Jair Bolsonaro corre o risco de ser o primeiro presidente da República a perder a reeleição – e talvez já no primeiro turno. Falhou a estratégia de campanha definida pelo Centrão de apresentá-lo como um político de direita liberal.

Por mais que tentasse, e ele pouco tentou, Jair não consegue deixar de ser Bolsonaro: um autoritário de extrema direita, grosseiro, preconceituoso, que só consegue falar para aqueles que acreditam na sua prosa incoerente, restrita a variações sobre “lutar contra o comunismo”, defender a família (dele) e repetir o lema de raízes fascistas “Deus, pátria, família e liberdade”.

Em vez disso, foi o Centrão – o ajuntamento de deputados e senadores de direita que vivem de se aliar a qualquer que seja o governo do turno – quem aderiu ao bolsonarismo mais tosco. Basta ver os tuítes de Ciro Nogueira, ministro da Casa Civil e senador pelo PP do Piauí, ou as ameaças de seu colega Fábio Faria, das Comunicações, e do presidente da Câmara, Arthur Lira, também do PP, aos institutos de pesquisa. Com Bolsonaro atolado no segundo lugar, restou ao Centrão apelar para a truculência virtual – que alimenta o ódio e os assassinatos de eleitores de Lula.

No mundo real, o Intercept acompanhou Jair Bolsonaro em suas visitas a cidades diametralmente opostas no espectro político: a paranaense Londrina, onde ele recebeu 80% dos votos válidos no segundo turno de 2018, e Garanhuns, em Pernambuco, terra de seu principal adversário, Lula, favorito a vencer o pleito presidencial.

No Paraná, o presidente participou de um evento chinfrim, mesmo em um ambiente em que tudo jogava a favor de um grande sucesso. Já no agreste pernambucano, se revelou incapaz de oferecer soluções para os problemas diários da população.

Em 2018, graças ao atentado que o tirou dos debates, à decisão judicial que barrou Lula na corrida e ao ódio à política disseminado pela operação Lava Jato, Bolsonaro ganhou sem sequer precisar se mostrar em público. Em 2022, na prática a primeira eleição que ele disputa na vida em que precisava se comunicar para além de sua bolha de fanatizados, Bolsonaro falhou.

E, também por isso, deverá fracassar nas urnas.

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Bolsonaro falou a um público escasso em um dos rincões da extrema direita.

Foto: Rafael Moro Martins/The Intercept Brasil

Londrina: fracasso de público num templo bolsonarista

“Cheguem aqui para a frente, pessoal. O mito já está chegando”, pediu ao microfone o locutor de rodeios paranaense Adriano Borges. Faltavam cinco minutos para as 18h daquela sexta-feira, 16 de setembro, e ele tinha um problema diante de si. Havia muito mais lugares vagos do que ocupados na arena do Parque de Exposições Governador Ney Braga, em Londrina, onde Jair Bolsonaro chegaria para discursar.

As arquibancadas, construídas em formato de U ao redor de uma pista de areia, têm espaço para 25 mil pessoas. Mas, àquela altura, parecia haver menos de 5 mil, que se concentravam na parte mais larga das arquibancadas, em frente ao palco de onde Bolsonaro falaria.

A organização do evento coube ao deputado federal de primeiro mandato Filipe Barros, do PL. E o extremista de 31 anos montou um show quase exclusivo para uma fatia específica da extrema direita: a que votou e votará nele. Fora do universo bolsonarista, Barros é mais conhecido por participar da live em que o presidente vazou um inquérito sigiloso da Polícia Federal sobre uma invasão hacker à rede de informática do Tribunal Superior Eleitoral para desacreditar as urnas eletrônicas – que não funcionam conectadas à internet.

Em 2018, Bolsonaro venceu a eleição em Londrina com 80% dos votos válidos. Em 2022, nada indica que será diferente. Pelas ruas, é difícil olhar para um dos edifícios altos da cidade sem encontrar pelo menos uma bandeira do Brasil nas janelas. No coração do centro, muita gente ostentava  no peito o adesivo com o número de Bolsonaro. As camisas da seleção brasileira – uniforme número um do bolsonarismo – estavam por toda parte. Mesmo com esse ambiente favorável, o público foi minguado.

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O deputado federal Filipe Barros revoltou políticos da base de Bolsonaro ao organizar evento que barrou cabos eleitorais e material de campanha de aliados.

Foto: J. Batista/Câmara dos Deputados.

Exemplo acabado do radical de extrema direita que saiu consagrado das urnas em 2018, Filipe Barros se vende como “o 01 do Bolsonaro no Paraná” e fez de tudo para se colocar como protagonista do evento dedicado ao presidente. Reservou o maior espaço da cidade – o aluguel custa R$ 50 mil, segundo me informou a Sociedade Rural do Paraná, dona do Parque Ney Braga. Ao fundo do palco, mandou instalar um imenso banner com os rostos dele, de Bolsonaro e do candidato do presidente ao Senado no Paraná, o deputado federal extremista Paulo Eduardo Martins, do PL.

O sectarismo foi além da imagem. Em eventos como esse, habitualmente todos os candidatos do grupo político que têm base eleitoral na região são convidados e chamados a discursar. Em troca, levam consigo cabos eleitorais, assessores e eleitores, ajudando a engordar a plateia para a atração principal – neste caso, Bolsonaro. É, em resumo, um jogo em que todos ganham.

Não foi o que vimos em Londrina. Políticos de cidades próximas e que apoiam Bolsonaro reclamaram que seus cabos eleitorais e materiais de campanha foram impedidos de entrar pela segurança do evento.

O evento de Filipe Barros foi bem-sucedido em tornar públicas as divisões da extrema direita num de seus rincões.

Ao perceberem que Barros havia montado um palco em que só ele brilharia, políticos cujo espectro ideológico se espraia entre o Centrão e a extrema direita – e seus cabos eleitorais e apoiadores – decidiram boicotar o evento.

Luísa Canziani, do PSD, filha de um tradicional político londrinense, foi recepcionar o presidente no aeroporto – e só. A deputada preferiu fazer campanha noutro lugar a estar com o presidente na cidade onde nasceu. Pedro Lupion, do PP, já foi coordenador da bancada ruralista na Câmara e é filho de um dos fundadores da União Democrática Ruralista, a primeira organização do agronegócio do país, criada nos anos 1980. Ele esteve com Bolsonaro no compromisso anterior do presidente naquele dia, em Prudentópolis, também no Paraná, mas não foi a Londrina. O locutor de rodeios e sojicultor Marco Aurélio Ribeiro, o Marco Brasil, do PP, vive em Londrina e esteve no Parque Ney Braga. Mal foi notado, porém, mesmo usando o costumeiro chapelão de caubói.

Depois do evento, foi notável que o sectarismo de Barros havia causado uma crise na base bolsonarista no Paraná. O deputado estadual Ricardo Arruda, do PL – possivelmente o sujeito mais truculento que já conseguiu uma cadeira na Assembleia Legislativa –, gravou um vídeo atacando Barros. “Ele fez um evento para ele, colocou seguranças no parque e ninguém, nenhum outro candidato pode entrar com material de campanha”, reclamou. “Ele jogou contra os colegas e usou a imagem do presidente para [a candidatura d]ele”, prosseguiu, antes de exibir imagens de seguranças dizendo que “só pode entrar material se for de Filipe Barros”. Horas depois, Arruda deletou o vídeo, mas uma cópia foi me foi entregue por uma fonte.

Deputado federal e candidato à reeleição, Diego Garcia, do Republicanos, também esperneou nas redes sociais. “Uma palhaçada o que aconteceu hoje. Jogando material dos candidatos no lixo. Até [da] minha mãe tentaram tirar o adesivo do peito dela!”, bradou no Instagram antes de atacar Barros: “Coisa de moleque!”.

Irritado com as reclamações que ouviu sobre Filipe Barros mesmo antes de chegar a Londrina, segundo quem esteve próximo a ele, Bolsonaro discursou para a plateia que não conseguiu nem de perto encher a arena do Parque Ney Braga. Mesmo que estivesse falando para um eleitorado mais moderado como o que Canziani, por exemplo, teria atraído, dificilmente o presidente iria despertar simpatia naquela noite. Para começar, Barros, na tentativa de soar simpático ao eleitorado feminino, resolveu “chamar toda mulherada [do palco] aqui para frente” antes de passar o microfone a Bolsonaro.

O discurso presidencial de pouco mais de 15 minutos não trouxe novidades. Bolsonaro repetiu-se ao falar da queda no preço da gasolina, do aumento do Auxílio Brasil e do que chama de “ideologia de gênero” antes de vomitar uma das falas mais carregadas de ódio de sua campanha até agora: “O único problema que nós temos aqui é o PT, composto de pessoas que vieram dos rincões, dos grotões, daquele locais onde nada poderia sair dali a não ser esse tipo de gente”, disparou, num dos poucos momentos em que a plateia de convertidos não o aplaudiu com entusiasmo.

Ao final de sua fala, Bolsonaro não pediu votos para Filipe Barros, que chegou a se colocar ao lado do presidente como se para lembrá-lo – sem sucesso. Não chegou a ser um problema para o deputado, que já fizera seu show. Já Bolsonaro, que vê as eleições se aproximarem e suas intenções de voto imóveis, seguiria no dia seguinte a Garanhuns, em Pernambuco. A cidade em que Lula nasceu é o que ele chamou de um dos “grotões do PT”.

Barros, que ambiciona se tornar o deputado federal mais votado do Paraná, carregará no currículo a proeza de ter colocado Bolsonaro diante de uma arena semivazia numa cidade em que o presidente segue a ser o “mito”. E tornar públicas as divisões da extrema direita num de seus rincões. Ele se recusou a falar ao Intercept durante nossa permanência em Londrina. Por escrito, em vez de responder às perguntas sobre o evento que organizou, se limitou a dizer que elas “possuem viés completamente afastado do debate democrático”.

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Bolsonaristas com camisas pretas se recusaram a dizer o que significava a expressão “operações especiais” impressa em suas camisas, uma referência ao Bope do Rio.

Foto: Guilherme Mazieiro/The Intercept Brasil

Garanhuns: na terra de Lula, Bolsonaro só fala aos seus

Ruben Monteiro, de 43 anos, e a esposa Camila Peixoto, de 37, penduravam camisetas piratas da seleção, bandeiras do Brasil e chapéus verde e amarelos naquela manhã ensolarada de sábado em Garanhuns, agreste pernambucano. Com a mercadoria, que retirava do porta-malas de um Fiat Siena, o casal esperava ganhar algum dinheiro dos participantes da Marcha para Jesus, que naquele sábado, dia 18, teria um reforço de peso – o presidente e candidato à reeleição Jair Bolsonaro.

Ambos estavam vestidos à moda da clientela que esperavam atender. E não só por isso, no caso de Monteiro, homem de estatura mediana e magro, a barba bem aparada e um pouco além do queixo, cabelo arrepiado graças ao gel. Ele é fã do presidente, cujo rosto estampava a camiseta que vestia. Já Camila, uma mulher um pouco mais baixa que o marido, usando óculos escuros e com os cabelos pretos longos e soltos, vestia uma camiseta azul falsificada da seleção brasileira.

Garanhuns e a vizinha Caetés, a 20 quilômetros de distância, fazem parte do berço de Lula. O ex-presidente nasceu em 1945 no distrito de Garanhuns, Caetés. Mas a localidade foi emancipada em 1963 e passou a ser um município. Nas conversas sobre a eleição com os moradores dessas cidades, do padre ao bicheiro, ficou claro que o carisma do candidato pode ajudar a decidir o voto. Mas fundamental, mesmo, é o bolso: o preço dos alimentos, o custo de vida, a despensa cheia, o trabalho ou a falta dele. É o mundo real, a economia, o impacto das decisões do governo na vida do cidadão que contam.

Na passagem por cinco cidades do agreste, Bolsonaro não falou de nada disso. Alheio à realidade do interior pernambucano, o candidato à reeleição desfilou no evento religioso acenando sobre um trio elétrico por longos 55 minutos. Em seguida, nos pouco mais de quatro minutos de seu discurso, escolheu tratar de temas que alimentam sua base radical. Defendeu a “família brasileira” (que, para ele, é formada por homem e mulher, mas que na vida real muitas vezes é tocada por mães abandonadas por companheiros), falou contra as drogas e o que chama de “ideologia de gênero” e fez questão de dizer que seu governo “não é politicamente correto”.

Agradou a parte dos evangélicos que estavam ali, é certo. Mas esses, afinal, já são eleitores dele. Já quem gostaria de ouvir propostas para melhorar as contas de modo a ter mais comida na mesa, caso da maioria dos que vivem na região, ficou sem nada.

Garanhuns e Caetés têm, respectivamente, 141 mil e 29 mil habitantes. O salário médio mensal dos trabalhadores formais é de R$ 2.060, na primeira, e R$ 1.818, na segunda, segundo dados reunidos em 2020 e 2021 pelo Instituto Brasileiro de Estatística e Geografia, o IBGE.

Em 2018, o candidato de Lula e do PT, Fernando Haddad, teve 72,2% dos votos em Garanhuns e 91,7% em Caetés, ante 27,7% e 8,2%, respectivamente, de Bolsonaro. O ambulante Ruben Monteiro é uma exceção onde vive.

“Já fui assaltado duas vezes. Não voto em bandido”, justificou-se quando lhe perguntei sobre Lula. Pequeno comerciante, Ruben me contou ter uma “lojinha” em que vende roupas e quinquilharias a poucas quadras da praça em que estávamos. “Vendo por amor, nem é tanto pelo dinheiro”, disse mostrando a bandeira do Brasil que dobrava nas mãos.

A trupe de preto bolsonarista lembrava mais os personagens militares do programa Trapalhões do que seguranças.

“Se não fosse Bolsonaro, essa bandeira acho que teria ficado vermelha”. Enquanto ele se virava para o carro e ajeitava as demais mercadorias, a esposa fez cara de contrariada e se sentou na mureta que contorna o prédio da Gerência Regional de Educação Agreste Meridional, atrás da praça do Relógio das Flores.

Foi a deixa para que perguntássemos, primeiro a ele, como avaliavam a maneira que Bolsonaro trata as mulheres, maioria do eleitorado e grupo em que o candidato é pior avaliado, segundo as pesquisas de intenção de voto.

“Eu sou ignorante, se vier perguntar alguma coisa [incômoda] eu vou mandar tomar no cu, mandar ir se lascar. A reportagem pergunta muita besteira [para ele]. As perguntas que as mulheres fizeram para ele, me diga aí”, me disse com naturalidade.

Insisti na pergunta, e ele não titubeou: “[Bolsonaro] trata [bem]”. Aí, a esposa dele não conteve o sorriso irônico e balançou a cabeça, antes de dizer: “Eu acho que não”. O marido se apressou para interrompê-la: “O que foi que ele fez? Como é? Diga aí”, demandou. “Acho ele grosso com as mulheres, dei minha opinião”, rebateu ela, com firmeza.

Ruben relativizou dizendo que “o cara é militar. Militar é assim mesmo”.

“Sim, problema dele”, devolveu Camila com certo tom esnobe, criando um climão de alguns segundos de silêncio. Quando retomamos a entrevista, ela nos disse que ainda está pensando em quem irá votar. Ruben reforçou que está com Bolsonaro e não abre – se orgulhou ao contar da foto que tirou com o “mito” um ano atrás, em Caruaru, mas não tinha crédito no celular.

Nas horas seguintes daquele sábado, outros apaixonados por Bolsonaro lotaram a pequena praça. Eles aguardavam a chegada do presidente, que percorria em motociata o trecho entre Santa Cruz do Capibaribe, Toritama e Caruaru, cidades próximas a Garanhuns. Uma hora após a chegada do helicóptero com a comitiva, por volta das 15h, a marcha começou sob falas do líder da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, Silas Malafaia, e do filho e deputado federal Eduardo Bolsonaro. Ambos atiçavam os apoiadores gritando “Lula, ladrão”, levantando bola para o coro histérico completar “seu lugar é na prisão”.

Jair não entrou nessa e sequer tocou no nome de Lula. O discurso de reacionarismo radical o distanciaria ainda mais da cidade onde nasceu seu principal adversário político. O máximo que disse foi: “Quem roubou a nação no passado não merece mais voltar”, sem a clareza e verborragia que lhe são familiares.

Minoria na terra onde Lula nasceu, eleitores de Bolsonaro se juntaram para ver o presidente falar em Garanhuns.

Minoria na terra onde Lula nasceu, eleitores de Bolsonaro se juntaram para ver o presidente falar em Garanhuns.

Foto: Guilherme Mazieiro/The Intercept Brasil

Os Trapalhões bolsonaristas

O público que Bolsonaro reuniu em Garanhuns era tipicamente o seu. Uma senhora carregava uma bandeira do Brasil com a frase antidemocrática “Fora STF” colada na parte verde. Membros de um clube de tiro da cidade que havia convocado os manifestantes pelas redes sociais no dia anterior faziam selfies entre eles. Em sua maioria, quem vestia verde e amarelo eram fiéis que sabiam cantar de cor todos os louvores que tocavam – e também as músicas da campanha de Bolsonaro. Segundo a prefeitura de Garanhuns informou, o ato reuniu cerca de 10 mil pessoas. Teve espaço para um grupo que se assemelhava a seguranças desarmados que ajudava no isolamento do trio elétrico com cordas.

A maior parte das cerca de 50 pessoas que integravam esse pelotão era de homens calvos e barrigudos com óculos escuros estilo aviador ou esporte com a cara amarrada. Todos, rigorosamente, usavam camisetas pretas que traziam o símbolo da “faca na caveira” do Bope, Batalhão de Operações Especiais da Polícia Militar do Rio de Janeiro, do lado esquerdo do peito e nas costas, calça jeans e coturno.

A trupe de preto lembrava mais os personagens militares do programa Trapalhões do que seguranças de fato. Alguns deles estavam com fones de ouvido e walkie talkie; outros, sem o equipamento, deixavam um protetor auricular de cordinha pendurado sobre o pescoço para parecerem paramentados. O grupo chamava muito mais atenção do que os seguranças da Polícia Federal e do GSI à paisana, que têm porte atlético, e nessas situações usam trajes leves e fones discretos e transparentes por trás da orelha.

Tentando passar um ar de profissionalismo, os homens de preto se recusavam a dizer seus nomes, para quem trabalhavam e o que significa “operações especiais”. Um deles deixou escapar que os integrantes eram militares da polícia e do Exército que estavam na reserva ou eram reformados, e não deu mais informações.

Segundo disseram homens do GSI que cuidavam da segurança no entorno do presidente naquele dia, o grupo uniformizado não passava de apoiadores que queriam ajudar no isolamento ao redor do trio elétrico, sem qualquer vínculo com o esquema oficial de vigilância presidencial.

Bolsonaro passa pelos homens de preto que pareciam imitar seguranças no evento em Pernambuco.

Foto: Guilherme Mazieiro/The Intercept Brasil

Naquele final de semana em que Bolsonaro a visitou pedindo votos, Garanhuns se tornou o pólo cristão para cidades do agreste e do sertão. Um evento organizado pela prefeitura, o Viva Jesus, com ícones da música gospel, como padre Fábio de Melo, Rosa de Saron e Aline Barros, lotou os hotéis da cidade – além da já mencionada Marcha para Jesus, organizada por pastores do Fórum Evangélico Nacional de Ação Social e Política e pela Convenção das Assembleias de Deus de Pernambuco.

Foi desses grupos de pastores que partiu o convite para Bolsonaro. A Marcha para Jesus não acontecia há dois anos em razão da pandemia – e, apesar da coincidência de datas, não tinha relação com o festival da prefeitura. O público evangélico, mais do que o católico, é onde o candidato à reeleição tem vantagem em relação a Lula.

O pedido passou pelas mãos do diretor do Departamento de Articulação e Projetos Estratégicos do Ministério da Cidadania, Helânio Eduardo Cabral da Silva. Ele fez a ponte entre os pastores e o presidente. Edu Cabral, como é conhecido, é de Garanhuns e foi o responsável por botar o evento na rua. Ele falou conosco antes de o evento começar, mas não quis gravar entrevista.

O trio elétrico dos pastores serviu de palanque para o vereador bolsonarista da cidade que tenta vaga na Câmara Federal, Thiago Paes, do PL, e também para o candidato ao Senado de Bolsonaro, ex-ministro do Turismo, Gilson Machado e o candidato ao governo de Pernambuco e ex-prefeito de Jaboatão dos Guararapes, Anderson Ferreira.

Bolsonaro não pediu voto para nenhum deles. Ele estava ocupado dizendo que “o estado é laico, mas o presidente da República acredita em Deus, defende a família brasileira, defende a vida desde a sua concepção”.

Bem no tom da manifestação religiosa. Mas muito distante da realidade e dos problemas locais.