Os programas eleitorais do deputado federal Capitão Wagner, candidato ao governo do Ceará pelo União Brasil, tiveram uma figura desconhecida dos brasileiros como principal destaque: o ex-agente do FBI George Piro.”Se você escolher Wagner como seu governador, em 1º de janeiro de 2023, eu estarei lá com ele para mudar o Ceará”, garante o americano em inglês, acompanhado por uma dublagem dramática, típica dos filmes de ação transmitidos pela Sessão da Tarde na TV Globo.

Piro se transformou ao mesmo tempo em um ilustre cabo eleitoral e em garoto-propaganda do Capitão Wagner, que promete “instalar no Ceará o maior escritório de inteligência contra o crime do país” e uma segurança pública “padrão FBI”. Isso seria possível, assegurou o candidato, porque ele tem “parceria estabelecida, um compromisso do FBI, da polícia federal americana de nos auxiliar”. Para convencer os eleitores, vale até uma montagem bizarra em vídeo, com paródia fazendo trocadilho com o sobrenome do ex-agente.

Mas a candidatura que representa a ala bolsonarista no Ceará – tecnicamente empatada em primeiro lugar com o petista Elmano de Freitas, segundo a última pesquisa do Ipec – esconde algumas verdades sobre Piro e a tal “parceria”. Desde julho, ele sequer trabalha no FBI, fato que a campanha não deixa claro aos eleitores. Pior: não há compromisso algum do órgão americano com o Capitão Wagner.

Segundo o site Flórida Bulldog, George Piro pediu aposentadoria após ser chamado na sede do FBI em Washington para explicar por que não havia investigado o xerife Gregory Tony, acusado de corrupção em licitações para compra de kits de primeiros socorros. Ele trabalhava no condado de Broward, na Flórida, e Piro liderava o escritório do FBI em Miami, capital do estado, desde 2018. Era, portanto, responsabilidade sua investigar o caso, mas ele o transferiu para o escritório do FBI na Carolina do Sul.

Ainda segundo o site, Piro teria se negado a tocar a investigação, porque não queria ser responsável pela prisão do primeiro xerife negro da região, nem arruinar sua relação com o gabinete de Tony, com quem trabalhava frequentemente. A interferência indevida, diz outra reportagem do Flórida Bulldog, fez a investigação parar. Descontente com a atitude do chefe, um subordinado teria reclamado, mas o caso só retornou ao escritório do FBI em Miami após a aposentadoria de Piro.

O FBI se negou a me responder se o afastamento tem alguma relação com as denúncias de interferência no caso do xerife Tony. Piro também não retornou meu pedido de entrevista. Ao menos publicamente, o órgão é só elogios ao agente “altamente condecorado”. Em um texto publicado no site para anunciar sua aposentadoria, o FBI destacou os “inúmeros prêmios” recebidos pelo “serviço de inteligência e aplicação da lei”.

Já Piro disse que pretendia se aposentar há muitos anos, mas acabou adiando a decisão por causa da pandemia e da morte, em uma operação policial, de dois agentes que trabalhavam com ele. “Optei por permanecer para orientar o escritório em um momento difícil”, afirmou.

Diferente do que diz o capitão Wagner em um dos seus programas eleitorais, Piro não foi “diretor do órgão por 23 anos” – ele trabalhou para o FBI por 24 anos, mas não ocupou cargo de direção durante todo esse período. Segundo o Flórida Bulldog, Piro atuou por um tempo como diretor assistente da Divisão de Operações Internacionais na sede do FBI.

Mas, nos últimos quatro anos, de acordo com o órgão, Piro ocupou o cargo de “agente especial encarregado do escritório de campo do FBI em Miami”, função que já havia desempenhado entre 2014 e 2017. Este é um dos quatro escritórios com responsabilidade extraterritorial, por isso, a equipe de Piro poderia ter missões na América Latina.

É por esse currículo que o capitão Wagner confia em Piro para resolver os problemas da segurança pública em seu governo. Mas há muitas fragilidades na proposta de “trazer para o Ceará o padrão FBI de investigação”. A principal delas é de ordem pragmática: a polícia federal americana em nada se assemelha à Polícia Civil de qualquer estado brasileiro, principalmente no que se refere aos investimentos que recebem e às atribuições que possuem. O FBI está mais próximo da Polícia Federal brasileira.

O deputado federal e candidato ao governo do Ceará Capitão Wagner, que deve disputar o segundo turno com o petista Elmano de Freitas.

O deputado federal e candidato ao governo do Ceará Capitão Wagner, que deve disputar o segundo turno com o petista Elmano de Freitas.

Foto: Pablo Valadares/Câmara dos Deputados

Por isso, para importar os “melhores armamentos e treinamento de ponta”, o capitão Wagner, caso eleito governador, precisaria articular uma parceria inédita entre a Secretaria Estadual de Segurança Pública, o governo federal do Brasil e dos Estados Unidos, a Polícia Federal e o FBI.

Em discursos e entrevistas, o candidato tenta convencer os eleitores de que Piro atuará como intermediador de tal cooperação multilateral. “Logicamente que ele vai facilitar o estabelecimento dessa parceria. A confiança que ele tem do governo americano, do próprio FBI, vai viabilizar a troca de informações”, prometeu o candidato.

Não há, porém, qualquer indício de que isso possa funcionar na prática, principalmente porque Piro agora é apenas um ex-agente aposentado. No máximo, ele poderá oferecer os serviços de sua empresa privada, a Piro Global Services, que presta consultoria em segurança.

Além da companhia, ele hoje se dedica aos treinos de artes marciais e às participações no podcast Jiu-Jitsu Dummies. Também atua como “palestrante motivacional”, de acordo com seu perfil no LinkedIn. Para o futuro, planeja escrever um livro sobre sua vida no FBI.

A experiência no Amazonas provou que pagar milhões por uma consultoria estrangeira é ineficaz.

O responsável por apresentar Capitão Wagner a seu garoto-propaganda foi o ex-lutador de MMA do UFC, Wilson Gouveia, um cearense que mora nos Estados Unidos e dá aula de jiu-jitsu brasileiro. É ele quem treina Piro na American Top Team, uma das academias de artes marciais mistas de elite do país.

No vídeo em que o Capitão Wagner se gaba por ter visitado o escritório do FBI em Miami e se encontrado pessoalmente com Piro, aparecem muitas imagens dessa academia e dos treinadores de jiu-jitsu. Ao lado do candidato no tour está sempre Gouveia, não o ex-agente do FBI.

No fim de agosto, a coligação do candidato do PT ao governo do Ceará, Elmano Freitas, ingressou com uma representação na Justiça Eleitoral acusando a campanha do Capitão Wagner de divulgar “desinformação e fake news” ao prometer implantar o “padrão FBI” na segurança pública do estado.

“A promessa de contratação de George Piro […] ocasionaria a prestação dos seus serviços de consultoria na área da segurança pública, e não a ideia de implantar as técnicas próprias do FBI no Ceará”, afirma trecho da ação.

Entrei em contato com o treinador Wilson Gouveia, mas ele me disse: “Após refletir um pouco eu decidi optar por não dar essa entrevista”. O Capitão Wagner também não quis responder a nenhuma das minhas perguntas.

De Rudy Giuliani a George Piro

A estratégia eleitoreira de recorrer a um americano para resolver os problemas de segurança pública de um estado brasileiro já foi usada em 2018 por Amazonino Mendes, quando era governador do Amazonas e se candidatou à reeleição. Ele pagou mais de R$ 5 milhões pela consultoria do advogado de Donald Trump, Rudolph Giuliani, conhecido como Rudy Giuliani, e passou a usá-lo como garoto-propaganda em sua campanha.

Giuliani ficou famoso como procurador antimáfia na década de 1980, virou celebridade nacional como um prefeito linha dura contra o crime em Nova York na década 1990 e se tornou internacionalmente conhecido exercendo o mesmo cargo depois dos ataques de 11 de setembro de 2001. Com esse currículo, abriu uma empresa de consultoria privada e ganhou muito dinheiro prestando serviços a várias cidades da América Latina.

Seu caso de mais sucesso teria sido o de Medellín, na Colômbia. Giuliani alega que sua consultoria foi determinante para reduzir os índices de criminalidade local, mas alguns estudiosos contestam essa informação. Juan Galvis, um geógrafo especializado em questões urbanas na América Latina, afirmou que as estatísticas de homicídios estavam diminuindo na maioria das grandes cidades colombianas há cerca de 20 anos e que nenhum estudo identificou uma causa principal. Políticas que vão do investimento em educação à reforma da polícia, para torná-la mais humana e menos corrupta, podem ser algumas das explicações.

Assim como Giuliani, Piro quer fazer negócios no Brasil. Imediatamente após se aposentar, atualizou o LinkedIn com o novo cargo de diretor executivo da Piro Global Services. A empresa foi aberta por ele quando já era chefe do escritório do FBI em Miami, em 2020, mas não constava no documento qual a proposta do empreendimento. Segundo os dados de registro, a corporação poderia atuar em “todo e qualquer negócio legal”. Se aproveitando do rótulo de ex-agente do FBI, Piro passou a usar a empresa para vender serviços de “consultoria baseada em mais de 30 anos de extensa experiência em liderança e aplicação da lei, inclusive durante grandes crises e eventos de alto nível”.

O ex-agente do FBI George Piro garante que ajudará Capitão Wagner a mudar a segurança pública no Ceará caso o deputado seja eleito.

O ex-agente do FBI George Piro garante que ajudará Capitão Wagner a mudar a segurança pública no Ceará caso o deputado seja eleito.

Foto: Joe Raedle/Getty ImagesGetty Images

A experiência no Amazonas já provou que pagar milhões em dinheiro público por uma consultoria estrangeira é ineficaz. Quatro anos após assinar o contrato com Rudy Giuliani, o estado continua vendo os índices de criminalidade crescerem. Entre 2021 e 2022, o número de mortes violentas aumentou 53,8%, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública. Já a facção criminosa Comando Vermelho se consolida, após o enfraquecimento da facção local Família do Norte.

No Ceará, embora o número de assassinatos entre 2018 e 2021 tenha reduzido quase 30%, segundo a edição especial do Anuário Brasileiro de Segurança Pública divulgado este ano, o estado é o quarto com maior índice de letalidade. Outro grande desafio a ser enfrentado pelo próximo governador é o domínio das facções criminosas, que arregimentam até crianças para seus exércitos, principalmente em Fortaleza – o Comando Vermelho rivaliza com o Primeiro Comando da Capital, aliado da facção local Guardiões do Estado.

São problemas graves, que estão relacionados com a falta de políticas sociais, de defesa e assistência aos jovens, principalmente nas periferias. Problemas que não se resolvem com consultorias estrangeiras ou palestras motivacionais – menos ainda com o uso do nome do FBI para fazer marketing eleitoral.