O comitê da JBS nos Estados Unidos e pessoas ligadas à empresa doaram o equivalente a R$ 3,3 milhões a 137 políticos americanos entre 2011 e 2020. A empresa vende a sustentabilidade como um de seus valores fundamentais e afirma ter “a missão de alimentar o mundo em equilíbrio com o planeta”. Graças a isso, ganhou propaganda grátis na principal rádio de notícias do Grupo Globo.

A prática, contudo, contradiz o discurso. Entre os 10 principais beneficiários, sete negam a existência do aquecimento global. Muitos, inclusive, atuam diretamente para barrar políticas de combate à crise climática ou para fomentar ações que agravam a emergência ambiental que a JBS diz querer combater.

Os 10 políticos mais prestigiados receberam cerca de 180 mil dólares ao longo de uma década – valores que, se corrigidos pela inflação e pela taxa de câmbio, equivalem a mais de R$ 1 milhão, 34% de todas as doações efetuadas pelo comitê vinculado ao grupo empresarial dos irmãos Wesley e Joesley Batista a políticos americanos. O gigantesco mercado dos EUA é crucial para a multinacional brasileira e ajudou a garantir o lucro de R$ 6,4 bilhões registrado no quarto trimestre de 2021.

Nos Estados Unidos, contribuições financeiras a políticos podem ser feitas por meio dos chamados Political Action Committees, os PACs. Tratam-se de comitês organizados ao redor de um interesse em comum que doam recursos para candidatos. Empresas e outras organizações privadas não podem fazer doações diretamente para candidatos, mas podem criar e administrar comitês para que seus executivos, funcionários e familiares deles contribuam como pessoas físicas. A JBS tem um comitê ligado diretamente à empresa, o JBS USA PAC, por meio do qual capta a maioria das doações.

Terceiro maior favorecido do comitê da JBS acredita que lutar contra a mudança climática beneficia o Estado Islâmico.

O departamento de relações públicas da JBS vende a imagem de uma empresa sustentável, que acredita na crise climática e quer assumir um papel importante na luta contra essa emergência. Mas os recibos de doações políticas feitas pelo comitê da multinacional revelam uma realidade bem diferente – e mais condizente com o modelo econômico da empresa.

No ciclo eleitoral de 2019-2020, R$ 815 mil foram doados por indivíduos ligados à JBS para financiar políticos nos Estados Unidos. Mais de R$ 750 mil passaram por esse comitê. Entre os 10 políticos mais beneficiados, apenas os senadores Michael Bennet e Mitch McConnell reconhecem a mudança climática e o papel da humanidade no aquecimento global. Já o deputado federal Fred Upton tem um posicionamento dúbio: ele disse em 2014 que as mudanças climáticas eram normais e, desde então, não voltou a se posicionar sobre o tema. Contudo, passou a apoiar a produção de energia renovável e a preservação do meio ambiente.

Os dados usados nesta reportagem vêm da Federal Election Commission, agência regulatória que fiscaliza o cumprimento da lei de financiamento de campanhas políticas federais. Optamos por usar os dados da década de 2011-2020. Já existem dados para o ciclo eleitoral de 2021-2022, mas como ele ainda não está completo, esses números não entraram na análise.

Para chegar aos valores em reais, primeiro corrigimos o valor em dólar pela taxa de inflação de dezembro do ano do ciclo eleitoral em que a doação foi feita. Depois, convertemos o valor usando o câmbio atualizado de 7 de julho de 2022, quando o dólar fechou em R$ 5,34.

Políticos mais beneficiados entre 2010 e 2020
  • Adrian Smith, deputado federal por Nebraska: R$ 225.054
  • Cory Gardner, ex-senador pelo Colorado: R$ 182.764
  • Ken Buck, deputado federal por Colorado: R$ 118.601
  • Robert B. Aderholt, deputado federal por Alabama: R$ 104.557
  • David Perdue, ex-senador pela Georgia: R$99.858
  • Michael Bennet, senador democrata por Colorado: R$ 98.870
  • Mac Thornberry, ex-deputado federal por Texas: R$ 97.856
  • McConnell, senador por Kentucky: R$ 75.422
  • Fred Upton, deputado federal por Michigan: R$ 78.765
  • Deb Fischer, senadora por Nebraska: R$ 70.595

Alimentando o que há de pior

Político mais favorecido pelo PAC da JBS USA, o deputado federal Adrian Smith recebeu doações do comitê entre 2011 e 2020. Smith entrou na política americana em 1994, como vereador na cidade de Gering e depois em 1999 como membro do legislativo estadual de Nebraska. Ele serve como deputado federal no estado, tradicionalmente conservador, onde venceu todas as eleições com mais de 70% dos votos desde 2008. Foi um dos mais de 126 republicanos da Câmara que contestaram os resultados das eleições presidenciais de 2020.

Perguntado em 2005 pelo jornal Nebraska Citizen se acreditava no aquecimento global, ele deu um sonoro “não” como resposta. O jornalista que o entrevistou disse que Smith acreditava que vários dos “fatos” sobre a mudança climática estavam sendo postos à prova. Em 2019, Smith publicou um artigo em seu site celebrando “todas as formas de [geração de] energia”, do carvão e petróleo a opções sustentáveis. No mesmo texto, ele critica o Acordo de Paris, tratado que busca reduzir a emissão de gases de efeito estufa para limitar o aquecimento global. Para ele, seguir o acordo seria “difícil e custoso para os consumidores americanos, ignorando o progresso que já fizemos”.

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O deputado federal Adrian Smith, que recebeu mais de R$ 220 mil de pessoas ligadas à JBS nos Estados Unidos.Ilustração: Rodrigo Bento/The Intercept Brasil

O deputado federal pelo Colorado Ken Buck vem sendo financiado pela hipocrisia da JBS em todas as suas campanhas eleitorais desde 2013. Ele é o terceiro maior beneficiário do comitê de arrecadação criado pela multinacional brasileira, com o equivalente a R$ 118.601 embolsados.

Em 2020, Buck teve como adversário o democrata Isaac “Ike” McCorkle, um novato que tinha o combate à crise climática como principal bandeira. Segundo McCorkle, agricultores, pecuaristas e trabalhadores da indústria de energia sabem que “o que sai de nossas ponteiras de escapamento é veneno para nossa atmosfera, nosso ar, nossa terra e nossa água”.

Em 2010, Buck disse acreditar que “as evidências continuam apoiando” a visão do senador por Oklahoma Jim Inhofe, “a primeira pessoa a se levantar e dizer que o aquecimento global é a maior farsa já perpetrada”. O deputado federal voltou a atacar a luta contra o aquecimento global em 2016, afirmando: “Quando distraímos nossos militares com uma agenda radical de [combate à] mudança climática, prejudicamos seu objetivo principal de defender os Estados Unidos de inimigos como o Estado Islâmico”. Ele ganhou em 2020 com 60% dos votos.

Nove anos antes, em 2011, o texano Mac Thornberry escreveu um artigo para o jornal USA Today argumentando que ainda não se sabia se a seca em seu estado havia sido causada pela mudança climática. “Nenhum modelo de computador ainda previu corretamente as temperaturas reais da Terra. Nós simplesmente não entendemos o suficiente sobre as causas e efeitos relacionados ao nosso clima”, afirmou. Entre 2012 e 2020, o negacionista recebeu do comitê de arrecadação da JBS a soma equivalente a R$ 97.856, em valores atualizados.

Para o ex-senador David Perdue, candidata negra ‘rebaixa sua raça’ ao falar do aquecimento global.

Em 2016, Thornberry seguia a desmentir a crise ambiental, afirmando que era “preciso ter cuidado com o que dizemos em nome das mudanças climáticas”, porque o discurso “tornou-se livre do que a ciência realmente provou até agora”. E o dinheiro arrecadado pelo comitê da JBS seguiu jorrando.

Entre os sete negacionistas mais beneficiados pelo dinheiro ligado à gigante da alimentação, até tem quem admita que o clima está mudando, mas por razões diferentes das apontadas por cientistas, que não ensejariam ações políticas de combate à crise.

Segundo colocado na lista de doações do PAC da JBS USA, o ex-senador por Colorado Cory Gardner disse o seguinte durante um debate eleitoral em 2014: “Acredito que o clima está mudando, mas discordo do que vem sendo noticiado, de que o homem está mudando [o clima]”. Quase 36% – R$ 65.682 – dos R$ 182.764 que ele recebeu de pessoas ligadas à JBS desde 2011 caíram em sua conta naquela campanha.

O deputado federal pelo Alabama Robert B. Aderholt, quarto maior agraciado pelo dinheiro do PAC da JBS escreveu o seguinte em seu site, em 2009: “A Terra está atualmente em um ciclo de aquecimento natural, e não [no processo de] uma mudança climática causada pelo homem”. Em 2021, ele se opôs à participação dos Estados Unidos no Acordo de Paris. Segundo ele, o tratado “não apenas prejudicará o bolso dos americanos, como deixará de responsabilizar alguns dos maiores poluidores, especificamente, a China”. Aderholt recebeu R$ 104.557 de pessoas ligadas à empresa ao longo dos últimos 10 anos.

David Perdue, ex-senador pela Geórgia e quinto maior beneficiado pelo PAC da JBS USA, concorda. Ele disse, em 2015, que “a comunidade científica não está totalmente de acordo sobre a humanidade ser um fator contribuinte” para o aquecimento global. Três anos depois, Perdue chamou o Green New Deal, um plano para enfrentar a mudança climática, de “lista de desejos socialistas”. E, no último mês de maio, afirmou que Stacy Abrams, uma mulher negra candidata ao governo da Geórgia, estava “rebaixando sua própria raça” por reconhecer a existência da mudança climática e querer criar empregos na área de energia renovável.

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Ken Buck, deputado federal pelo Colorado, votou contra propostas para promover fontes de energia renovável.Ilustração: Rodrigo Bento/The Intercept Brasil

Em um debate eleitoral de 2018, a senadora Deb Fischer, a décima política mais beneficiada, disse: “O clima está mudando e acredito que o homem tem parte nisso”. Contudo, ela nega que os seres humanos sejam os principais causadores do aquecimento global, em discordância com as evidências científicas.

Os políticos apoiados financeiramente pelo comitê de arrecadação da JBS também usam o poder para desmantelar ou bloquear políticas de preservação e aprovar leis antiambientalistas. Adrian Smith, que encabeça a lista, já votou para autorizar a perfuração de petróleo na Plataforma Continental Exterior dos EUA, barrar a regulamentação de gases de efeito estufa pela agência ambiental americana e para barrar incentivos fiscais para a geração de energias renováveis. Ken Buck, do Colorado, já votou contra propostas para promover energias renováveis e para exigir a rotulagem de produtos geneticamente modificados. Ele também apoiou a construção do gasoduto Keystone XL, que iria atravessar terras indígenas no estado – o projeto acabou cancelado.

Os dois senadores que acreditam na mudança climática e concordam com os dados científicos sobre o papel exercido pela humanidade nesse processo são o líder da minoria do Senado, Mitch McConnell, e o único democrata da lista, Michael Bennet. Enquanto o democrata reconhece a ameaça real da mudança climática há tempos, o republicano McConnell a negou por anos, até mudar de opinião em 2019. “Eu acredito [nas mudanças climáticas causadas pelos humanos]. A questão é como você lida com isso”, disse em março daquele ano. “Lidar com isso de forma consistente com os valores americanos e o capitalismo americano é [agir] por meio da tecnologia e da inovação”.

GREELEY, CO - JUNE 01: A JBS Processing Plant stands dormant after halting operations on June 1, 2021 in Greeley, Colorado. JBS facilities around the globe were impacted by a ransomware attack, forcing many of their facilities to shut down. (Photo by Chet Strange/Getty Images)

Foto: Chet Strange/Getty Images

Negacionismo que alimenta o mundo

A JBS costuma afirmar que pretende zerar o balanço de suas emissões de gases causadores do efeito estufa até 2040 – plano chamado internamente de Net zero 2040. Em 20 de junho, o site brasileiro da empresa destacava textos sobre economia circular, redução de emissões de gás metano – produzido pela digestão do gado bovino e segunda causa principal das mudanças climáticas após o dióxido de carbono gerado pela queima de combustíveis fósseis –, a iniciativa Net zero 2040 e a preservação da Amazônia. Ou seja, todos relacionados ao meio ambiente.

Em 2020, a empresa chegou a lançar o Fundo JBS pela Amazônia, uma associação civil sem fins lucrativos vendida pelo departamento de relações públicas como financiadora de iniciativas que trabalham na “conservação e restauração da floresta, melhoria socioeconômica das comunidades locais e investimentos em pesquisa e desenvolvimento.”, segundo matéria publicada na revista Exame. “Acreditamos em uma Amazônia sustentável, pois sabemos que preservação ambiental e desenvolvimento socioeconômico são indissociáveis”, explicou à revista Joanita Maestri Karoleski, presidente do fundo.

Ao apoiar políticos que negam a mudança climática, a JBS aposta em seu atual modelo de negócios.

O site da JBS Foods USA também destaca um compromisso com a sustentabilidade. “Nós nos preocupamos com nosso papel no mundo e com nossa responsabilidade como uma empresa global de alimentos. É por isso que somos a primeira empresa global de carnes e aves a se comprometer a atingir emissões líquidas zero de gases de efeito estufa até 2040. Acreditamos que a agricultura pode e deve fazer parte da solução climática global”, afirma.

Falta combinar com os políticos financiados pelo PAC do grupo. A agropecuária industrial e em larga escala é uma das principais causas da crise climática. Ao apoiar políticos que negam o aquecimento global, votam contra a promoção de energias renováveis ou apoiam projetos a favor dos combustíveis fósseis, a JBS também faz uma aposta na manutenção de seu atual modelo de negócios. Ser de fato sustentável, afinal, pode custar os lucros da empresa.

No Brasil, antes da reforma eleitoral de 2015, que proibiu o financiamento de candidatos por pessoas jurídicas, a JBS também se envolveu bastante na política. Segundo um relatório conjunto das ONGs ACT Promoção da Saúde e Transparência Brasil, a gigante da carne foi responsável por 74% das doações do setor alimentício para candidatos ao Congresso Nacional.

Nas eleições de 2014, a JBS doou oficialmente mais de R$ 371 milhões a candidatos. Mas, em uma delação premiada, o ex-executivo Ricardo Saud admitiu que o valor chegou a quase R$ 600 milhões, se incluídos caixa dois e propinas a políticos que trabalham pelos interesses da empresa.

Em 2016, ano em que o relatório foi publicado, 36% da bancada do Congresso Nacional tinha sido financiada pela JBS. Na época, Saud admitiu que a empresa financiava políticos por interesse próprio: “Doamos propina a 28 partidos”, confessou. “Era para que eles não atrapalhassem a gente”.

Mesmo com a reforma, Marília Sobral Albiero, coordenadora de Inovação e Estratégia da ACT, disse que o financiamento de políticos por parte da JBS e de outras empresas continua. Segundo Albiero, ele ocorre hoje via corrupção e com doações de pessoas físicas ligadas às empresas. “Ficou pior, porque a gente não consegue mais mapear de onde vem o dinheiro”, ela contou ao Intercept. “Existe muito financiamento de que você não vê hoje a origem. E tem o dinheiro ilegal, né?”.

Eu procurei, por e-mail e pelos formulários de contato em seus respectivos sites, Ken Buck, Adrian Smith, Mac Thornberry, Robert B. Aderholt, Joesley Batista, Joanita Maestri Karoleski, Fundo JBS pela Amazônia, JBS Foods USA e JBS. A JBS também foi procurada via assessoria de imprensa. Não obtivemos respostas. Não conseguimos contato com o ex-executivo da J&F Ricardo Saud e os políticos americanos David Perdue e Cory Gardner. Caso eles desejem comentar a reportagem, a atualizaremos com sua resposta.