Mario García disse que dói para respirar. O gás lacrimogêneo jogado em sua cela de prisão mal ventilada, de telhado metálico, onde ele foi amontoado com dezenas de outros homens, demorou um pouco para se dispersar. Ele tinha uma dor no lado do corpo, costelas quebradas, e outros ferimentos internos ainda por diagnosticar. García disse que viu cinco homens morrerem nos 24 dias em que esteve preso, após uma denúncia anônima acusá-lo de ser membro de uma gangue criminosa. Mas ele é grato – a Deus, ele disse, e ao seu presidente, Nayib Bukele – por agora estar livre.

García, de 46 anos, é um vendedor de minutas, nome local para raspadinhas de gelo, em El Zonte, uma comunidade à beira-mar onde vivem alguns milhares de pessoas em El Salvador – e que está sendo agressivamente rebatizada como “Bitcoin Beach”, a praia do bitcoin. Um homem barrigudo com não mais que um metro e meio de altura, García está acostumado a empurrar um carrinho frigorífico sob o sol, carregando suprimentos, vendendo guloseimas doces para moradores locais e turistas, inclusive entusiastas do bitcoin (os bitcoiners), alguns dos quais vêm comprando imóveis na região. García era praticamente um mascote da Bitcoin Beach, aparecendo em entrevistas no YouTube, sendo citado em tweets de influenciadores, e recebendo destaque no Diario El Salvador, um jornal de propriedade do governo. A Bitcoin Magazine, uma revista que tem feito uma cobertura extensa e entusiasmada do uso de bitcoin como moeda corrente em El Salvador, exaltou uma placa no carrinho de García que dizia “aceptamos bitcoin”, chamando o vendedor de minutas e sua esposa de “pioneiros do bitcoin”.

Mas, em 11 de abril, a polícia abordou García em El Zonte. Eles tiraram as suas roupas e verificaram as tatuagens que ele havia feito décadas mais cedo, em busca de símbolos de gangues (uma delas, já desbotada em sua mão esquerda, diz, em inglês, “FUCK YOU!”), e ele foi preso. Após dois dias sob custódia policial, García foi levado a Mariona, a maior prisão do país. Sem acesso a um advogado nem acusações formais apresentadas contra si, García ouviu que ele poderia ficar preso lá por anos, ou até décadas.

As liberdades civis em El Salvador foram suspensas em nome do enfrentamento à crescente violência das gangues.

Sob o atual estado de emergência imposto por Bukele e seu partido, o Nuevas Ideas, as liberdades civis em El Salvador foram suspensas em nome do enfrentamento à crescente violência das gangues. Agora, pessoas desaparecem em detenções muitas vezes arbitrárias, e seus familiares nada ouvem a respeito. As prisões, outrora abertas a visitantes e jornalistas, agora operam a portas fechadas. A polícia precisa cumprir cotas de detenções diárias que chegam aos três dígitos. O objetivo, como disseram publicamente alguns políticos do Nuevas Ideas, é prender todos os 70.000 membros de gangues que supostamente existem no país. Nas primeiras 10 semanas, um número estimado de 36.000 pessoas foi preso e, segundo a organização de direitos humanos Cristosal, pelo menos 63 pessoas morreram ainda presas até 20 de julho, quando o regime de Bukele prorrogou o estado de emergência pela quarta vez. Bukele disse que a taxa de erro, ou seja, a proporção de pessoas inocentes presas, não seria superior a 1%.

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Após ser falsamente acusado de ser membro de uma gangue, Mario García, um vendedor de raspadinhas de gelo na Bitcoin Beach, ficou na cadeia por mais de três semanas, durante as quais ele foi torturado e viu outros cinco prisioneiros morrerem.

Foto: Victor Peña

García teve sorte de sair. Dana Zawadzki, uma canadense que é dona de um café em El Zonte e mantém uma clínica veterinária informal para castrar os muitos vira-latas da região, conhecia ele, e descreve García e sua família como “muito próximos e queridos por mim”. Ela trabalhou com a esposa de García, Dominga, para iniciar uma campanha online em que convocaram os entusiastas locais do bitcoin, alguns deles conhecidos influenciadores com linhas de comunicação abertas junto ao governo Bukele, para se opor à detenção de García e doar dinheiro para a família dele. A campanha acabou atraindo a atenção da comunidade bitcoiner no Twitter, onde Bukele é um participante e observador. Semanas depois, García foi misteriosamente libertado.

Mensagens para vários funcionários do governo Bukele, inclusive o irmão dele, Karim, que não ocupa uma posição formal na gestão mas é um conselheiro próximo do presidente, não foram respondidas. Tentativas de contratar o presidente através do seu meio favorito – o Twitter – não tiveram sucesso, exceto em causar uma pequena confusão nas mídias sociais salvadorenhas sobre o fato de que um ator da série televisiva “Gotham” estava no país (Ben McKenzie, coautor dessa reportagem, interpretou o comissário Jim Gordon; Bukele há muito tempo se refere a si mesmo como Batman e utiliza memes do Batman).

A woman carrying a child walks next to a sign displaying the acceptance of Bitcoin as a payment method on June 15, 2022 in San Salvador, El Salvador. El Salvador´s government has experienced losses of half of it´s $103 million US Dollar investement in Bitcoin as Bitcoin´s price fell to around $20,000 US Dollars. (Photo by Camilo Freedman/NurPhoto via Getty Images)

Uma loja exibe uma placa avisando que aceita bitcoin como pagamento, em 15 de junho de 2022, em San Salvador, El Salvador.

Foto: Camilo Freedman/NurPhoto via Getty Images

Do lado de fora da prisão de Mariona, ao norte da capital San Salvador, mulheres chegam e aguardam informações sobre seus parentes presos. Um acampamento se formou no local, com cozinhas improvisadas, banheiros e espaços para lavar roupa. As mulheres esperam por pessoas como Mario García, uma das muitas vítimas da recente repressão política que Bukele impôs após o colapso de um acordo secreto entre o governo e as gangues do país. Agora, um cessar-fogo clandestino deu lugar a forças do governo arrombando portas e parando homens nas calçadas para verificar suas tatuagens.

Nos mercados de rua de San Salvador, segundo noticiou o site El Faro, vendedores começaram a comercializar uniformes de prisão que as pessoas compram para enviar aos seus familiares encarcerados. A narrativa predominante é que a política de detenções em massa continua popular – uma pesquisa recente feita por um jornal salvadorenho disse que Bukele tinha uma aprovação de 86,8%. Ocasionalmente, o governo Bukele declara – talvez de forma improvável – que não ocorreram homicídios no país nas últimas 24 horas.

A impiedosa batalha contra a violência das gangues está de acordo com a tentativa de Bukele de projetar uma imagem de durão. Depois que o presidente de El Salvador começou a investir em bitcoin, ele começou a cortejar personalidades online e excutivos de criptomoedas, referindo-se a si mesmo como um “ditador bacana” e o “CEO” de El Salvador. Praticamente não havia um influenciador de bitcoin com quem ele não posasse para uma foto. Seu governo lançou vídeos promocionais que combinavam produção em estilo hollywoodiano com militares salvadorenhos bem armados agindo como machões e combatendo os malfeitores – tudo sob o comando de seu corajoso presidente.

SAN SALVADOR, EL SALVADOR - JUNE 01: President of El Salvador Nayib Bukele delivers a message to the citizens as he celebrates his third year in office at the Legislative Assembly of the Republic of El Salvador building on June 1, 2022 in San Salvador, El Salvador. Salvadoran President Nayib Bukele is celebrating his third year in office. (Photo by Ulises Rodriguez/APHOTOGRAFIA/Getty Images)

O presidente salvadorenho Nayib Bukele comemora seu terceiro ano no poder, em 1º de junho de 2022, em San Salvador.

Foto: Ulises Rodriguez via Getty Images

Apesar do talento ocasional do governo salvadorenho para o marketing, o país enfrenta enormes desafios econômicos, uma crise da dívida, lutas constantes com o crime e a violência, uma disputa diplomática com os Estados Unidos e a gestão intempestiva de Bukele, que pode ser descrito superficialmente como uma mistura salvadorenha de Donald Trump, do presidente filipino Rodrigo Duterte e, incrivelmente, de um influenciador digital bitcoiner. Em 2021, Bukele remodelou o judiciário do país, nomeando novos juízes que interpretaram de forma criativa a Constituição para permitir que o presidente se candidatasse à reeleição. Preenchendo cargo governamentais com parentes e amigos de escola, Bukele dirige El Salvador quase como se fosse uma empresa familiar. As finanças da empresa podem estar em crise, mas, com sua política de prisões em massa e leis de censura visando a imprensa independente, Bukele parece determinado a consolidar ainda mais seu poder.

Pairando sobre tudo isso está a consequência, que ainda se desenrola, do desastroso projeto de Bukele para usar o bitcoin. Em junho de 2021, em uma apresentação de vídeo em uma conferência sobre bitcoin em Miami, Bukele anunciou que seu país seria o primeiro do mundo a adotar o criptoativo como moeda de uso legal. Em 7 de setembro de 2021, o bitcoin foi oficialmente adotado em El Salvador, com muita fanfarra propagandística e algum descontentamento, incluindo protestos sociais. Naquele dia, os mercados globais de criptomoedas caíram, com várias bolsas fechando inesperadamente. Seguiram-se inúmeras denúncias de fraude e roubo de identidade; um bitcoiner local nos disse que seu amigo usou uma foto de um cão para confirmar sua identidade. Problemas técnicos desenfreados atormentaram a implantação do Chivo, a carteira digital oficial em que todos os cidadãos receberiam US$ 30 em bitcoin (cujo valor despencou desde então). A adoção geral tem sido mínima, com a maioria das pessoas ainda preferindo dólares americanos, a outra moeda utilizada no país. O bitcoin também não se mostrou útil com remessas vindas do exterior, que são fundamentais para a economia de El Salvador: menos de 2% das remessas enviadas para o país agora usam bitcoin.

O projeto do bitcoin em si é levado a cabo por um confuso emaranhado de interesses governamentais e privados, alguns deles estrangeiros; poucas pessoas externas ao sistema sabem quem faz o quê ou onde. Bukele se gaba no Twitter de que compra bitcoin pelo telefone, usando dinheiro público, enquanto está sentado no vaso sanitário. Ele nunca postou o endereço da carteira que usa para que a população possa examinar essas transações, mas, se forem reais, ele já conta milhões de dólares no vermelho. Assim como o povo salvadorenho.

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Wilfredo Claros foi informado de que deve deixar sua terra para abrir espaço para um novo aeroporto que servirá a Cidade do Bitcoin, a promessa de Bukele para criar uma criptoutopia.

Foto: Victor Peña

Wilfredo Claros vive com sua esposa, dois filhos e outros membros da família em um pequeno terreno de uma estrada não pavimentada, em uma área verde no pé das montanhas ao redor de La Unión, uma cidade no leste de El Salvador. Galinhas, cachorros e um peru frequentemente irritado vagam pela propriedade, onde Claros construiu sua casa de blocos de cimento. Ele alimenta sua família cultivando, pescando e arrancando mangas que praticamente caem do céu. Eles bebem água de um sistema de poços e cisternas, que uma geração anterior de membros da família construiu sob a sombra de árvores do tipo Parota, um membro da família ervilha que produz uma madeira rica e cor de caramelo. Claros atribui a saúde de sua família durante a pandemia de covid-19 à água fresca da propriedade.

Isso, pelo menos, até agora. Claros, como dezenas de seus amigos, parentes e vizinhos, sabe que sua terra está prestes a ser patrolada e incorporada em um novo aeroporto para servir a Cidade do Bitcoin. Ainda não está claro quantas pessoas serão afetadas. O governo salvadorenho não faz um censo há pelo menos 15 anos.

Bukele promete transformar um conceito, que por enquanto existe apenas como um modelo dourado no Twitter, em uma cidade física mantida pela mineração de criptoativos e energia geotérmica — e dólares do turismo. O governo não explicou adequadamente aos moradores por que a moeda digital está abalando suas vidas, mas eles sabem ao menos uma coisa: alguns deles têm que ir embora. Suas terras são necessárias para a Cidade do Bitcoin.

Ninguém a quem questionamos pensava que El Salvador, um país do tamanho do Sergipe, precisava de outro aeroporto, exceto talvez como um lugar para trazer jatos particulares das elites dos criptoativos ou qualquer outra pessoa amiga do regime. O futuro local planejado para a Cidade do Bitcoin é uma região tranquila e charmosa com algumas praias e possibilidades de caminhadas para os turistas, mas não há nada perto da demanda — ou infraestrutura — exigida por um projeto aeroportuário. La Unión, que fica a poucos quilômetros da fronteira com Honduras, é uma cidade costeira despretensiosa que por acaso é um centro para o narcotráfico regional. A cocaína passa, parte dela subindo o litoral nos fundos falsos dos barcos de pescadores locais. O prefeito da cidade vizinha de Conchagua, que viveu em Houston, nos EUA, por 10 anos antes do partido Nuevas Ideas de Bukele atraí-lo de volta ao país, tem um irmão que foi acusado de ser um narcotraficante (no geral, as apreensões de cocaína diminuíram durante o governo Bukele).

Nem Claros nem seus vizinhos sabem quando chegará o dia da demolição ou para onde eles devem ir. Eles não sabem por que a área, cheia de flora, gado e uma comunidade saudável, precisa ser demolida para dar lugar a um aeroporto. Há uma sensação de desamparo entre os moradores, que compartilham o pouco que sabem através de um grupo de WhatsApp. “Merecemos informação”, disse Claros.

Ele enfatizou a injustiça de sua situação, enfrentando despejo sem pretexto e sem muita informação. “Não posso ir à casa de Bukele, reivindicar a propriedade dele e levá-la embora”, disse Claros. “Eu levaria um tiro. Por que, então, isso pode acontecer comigo?”

Soldiers search for gang members during the state of emergency declared by the Salvadoran government, in Santa Ana, El Salvador, on June 30, 2022. - In response to a spate of 87 murders committed between 25 and 27 March, Congress granted a request by President Nayib Bukele to decree a state of emergency, which has been extended until at least the end of July, and has allowed more than 43,000 suspected gang members to be detained without warrants. Organisations such as Amnesty International and the NGO Human Rights Watch have questioned the procedures and called on Bukele to respect human rights. The US government has also expressed concern about "arbitrary" detentions and "deaths in custody". (Photo by MARVIN RECINOS / AFP) (Photo by MARVIN RECINOS/AFP via Getty Images)

Soldados patrulham durante o estado de emergência declarado pelo governo salvadorenho, em Santa Ana, El Salvador, em 30 de junho de 2022.

Foto: Marvin Recinos/AFP via Getty Images

Em 26 de março, pelo menos 62 pessoas foram assassinadas em El Salvador — um dos dias mais violentos que o país viveu desde sua guerra civil, que começou, segundo muitos relatos, com o assassinato do arcebispo Óscar Romero em 1980, e durou até 1992. Trinta anos depois, o alto número de mortos chocou o país de cerca de 6,5 milhões de habitantes, e o governo de Bukele declarou estado de emergência no dia seguinte. Sob Bukele, El Salvador, em um período bastante curto de tempo, trocou a maior taxa de homicídios do mundo pela maior taxa de encarceramento (com cerca de 2% dos adultos presos, El Salvador agora supostamente prende mais pessoas per capita do que os Estados Unidos). Os aliados de Bukele e muitos salvadorenhos dizem que a política é um sucesso, pelo menos do ponto de vista da segurança pública, mas as perguntas permanecem: como essa suposta redução de homicídios foi alcançada, e a que custo?

Publicações do El Faro, Reuters e do Departamento do Tesouro dos EUA ofereceram respostas, revelando que o regime de Bukele, como alguns de seus antecessores, havia chegado a acordos secretos com as principais gangues, que incluem MS-13, Calle 18 Sureños e Calle 18 Revolucionarios. Em 17 de maio, o El Faro divulgou sete gravações de áudio de um funcionário do governo Bukele conversando com líderes de gangues e lamentando um colapso nas relações. As gravações revelaram calúnias entre funcionários de Bukele (que se referiam ao presidente como “Batman”) e relações oscilantes entre o negociador designado pelo governo e alguns dos líderes de gangues. Eles também revelaram uma colaboração prévia: um alto funcionário de Bukele disse que havia retirado pessoalmente da prisão um líder de gangue procurado nos Estados Unidos e o levado para a Guatemala; o líder não está mais em custódia do governo e já teria chegado ao México. Ao mesmo tempo, as gangues viram o regime de Bukele como culpado de traição quando prometeu passagem segura para outros membros dos grupos criminosos e depois os prendeu. A explosão de ultraviolência das gangues – que tinha como alvo pessoas comuns, não apenas rivais – foi sua resposta furiosa, uma exibição cruel de seu poder. Desde então, a violência se reduziu, pelos padrões salvadorenhos, mas também ajudou a justificar a campanha de prisão em massa do governo.

A crise de gangues de El Salvador é, sob qualquer avaliação justa, uma criação dos EUA. Depois que os EUA apoiaram o governo de direita de El Salvador, incluindo seu massacre de milhares de civis, durante a guerra civil de 13 anos, ondas de refugiados fluíram para o norte. Em Los Angeles, onde muitos salvadorenhos se estabeleceram, alguns dos filhos de sobreviventes da guerra civil formaram gangues como a MS-13. Em 1996, o presidente Bill Clinton assinou a Lei de Reforma da Imigração Ilegal e de Responsabilidade dos Imigrantes, que ampliou a elegibilidade de quem poderia ser deportado e “acelerou” a expulsão de milhares de salvadorenhos de volta à América Central. As gangues que se formaram em Los Angeles brotaram em San Salvador, reforçadas pelas relações econômicas e de viagem existentes entre a diáspora e o país natal. Outrora uma gangue local para jovens salvadorenhos pobres que buscavam proteção e um senso de comunidade em bairros americanos violentos, a MS-13 gradualmente se tornou uma organização criminosa transnacional.

EAGLE PASS, TEXAS - MAY 21: Migrants from El Salvador walk through brush alongside the banks of the Rio Grande after crossing into the U.S. on May 21, 2022 in Eagle Pass, Texas. Title 42, the controversial pandemic-era border policy enacted by former President Trump, which cites COVID-19 as the reason to rapidly expel asylum seekers at the U.S. border, was set to officially expire on May 23rd. A federal judge in Louisiana delivered a ruling today blocking the Biden administration from lifting Title 42.  (Photo by Brandon Bell/Getty Images)

Migrantes de El Salvador caminham pelo mato ao lado das margens do Rio Grande depois de atravessarem para os EUA em 21 de maio de 2022, em Eagle Pass, Texas.

Foto: Brandon Bell/Getty Images

As políticas dos EUA têm sido de pouca ajuda desde então, particularmente com sua ênfase no retorno à força dos salvadorenhos – incluindo aqueles que fogem da violência de gangues —para El Salvador. Entre 2013 e 2019, segundo a Human Rights Watch, 138 pessoas que foram enviadas de volta dos EUA para El Salvador acabaram mortas. Outros foram estuprados e torturados.

Muitos salvadorenhos, sejam bukelistas ou não, compreensivelmente se ressentem dos EUA por interferir em seu país e alimentar o problema das gangues. Guerras contra as drogas e o comunismo foram prioridade nas preocupações de segurança nacional, prevalecendo sobre tentativas genuínas de consagrar os direitos humanos e a democracia. A cumplicidade da CIA com governos latino-americanos de direita e suas juntas assassinas durante a Guerra Fria ainda é responsável por um longo rastro sombrio. Os EUA sancionaram altos funcionários salvadorenhos por corrupção, e um grupo bipartidário de senadores e deputados norte-americanos apresentou projetos de lei para “mitigar os riscos” da adoção do bitcoin em El Salvador (nenhum deles efetivamente virou lei).

Medidas como essas só aprofundaram a ruptura diplomática. “OK boomers…” Bukele, um millennial mais velho, escreveu em resposta ao projeto de lei proposto pelo Senado. “Nós não somos sua colônia, seu quintal ou seu jardim”.

As relações estavam mais amistosos no governo americano anterior: em 2019, Trump e Bukele se reuniram e estabeleceram as bases para um acordo, segundo o qual alguns migrantes que chegavam aos EUA para solicitar asilo seriam deportados de volta para El Salvador, porque sob seu novo presidente o país era agora considerado “seguro”, apesar de ter a maior taxa de assassinatos do mundo. O objetivo geral era suprimir a emigração latino-americana rumo aos EUA (o governo Trump tinha acordos semelhantes com Honduras e Guatemala). Bukele ficou feliz em ajudar.

Mas impedir a livre circulação do povo salvadorenho é barrar o funcionamento do principal motor econômico de seu país. Mais de 2 milhões de salvadorenhos vivem nos EUA, e o dinheiro que eles enviam para seus 6,5 milhões de compatriotas sob a forma de remessas representa até um quarto da economia do país (o produto interno bruto de El Salvador em 2020 ficou um pouco abaixo dos US$ 25 bilhões). Essa economia é conduzida principalmente em dinheiro, com estimativas de até 70% de todas as transações usando notas físicas de dólar. Uma porcentagem semelhante de salvadorenhos (70% ou mais) não tem conta bancária.

Com esse cenário financeiro, a introdução do bitcoin como uma forma adicional de moeda legal pode, de certa forma, ter feito algum sentido. Quase todo salvadorenho tem um celular, e se eles pudessem descobrir uma maneira de usar bitcoin em vez de métodos mais tradicionais de transferir dinheiro de remessa para o país (como a Western Union), evitando as taxas e a volatilidade, isso poderia ser um divisor de águas — especialmente para os funcionários do governo, empresários e influenciadores de criptomoeda americanos que tinham a lucrar com a política de bitcoin do país. Mas foi um tiro no escuro desde o início.

Apesar de informações sobre US$ 425 milhões supostamente gastos pelo governo salvadorenho, o projeto bitcoin não saiu de acordo com o previsto: depois de um lançamento mal feito, a adoção da criptomoeda é extremamente baixa. A grande maioria dos comerciantes prefere dinheiro, não só porque é mais fácil fazer transações, mas também porque muitos deles não entendem como funciona a criptomoeda, os sistemas de ponto de venda do bitcoin nem sempre funcionam, ou eles não têm acesso à internet.

Bukele essencialmente impôs o bitcoin ao país por decreto.

Com pouco debate público, Bukele essencialmente impôs bitcoin ao país por decreto. Uma vez ele levou soldados armados para o Congresso para intimidar os legisladores e prometeu que a iFinex, a influente controladora corporativa das empresas de criptomoedas Bitfinex e Tether, escreveria as novas leis de valores mobiliários digitais do país. Enquanto os manifestantes tomavam as ruas, o principal caixa eletrônico do Chivo para sacar bitcoin na Praça Gerardo Barrios, no coração de San Salvador, foi queimado. Alguns ativistas com quem falamos se perguntaram se o caixa foi intencionalmente deixado desprotegido (agora ele é resguardado por soldados, e os trabalhadores de lá recusaram nossos pedidos de entrevista).

Alguns participantes originais do projeto bitcoin de Bukele — que foi concebido por dois irmãos do presidente, envolvendo ainda um quadro de influenciadores estrangeiros de bitcoin, executivos de criptoativos sem jurisdição e agentes políticos venezuelanos — parecem ter deixado ou recalibrado seus papéis. O muito badalado “título de dívida de vulcão”, ou “volcano bond” — que prometia levantar US$ 1 bilhão usando blockchain e oferecia taxas de juros baixas que faziam menos sentido financeiro do que a compra direta de títulos tradicionais do governo salvadorenho — foi oficialmente adiado em 22 de março. No dia seguinte, o governo salvadorenho saudou a chegada de Changpeng Zhao, o CEO da Binance, a maior empresa de compra e venda de criptomoedas do mundo. Ele foi acompanhado por Brock Pierce, um co-fundador da Tether que desde então se tornou um nome poderoso do setor, envolvido com muitas empresas de criptomoedas. Também no país naquela época estavam Ricardo Salinas, um bilionário mexicano impulsionador do bitcoin, e Samson Mow, um dos arquitetos do projeto bitcoin de El Salvador que fundou uma empresa dedicada à adoção de bitcoins por estados-nação, chamada JAN3. Meses após a visita, a emissão dos títulos de vulcão de El Salvador ainda está em compasso de espera.

Embora ainda use avatares em que aparece com raios laser nos olhos no Twitter, Bukele perdeu um pouco da sua fanfarronice de bitcoiner. Durante a recente queda das criptomoedas, com o valor do bitcoin despencando e ainda não tendo se recuperado, o presidente de El Salvador aconselhou as pessoas a “parar de olhar para o gráfico e aproveitar a vida”.

Menos de duas semanas depois, ele comprou na baixa, adquirindo 80 tokens de bitcoin para seu país a um custo de cerca de US$ 1,5 milhão. “Obrigado por vender barato”, escreveu ele.

SAN SALVADOR, EL SALVADOR - JUNE 01: A protestor holds up a burning Nayib Bukele campaign shirt during a demonstration against the Nayib Bukele administration at the Plaza Salvador del Mundo on June 1, 2022 in San Salvador, El Salvador. Members of social organizations protest against the third anniversary of the government of President Nayib Bukele. (Photo by Kellys Portillo/APHOTOGRAFIA/Getty Images)

Um manifestante incendeia uma camiseta da campanha de Nayib Bukele na Praça Salvador del Mundo, em 1º de junho de 2022, em San Salvador.

Foto: Kellys Portillo/APHOTOGRAFIA/Getty Images

Seja lá o que aconteça com as ofertas de títulos de El Salvador, o país tem uma perspectiva macroeconômica sombria. O governo deve cerca de US$ 800 milhões com vencimento em janeiro do próximo ano e corre o risco de ficar inadimplente com sua dívida soberana. No início deste ano, a agência de classificação de risco Fitch rebaixou a qualificação de emissor de moeda estrangeira de longo prazo de El Salvador de B- para CCC. De onde Bukele, que zombou de credores como o FMI no Twitter, vai tirar o dinheiro? Seu ministro das finanças recentemente prometeu demissões de alguns funcionários do setor público a fim de liberar recursos. Pode ser uma questão de tempo até que o governo dê calote. Se a economia entrar em colapso, Bukele pode enfrentar um risco político.

Mesmo assim, sua base de poder por enquanto parece relativamente segura. Seu estilo trumpista de linguagem grandiosa na internet, governando via tweet e insultando políticos dos EUA enquanto viraliza entre seus aduladores, tem atraído hordas de fãs online. A repressão de gangues goza, até aqui, de popularidade. A economia continua cambaleando, com o bitcoin pelo menos teoricamente melhorando os números de turismo e fornecendo algumas oportunidades de fotos para um presidente viciado em mídia social.

Tendo já criado uma abertura para um segundo mandato, Bukele continuou a corroer a esfera cívica de El Salvador. Diante da intimidação do governo, a autocensura está aumentando entre a imprensa, com uma nova lei alertando as organizações de mídia sobre as consequências para a publicação de informações originárias de gangues. Jornalistas com quem conversamos foram seguidos e fotografados; a maioria acreditava, muitas vezes com alguma evidência, que seus telefones tinham sido hackeados (o governo de El Salvador é um cliente do NSO Group, o fornecedor israelense de spyware que costuma ser usado por governos contra a imprensa e opositores). Seus familiares foram ameaçados ou demitidos de seus empregos. Alguns jornalistas andam sempre com seus passaportes, caso seja necessária uma fuga rápida para Honduras ou Guatemala. Outros, especialmente da esquerda política, já fugiram para outros países da região.

Entre os críticos mais francos de Bukele está Claudia Ortiz, uma política que tem denunciado o crescente autoritarismo do presidente. Ela é a única representante que seu partido político, o Vamos, tem na legislatura do país. Ainda assim, ela pode ser a concorrente mais viável para enfrentar Bukele nas eleições presidenciais de 2024.

“Transformar o bitcoin na moeda legal de El Salvador — não parece que essa decisão foi tomada para beneficiar o povo salvadorenho”, disse Ortiz. Ela disse que a política do bitcoin foi concebida pelos irmãos de Bukele e executivos de criptomoedas estrangeiros, como Jack Mallers, da Strike. O projeto de lei em si foi aprovado na calada da noite depois de quase nenhum debate. Naquela noite, Bukele participou de uma reunião do Twitter Spaces, divulgando, em inglês, seu iminente milagre econômico.

“Com quem ele estava falando? Ele não estava falando com os salvadorenhos”, disse Ortiz, citando preocupações tanto de eleitores quanto de economistas de que a política do bitcoin servirá aos ricos e não às pessoas comuns.

Um ano após a aprovação da lei de Bitcoin de Bukele, o investimento estrangeiro na verdade havia caído no país, disse Ortiz. “A política econômica é um fracasso”.

Osmar Zelaya holds American flags in front of the LA Convention Center to protest against the President of El Salvador Nayib Bukele, in Los Angeles, California, on June 06, 2022. - Leaders from North and South America will gather in Los Angeles from June 6 through June 10 to meet for the ninth Summit of the Americas. (Photo by Apu GOMES / AFP) (Photo by APU GOMES/AFP via Getty Images)

Osmar Zelaya segura bandeiras americanas para protestar contra o presidente salvadorenho Nayib Bukele, em frente ao Centro de Convenções de Los Angeles, em 6 de junho de 2022.

Foto: Apu Gomes/AFP via Getty Images

Buscando oportunidades econômicas, alguns salvadorenhos tentaram abraçar uma das políticas que são marca registrada de Bukele apenas para acabarem vítimas de outra — como Mario García, que aceitou o futuro do bitcoin antes de ser jogado em uma cela de Mariona, em meio à repressão às gangues. Zawadzki, a empresária que ajudou a organizar sua libertação, não fazia questão de criticar seus vizinhos amantes do bitcoin, mas achou que era justificado dadas as circunstâncias. “Precisamos ser uma comunidade, mas se essa é a maneira [de libertar García], então eu sou a favor”, disse ela. “Eu só quero este homem livre”.

Não está claro quem fez o apelo direto a Bukele ou outra pessoa próxima dele. Mas a pressão pública, e os canais silenciosos que poderia ter ativado, aparentemente funcionaram. Mais de três semanas depois de ter sido preso, García foi mandado de volta para casa, em um ônibus para El Zonte.

Sua família estava, naturalmente, aliviada, mas García ainda precisa de tratamento para alguns de seus ferimentos. Quando o visitamos em meados de maio, encontramos sua esposa doente deitada em uma rede na propriedade onde vivem com seus dois filhos. Ele andou com cuidado e disse sentir dor, o que tornou difícil que ele voltasse a trabalhar.

Wilfredo Claros, por sua vez, disse que sua vida tem seus desafios, mas ele tem uma existência bucólica — trabalhando a terra cercado por sua família, por Deus, pela sua comunidade e com recursos suficientes para se sustentar — que faz com que viva satisfeito. Em sua propriedade, parentes, alguns deles em visita vindos dos EUA, gostam de parar para tomar café e conversar por horas.

Claros sugeriu que o presidente poderia visitá-los e comer com eles. Eles poderiam conversar, e ele poderia ajudar Bukele, também um homem de fé, a encontrar compreensão. Claros, um pescador que gosta de citar parábolas sobre peixes e homens, parecia acreditar que isso seria possível.

Mas ele estava preocupado com a política de repressão às gangues e a impossibilidade de protestar ou se abrir sobre preocupações políticas. “Eu não quero ser preso”, ele disse. “Estou feliz vivendo aqui e comendo as mangas que caem das árvores”.

As árvores Parota, fazendo sombra no antigo poço de sua família, agora estão cercadas por uma fita laranja: o símbolo do governo indicando que devem ser removidas.

Segundo Claros, “eles estão destruindo nossos lares, nosso ganha-pão e nossa história”.

Tradução: Maíra Santos