Em 2017, uma investigação liderada por uma delegada lavajatista da Polícia Federal destruiu a vida de um homem inocente. O reitor da UFSC, Luiz Carlos Cancellier, foi acusado de liderar uma organização criminosa que teria desviado recursos da universidade. Foi preso, algemado, acorrentado pelos pés e levado a um presídio de segurança máxima, onde ficou preso por 30 horas até ser solto por um habeas corpus.

Mesmo livre, Cancellier continuou proibido de colocar os pés na sua própria faculdade. Dezoito dias depois de sofrer essa sequência de humilhações, Cancellier tirou a própria vida em um shopping de Florianópolis, onde foi encontrado com um bilhete no bolso: “minha morte foi decretada quando fui banido da universidade”. As investigações se basearam nas irregularidades apontadas pelo TCU, cujo relatório final apontou não haver crime algum, apenas irregularidades administrativas que não tiveram o envolvimento de Cancellier. Pouco tempo depois, as mais de 800 páginas do relatório final da Polícia Federal também não foram capazes de apresentar uma única prova do envolvimento do reitor no caso.

Segundo a própria Polícia Federal, o esquema de desvio comandado pelo reitor operou entre 2008 a 2017. Cancellier, apontado como chefe dessa quadrilha, só assumiria o cargo em 2016. Os métodos lavajatistas, baseados mais em convicções do que em provas, foram largamente empregados pela delegada Erika Marena, a delegada do caso e cria da Lava Jato. Irregularidades administrativas foram tratadas como crimes gravíssimos em uma trama conspiratória desprovida de provas – um clichê lavajatista. Quando as investigações chegaram ao fim, nenhum crime ficou comprovado e ninguém foi condenado. Mas no tribunal da mídia, um espaço tão caro a Lava Jato, Cancellier já havia sido condenado como corrupto, uma humilhação que ele não conseguiu suportar.

Nada disso sensibilizou o lavajatismo. Quando ficou absolutamente clara a perseguição da Polícia Federal contra um inocente, a delegada Erika Marena passou a ser bastante criticada. Foi então que o procurador-chefe da Lava Jato, Deltan Dallagnol, a procurou no Telegram para prestar solidariedade. Dallagnol poupou a delegada de qualquer culpa em relação ao suicídio do homem acusado injustamente de corrupto: “As decisões foram todas deles”.

Em outra mensagem, o então procurador reforçou que ela atuou dentro dos padrões lavajatistas: “Vc respeita todas as regras, atuou 100% corretamente e como fazemos em TODOS os outros casos. Não fique chateada, amiga, que eles não merecem”. Quatro dias depois do suicídio, Dallagnol não prestou solidariedade à família do homem inocente acusado injustamente, mas preferiu afagar a principal comandante da injustiça. Nem o suicídio de um homem injustiçado pelos métodos lavajatistas levou Dallagnol e sua turma a fazer uma autocrítica. Esse é o padrão moral deste homem religioso que se vende como um guardião da ética na vida pública.

Agora, Dallagnol acaba de ser condenado pelo mesmo TCU que motivou as investigações que levaram um inocente ao suicídio. Mas, dessa vez, Dallagnol afirma ser vítima de uma perseguição política maquinada por integrantes do TCU.

Ocorre que, diferentemente do que ele apregoa, as provas das irregularidades cometidas por ele e seus parças lavajatistas são fartas, inequívocas e irrefutáveis. Além de Dallagnol, o ex procurador-geral da República Rodrigo Janot e o procurador-chefe da Procuradoria do Paraná João Vicente Beraldo Romão foram condenados por unanimidade pelo TCU por gastos indevidos na gestão administrativa da Lava Jato. O tribunal fez um pente-fino nos gastos da força-tarefa com viagens e diárias. A conclusão do TCU é de que houve prejuízo ao erário público e violação do princípio da impessoalidade graças a adoção de um esquema “benéfico e rentável” aos lavajatistas.

Os procuradores mais próximos de Dallagnol, como Carlos Fernando Santos Lima, Diogo Castor de Mattos e Orlando Martello, recebiam diárias que custavam cerca de 1 mil reais por dia para viajar para Curitiba, se alimentar e se hospedar na cidade. O problema é que todos eles já moravam em Curitiba. Mesmo assim, a Lava Jato, tão rigorosa e implacável com as contas da UFSC, não viu problema em promover essa farra interna com o erário. Segundo o TCU, foram gastos indevidamente R$ 2,8 milhões em passagens aéreas e em diárias de viagens para os procuradores que não precisavam viajar. É esse o montante que Dallagnol e sua turma foram condenados a devolver para os cofres públicos.

Segundo o relator do TCU, as decisões de Dallagnol atentaram contra a economicidade, já que houve “pagamento desmedido de diárias, sem a devida fundamentação e análise de alternativas legais mais econômicas”. A comparação deste caso com o de Cancellier deixa ainda mais evidente o padrão moral da Lava Jato: aos amigos, tudo o que o uso indevido do erário pode oferecer; aos inimigos, a condenação midiática e a aplicação indevida da lei.

Dallagnol e seus parças se mostraram indignados e prometeram recorrer da decisão que, se confirmada, poderá fazer com que o TSE torne inelegíveis os candidatos lavajatistas em virtude da Lei da Ficha Limpa.

A indignação de Dallagnol não combina com desdém que ele fez às vésperas do julgamento, quando postou no Instagram um vídeo em que aparece todo meninão no sofá comendo pipoca e uma legenda debochada: “esperando pelo julgamento no TCU”. Parecia um youtuber adolescente lacrando um youtuber rival.

Mas parece que o resultado do julgamento o fez engasgar com a pipoca. Deltan disse que não autorizou as diárias, não se beneficiou delas e não mandou pagá-las. Não foi o que pareceu quando a Vaza Jato publicou as peripécias que ele comandava no escurinho do Telegram. Em uma das mensagens enviada para procuradores, Dallagnol os incentiva a gastar mais dinheiro com viagens desnecessárias — uma jogada para evitar que a grana que estava “sobrando” fosse descontada do orçamento do ano seguinte. “Quanto mais gastarmos agora, melhor”, escreveu o paladino da ética na vida pública.

“Quanto mais gastarmos agora, melhor”, escreveu o paladino da ética na vida pública.

Revoltadíssimo com o que julgou ser uma perseguição política para tirá-lo das eleições, o ex-procurador afirmou também: “O sistema quer vingança. Este é mais um episódio que mostra o quanto o sistema político não tá nem aí pra sociedade e quer ver a Lava Jato longe do Congresso Nacional”. Vejam só, o perseguidor geral da nação que perseguiu adversários políticos agora se diz vítima de uma conspiração do “sistema” que “quer vingança”. Qualquer semelhança com os delírios de perseguição do bolsonarismo não é mera coincidência. Só faltou culpar o globalismo.

Dallagnol atacou também o relator do processo, Bruno Dantas, dizendo que ele é “apadrinhado” de Renan Calheiros e que esteve presente no jantar de lançamento da candidatura do ex-presidente Lula. Medir os outros com sua própria régua moral é um cacoete dos hipócritas. Esses fatos apontados pelo ex-procurador fariam sentido se não houvesse uma pororoca de provas das irregularidades pelas quais ele foi condenado. Outro fato que derruba a tese de perseguição é que a decisão não foi tomada apenas por Bruno Dantas. O TCU é um órgão colegiado e a condenação foi aprovada por unanimidade pelos quatro ministros que integram a 2ª Câmara.

A imprensa viúva da Lava Jato não deixou de defender a turma. Colunistões lavajatistas compraram docilmente a tese de perseguição contra Dallagnol. Houve até quem teve a coragem de especular que o TCU estaria tirando o ex-procurador do páreo eleitoral por vingança, já que a Lava Jato tirou Lula do páreo na última eleição. Trata-se de mais uma conspiração baseada não em fatos e provas, mas em delírios próprios da seita lavajatista que cooptou muitos jornalistas.

As mensagens publicadas pela Vaza Jato mostram que Dallagnol e sua turma se viam munidos de uma missão messiânica contra a corrupção. Se viam como guerreiros do bem numa luta contra os corruptos do mal. A luta desses predestinados era tão nobre que valia tudo para condenar inimigos tão maus. É o mesmo maniqueísmo selvagem que fazem cidadãos de bem bolsonaristas pregarem o assassinato de juízes do STF, considerados inimigos mortais. Dallagnol ajudou a pavimentar o caminho da ascensão do bolsonarismo ao poder e hoje faz uma campanha política direcionada a buscar os votos do eleitorado bolsonarista.

O lavajatista hoje é mais um típico candidato da extrema direita, tendo inclusive já sinalizado que apoiará Bolsonaro em um eventual segundo turno. Parece que a farra com o dinheiro público comandada pelo bolsonarismo com o Orçamento Secreto não revolta tanto Dallagnol do mesmo modo que meras irregularidades administrativas na UFSC revoltaram.

O fato é que Dallagnol ainda está respondendo a muitos processos, com risco de ser condenado em vários, e tem buscado desesperadamente o foro privilegiado. Hoje, esse medo é o principal motivo que faz Dallagnol querer se eleger — igualzinho ao Bolsonaro. Não foi à toa que, assim como o atual presidente, Dallagnol se recusou a assinar um manifesto apartidário em defesa da democracia. Ele não acha que a democracia corre risco sob a gestão Bolsonaro. Se o professor Cancellier estivesse vivo, certamente seria um dos signatários do manifesto.