolha de uma chapa pura de esquerda não renderia novos votos para Haddad, pelo contrário, colocaria uma pulga atrás da orelha do paulista médio.

Nunca antes na história do estado paulista a esquerda teve um cenário eleitoral tão promissor.

As chances de uma vitória da esquerda em São Paulo são reais, mas ainda há muito chão pela frente. Apesar de ter arrefecido, o antipetismo continua sendo uma força importante no estado. Caso a eleição vá para o segundo turno, é certo que os eleitores de Garcia e de Tarcísio estarão juntos para tentar barrar o PT. Com o apoio das máquinas do governo federal e estadual, a tendência é que as duas candidaturas cresçam durante a campanha.

Garcia e Tarcísio são pouco conhecidos pelo eleitorado paulista, mas têm potencial para crescer nas pesquisas e conquistar uma vaga no segundo turno. O tempo de rádio e TV é fundamental para torná-los mais conhecidos e ambos contarão com bons espaços durante a campanha. Com a recém aliança firmada com o União Brasil, Garcia terá quase o dobro do tempo de exposição no horário eleitoral gratuito na TV e no rádio em relação aos seus principais adversários.

Com o apoio do PSD de Kassab, Tarcísio terá mais tempo que Haddad. A tendência é que o bolsonarista cresça um pouco nas pesquisas à medida em que o eleitor bolsonarista passe a identificá-lo como o candidato de Bolsonaro, mas isso também fará aumentar sua rejeição. O espaço para crescimento de Tarcísio é pequeno, já que Bolsonaro é o pior padrinho político no estado. Quase 70% dos paulistas afirmam que não votarão em um candidato indicado por ele de jeito nenhum.

Nunca antes na história do estado paulista a esquerda teve um cenário eleitoral tão promissor. Uma vitória encerrará um ciclo de três décadas de hegemonia tucana no Palácio dos Bandeirantes e será decisiva também para a eleição presidencial. Haddad é o maior beneficiado pela aliança que Lula costurou com Alckmin e outros setores que se descolaram do tucanato. É irônico imaginar que o fim do Tucanistão pode ser feito com um ex-tucano que até pouco tempo era uma das principais lideranças da sigla.

Além do crescimento do antibolsonarismo no estado que elegeu BolsoDoria há quatro anos, o leque de alianças formado por Lula ajudou a diminuir a fervura do caldeirão do antipetismo que sempre borbulhou no maior colégio eleitoral do país. Haddad tem chances de liquidar a fatura no primeiro turno, mas o cenário irá mudar com o início da campanha e é improvável que isso aconteça. De qualquer maneira, a vaga do petista no segundo turno parece garantida, enquanto Tarcísio e Garcia vão sair no tapa em busca do mesmo eleitorado.