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Ilustração: Victor Vilela para o Intercept Brasil

Às vésperas do pleito de 2018, muita gente apavorada com a possibilidade de vitória de Jair Bolsonaro levou café com bolo para ruas e praças na tentativa de virar voto. A conversa veio tarde demais, estava tudo dominado. Na “escolha muito difícil”, como definiu o Estadão, o professor Fernando Haddad comeu a poeira e o pó de giz da história.

Pule comigo para 2022. Nesse início da campanha da eleição mais importante do resto de nossas vidas, o café está mais caro, o bolo também sofreu o formigamento inflacionário, o encontro olho no olho, porém, é um artigo de primeira necessidade – apresenta tendência de alta como forte influenciadora política.

Ao abrir sua garrafa térmica, pode logo puxar o assunto sobre a variação de 61,83% no preço do próprio café moído no período de um ano. O bolo, mesmo de fubá, variou quase 20%. Se pingar um leitinho (37,61%), vixe, você pode lembrar de quem usava o ministro Paulo Guedes como álibi para votar no capitão do apocalipse. Será o café com bolo mais eficiente da história. O café com bolo sobre o café com bolo. O meta-café-com-bolo da era bolsoguedista.

A resenha presencial, no tête-à-tête, tem muito efeito. Em bate-papo no ICL Notícias com o sociólogo mineiro Felipe Nunes, diretor do instituto de pesquisas Quaest, ele me chamou a atenção para a relevância dos “dois dedos de prosa” nas decisões eleitorais de outubro. Um contingente de 17% diz que se informa sobre o assunto nessa conversinha em tom familiar ou de amizade, superando inclusive sites, blogs políticos e o noticiário dos portais de internet (estas fontes alcançam 10%). “É o mecanismo que mais está crescendo na sociedade”, apontou Nunes.

A prosa na intimidade só perde, por enquanto, para as redes sociais (25%) e televisão (44%). Isso significa que vale a pena, para evitar o desespero em cima da hora no segundo turno de 2018, a tentativa de convencimento de amigos, parentes, colegas de firma, conhecidos e até de passantes. Você pode até substituir o café com bolo — vale também um mate, uma cajuína, uma cerveja, um vinho —, mas os encontros pessoais serão decisivos.

Imagina a força de um café com cuscuz no Nordeste. Mesmo sabendo que na maioria dos estados a rejeição ao bolsonarismo beira os 60%, o vira-voto da região segue importantíssimo. Há sempre um bacana no bairro de Boa Viagem, no Recife, carente de uma resenha freudiana. Quem se habilita? No Corredor da Vitória, em Salvador, a tarefa é difícil, mas nunca impossível. Mire-se na música do centenário compositor Gordurinha (1922-1969), cujo título diz tudo: “Baiano burro nasce morto”.

Em Fortaleza, no bairro nobre, vale a verve de Ednardo, o mesmo do pavão misterioso: “Aldeia, Aldeota/ Estou batendo na porta pra lhe aperriar/ Pra lhe aperriar, pra lhe aperrear. //Eu sou a nata do lixo/ Sou do luxo da aldeia/ Sou do Ceará.”

Pauta sobre o estrago do governo de Jair é o que não falta. Tem uma para cada tipo de sensibilidade.

Caso a leitora e o leitor não se achem bons de cantadas eleitorais, o serviço “Tira voto do Jair” é um guia na internet que só ajuda. “Pelas pesquisas pode parecer que o jogo está ganho, mas o bolsonarismo segue muito mobilizado, tá com a máquina pública na mão e tem muita água para rolar até outubro”, adverte a página. O foco, segundo o grupo de ativistas contra o candidato à reeleição, deve ser os “mais-ou-minions”, os eleitores que não gostam de política e fogem da “polarização”. Este grupo decidirá a disputa.

Um erro de estratégia, segundo o guia: “Toda vez que vc chama um mais-ou-minion de burro ou de fascista, ele fica com raiva de você, e volta pros braços do Jair”. O acerto é tocar no que dói, como as mortes de parentes durante a pandemia de covid-19, e reproduzir vídeos de Bolsonaro imitando a falta de ar dos pacientes ou debochando das vítimas. Puxar conversa sobre a carestia no supermercado também é bola dentro — lembre-se do café com bolo lá do início.

Pauta sobre o estrago do governo de Jair é o que não falta. Tem uma para cada tipo de sensibilidade. Da destruição da Amazônia (com uma fartura de números e histórias terríveis como a morte de indigenistas) à política das armas, que facilitou a aquisição de fuzis por parte de organizações criminosas. Encher a garrafa térmica e buscar o eleitor mais próximo em 2022 é uma atitude bem mais alvissareira do que na reta final da campanha de 2018, quando a maioria da população não sabia da carnificina que Jair seria capaz de cometer no Palácio do Planalto.

Apesar daquele tio bolsonarista raiz ter um voto à prova de virada, a valorização da conversa em família também está em alta. Hora de aplicar os mesmos índices de variações de preços do bolo e do café. O “passa o arroz, por favor” vem seguido da planilha de carestia da cesta básica

A prima ou o primo arrependidos podem ser bons interlocutores para o momento — não exalam mais o antipetismo modinha de outras temporadas. Vale gastar a prosa, com caldo-de-cana e pastel de carne seca, como fiz ontem na feira. Experiência própria: guarde a arroganciazinha do “Eu avisei” no bolso falso do casaco. Para cima com a cumeeira, moçada!

P.S.: Gostaria de manifestar a todas as leitoras e leitores o meu prazer em fazer parte da equipe de colunistas do TIB, o serviço jornalístico que mudou a história recente do país com as revelações da Vaza Jato. Até a próxima.