Erra quem diz que o eleitor do Nordeste é ignorante por votar em Lula. Mas também erra quem imagina que a região é iluminadamente progressista. Em proporções diferentes, já que a primeira ideia é xenofóbica e a outra é condescendente, ambas são superficiais. O nordestino é, antes de tudo, um eleitor racional.

A análise é de Monalisa Soares, professora de Ciências Sociais da Universidade Federal do Ceará e pesquisadora do Laboratório de Estudos sobre Política, Eleições e Mídia. Em entrevista logo após a divulgação dos resultados do primeiro turno – e em meio a declarações preconceituosas de Bolsonaro, dos seus eleitores e até da imprensa –, Soares falou sobre o que realmente motiva o voto dos nordestinos. “Esse é um eleitorado que sabe fazer ponderações, sabe compreender o processo da eleição e não é facilmente manipulado por ações pontuais”, apontou ao Intercept.

A memória vívida do processo de desenvolvimento econômico e social vivido pelo Nordeste nos governos de Lula, entre 2002 e 2010,  deixa pouco espaço para que Bolsonaro conquiste mais votos na região – principalmente depois de abandoná-la durante todo seu governo. “Bolsonaro continua reproduzindo uma noção estereotipada do Nordeste faminto. É verdade que a situação econômica ficou muito difícil na região no seu governo, mas não é com um auxílio pontual que o eleitor vai lhe entregar uma recondução ao cargo”.

A prova disso é a grande diferença entre os percentuais de votos dados a Lula e Bolsonaro na região. Enquanto o petista conquistou mais de 66% do eleitorado, o atual presidente teve apenas 27% dos votos. A preferência pelo PT aumentou em relação a 2018, quando Fernando Haddad teve só 15,8 pontos percentuais a mais que o atual presidente. Além de Lula ser mais conhecido e festejado na região, isso é efeito dos quatro anos de um governo bolsonarista desastroso. Para citar apenas um exemplo recente, o Programa Cisternas, que garante acesso à água no sertão, foi interrompido em setembro.

Nada disso, porém, prova que o nordestino é majoritariamente de esquerda. Basta olhar para a composição das assembleias legislativas e para os deputados federais eleitos. Soares me explicou que as especificidades locais devem ser analisadas quando se trata de eleições para o legislativo, pois “existem dinâmicas internas relacionadas à força dos partidos nos estados”.

No Ceará, o candidato mais votado para a Câmara dos Deputados foi o bolsonarista André Fernandes, do PL, que antes era deputado estadual. Já no Piauí, a eleição para deputados estaduais e federais tem sido um bem-sucedido negócio de famílias conhecidas na política. Em Alagoas, reduto do presidente da Câmara dos Deputados e bolsonarista Arthur Lira, do PP, Lula não ganhou na capital Maceió.

A seguir, os principais trechos da entrevista.

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Monalisa Soares, da Universidade Federal do Ceará: “O governo Bolsonaro ofereceu o Auxílio Brasil, mas nenhuma das outras políticas públicas dos governos do PT continuou ou se manteve articulada”.

Foto: Acervo Pessoal

Intercept – Como explicar o voto massivo do nordestino no PT, em eleições sucessivas, sem cair no maniqueísmo de que ou somos iluminados e progressistas ou somos uns ignorantes que vendem voto por causa de programas sociais?

Monalisa Soares – Esse estereótipo negativo tem a ver com a forma como o Nordeste foi muitas vezes representado na década de 1990, quando o atual União Brasil – que já foi DEM, e que antes era o PFL – tinha muita votação aqui e havia aquela ideia do coronelismo, de que essa população votava com a barriga.

Hoje, é importante entendermos que esse eleitorado é racional. Ele sabe fazer ponderações, compreender o processo da eleição, não é facilmente manipulado por ações pontuais. Foi nos governos do PT, especialmente nos governos do ex-presidente Lula, que o Nordeste viveu um processo de desenvolvimento econômico e social, tomando como base os índices de educação, saúde, emprego e renda. Há, ainda, a dimensão do trabalho como um elemento muito importante para a experiência que essa população vivenciou. Obviamente que o Nordeste não é homogêneo. Os estados têm suas especificidades e seus próprios desafios a enfrentar, mas, de um modo geral, houve reconhecimento por parte da população desse processo de desenvolvimento.

O que no projeto de governo do PT mais atrai os 66% dos nordestinos que votaram no Lula no primeiro turno?

Há um conjunto articulado de políticas públicas, diferente do Auxílio Brasil, que tem um efeito pontual, focalizado no momento eleitoral e em um ponto específico que é a renda. Por isso, seu potencial de gerar votos ficou bem abaixo do que era esperado pela campanha bolsonarista. As pessoas insistiam em justificar o voto do Nordeste pelo Bolsa Família, mas isso não explica. É o conjunto articulado de políticas públicas que os governos do PT desenvolveram, e que se voltaram para o Nordeste. Embora tenham um caráter nacional, as políticas atingem de forma diferenciada as regiões, por conta das suas próprias demandas e da história da população naquele território.

‘O nordestino compreende que Bolsonaro deixou os governos estaduais à própria sorte e agora quer aparecer com políticas pontuais’.

Tem outro elemento importante que é o pleno emprego, vivido naquele momento econômico do Brasil e que beneficiou a população do Nordeste. O eleitor tem essa memória viva. Hoje, a região é a que mais tem desemprego no país. Todas as outras estão abaixo dos dois dígitos, e o Nordeste é a única com cerca de 12%. O governo Bolsonaro ofereceu o Auxílio Brasil, mas nenhuma das outras políticas públicas continuou ou se manteve articulada.

Qual o real peso dos programas sociais do PT atualmente, considerando que o partido já saiu do poder há seis anos?

É importante lembrar que o modo do PT de construir a articulação de políticas públicas também se enraizou nas gestões estaduais, porque os estados do Nordeste passaram um período sendo governados por aliados ou petistas. Portanto, esse modelo de desenvolvimento político, social e econômico mantém viva na memória do eleitor a ideia de que o projeto que o PT desenvolveu a nível nacional se articula com lideranças locais.

No governo Bolsonaro, os gestores estaduais foram muito incisivos em mostrar os pontos problemáticos, com o rompimento do pacto federativo, principalmente em vários momentos da pandemia.

O maior acesso à universidade pública é relevante para a preferência pelo PT no Nordeste? 

O processo de interiorização das universidades no Nordeste tem muitos significados para quem é de um estado nordestino, que mora no interior, quer fazer faculdade e tem um recurso limitado de opções. Esse processo contribuiu para uma maior diversificação e para a possibilidade de acessar a universidade perto de casa ou em uma cidade próxima. Até então, as universidades estavam centralizadas nas capitais ou nos grandes centros urbanos.

Mas a política de interiorização das universidades esbarra no que vem depois da faculdade, porque essa geração cria expectativas e projeções, mas, às vezes, fica o gostinho amargo de não conseguir o emprego, principalmente devido a esse processo que a gente viveu no país nos últimos anos. Mesmo assim, ainda se mantém a felicidade de uma família por ter o primeiro filho entrando na universidade. E se a pessoa consegue fazer o percurso promissor depois da faculdade, a mobilidade social é efetiva.

Bolsonaro apostou no Auxílio Brasil para conquistar mais votos no Nordeste, mas na verdade aumentou a diferença percentual dos votos dele e do PT em 2018 e em 2022. Existe algo que ele possa fazer para conquistar esse eleitorado?

Uma estratégia que poderia lhe ser útil é pegar os campeões de votos no Nordeste mais alinhados a ele, e que ganharam as eleições, para mobilizar o eleitorado. Mas o governo Bolsonaro, ainda que assessorado diretamente por dois políticos nordestinos [Arthur Lira e o ministro da Casa Civil e senador licenciado Ciro Nogueira, também do PP], continua reproduzindo uma noção estereotipada do Nordeste faminto. É verdade que a situação econômica ficou muito difícil na região no seu governo, mas não é por conta de um auxílio pontual que o eleitor vai lhe entregar uma recondução ao cargo.

‘Tivemos menos renovação para a Câmara, e o perfil é de candidatos da direita. Os eleitos no Nordeste são exatamente isso’.

Por isso, reforço, esse é um eleitor racional, que se distingue de qualquer análise estereotipada. Ele é capaz de fazer uma avaliação do cenário, de compreender que o presidente abandonou o Nordeste, principalmente porque os estados da região tinham governadores que não eram seus aliados. Ele deixou os governos estaduais à própria sorte e agora quer aparecer fazendo políticas pontuais. É possível ele ampliar o percentual de votos, seja pelo engajamento maior dos seus aliados no Nordeste ou de uma abstenção maior do eleitor do Lula. Mas, do ponto de vista geral, é difícil.

É possível dizer que os nordestinos têm uma consciência política diferente dos demais brasileiros?

Não sei se a gente consegue ter uma resposta para situar esse eleitor do ponto de vista ideológico, no sentido de que ele é mais à esquerda no campo político. Eu sei que é um eleitor que faz bem essa leitura das suas trajetórias, da aplicação das políticas públicas e das conjunturas políticas. Ele faz essa conexão nacional, mas também está observando a sua dimensão local, rompendo com esse estereótipo que foi colocado.

É comum que parte da esquerda exalte o Nordeste como uma região progressista. Olhando para a composição das assembleias legislativas e para os deputados federais eleitos, dá para dizer que isso é verdade?

Pesquisas mostraram que cerca de 70% do eleitorado nacional não sabia em quem votaria para deputado cerca de uma semana antes da eleição. Por isso, havia tendência de alta taxa de reeleição. Esse ano, tivemos menos renovação para a Câmara de Deputados, e o perfil dos candidatos escolhidos é de direita. Os eleitos no Nordeste são exatamente isso. E houve a força do partido do Bolsonaro. Mas é importante destacar que nem todos os eleitos do PL são necessariamente o bolsonarista raiz. E alguns dos eleitos que são desse perfil já tinham mandatos antes. Não podemos esquecer também do peso que tem o orçamento secreto no caso dos candidatos do Centrão. Há, ainda, as especificidades locais. A Bahia, por exemplo, é o estado que tem mais representantes do PT. Existem dinâmicas internas relacionadas à força dos partidos nos estados.

A eleição para cargos de deputados estaduais e federais ocorre em uma dinâmica distinta. O processo eleitoral, inclusive de cobertura midiática, visibilidade na propaganda eleitoral gratuita e investimento dos partidos, é diferente em relação aos cargos para o Executivo. Os senadores também têm mais visibilidade, mesmo sendo do Legislativo. As campanhas proporcionais, portanto, dependem de como esses candidatos conseguem organizar a sua dinâmica, que favorece quem tem mais recursos e redes de articulação.

O nordestino não está em uma bolha, protegido do conservadorismo, que traz a reboque o machismo, o racismo, a homofobia e a intolerância religiosa, por exemplo. Como explicar as escolhas políticas progressistas para Presidência e Senado?

No Ceará, Elmano de Freitas, do PT, fez sua campanha dizendo que vai fazer um governo paritário, e Lula traz a memória de políticas para as mulheres. Mas é importante observar que isso não é a vitrine das propagandas eleitorais dos candidatos ao governo, ao Senado e à Presidência. Esses temas considerados progressistas foram sempre transversais e às vezes até marginais, dependendo da peça de campanha.

‘O eleitor do Ciro Gomes no Nordeste pode ser aquele que o compreende no campo do progressismo, e não como um político antipetista’.

Os temas mais específicos sobre o enfrentamento do machismo, da homofobia, por exemplo, ficaram concentrados nos candidatos a cargos proporcionais. Deputados e deputadas traziam esse debate de forma mais expressiva, mas eles não são maioria. Para deputada federal no Ceará, Luiziane Lins, do PT, foi a única mulher de esquerda eleita. Ela fez toda a sua campanha dizendo que era pelas mulheres, pelos negros e negras e pelos LGBTQIA+s. Para a Assembleia Legislativa, foi eleita a petista Larissa Gaspar, que é muito engajada nas pautas de defesa das mulheres. O Renato Roseno foi reconduzido ao mandato estadual pelo PSOL. Mas eles não são a grande maioria.

É grande a influência do Bolsonaro no meio evangélico. E a região Nordeste, embora tenha aumentado muito o número de igrejas, é a que tem menor proporção desses religiosos. Há alguma relação relevante entre as duas coisas?

Precisaria ter mais dados e ponderar mais. É complexo ser peremptório e dizer que Bolsonaro é menos votado no Nordeste porque há menos evangélicos proporcionalmente. Segundo as pesquisas de opinião, quando estratificado o voto evangélico, Lula geralmente perdia nos estados nordestinos. Essa associação do eleitor evangélico com Bolsonaro é algo bem construído, e o peso valorativo da religião contribui para a adesão desse eleitorado, mesmo no Nordeste, onde Lula é majoritário e tem o voto retrospectivo, por o eleitor ter boas memórias do seu governo.

Com uma votação tão expressiva no primeiro turno, ainda existe espaço para Lula crescer em alguns estados do Nordeste?

O primeiro desafio é manter o que ele já conseguiu, que foi muito alto. Mas a abstenção no segundo turno é maior e tende a atingir o eleitor do Lula. Outra coisa é avaliar o desempenho do Ciro Gomes. Ele é um político cuja carreira se desenvolveu principalmente no Ceará. Então, podemos analisar como que migra oesse voto do cirista para o Lula. O eleitor do Ciro no Nordeste pode ser aquele que o compreende nesse campo do progressismo, do debate sobre o desenvolvimento econômico, e não como um político antipetista. É bom a gente lembrar que o Ciro foi bem votado no Nordeste em 2018. Então, esse pode ser o caminho mais interessante de explorar.

Os governadores eleitos também podem dar alguma contribuição? De que tipo?

Eles têm essa força, porque acabaram de ser eleitos no primeiro turno, muitos até de forma inesperada, como o Elmano de Freitas no Ceará, que superou as expectativas de votos e venceu logo no primeiro turno. Os governadores recém-eleitos são muito importantes, principalmente na mobilização, para manter o clima de adesão ao Lula nos estados. E os senadores eleitos também, porque foram todos bem votados e são uma lideranças importantes, como o Flávio Dino, no Maranhão, e o Camilo Santana, uma liderança inconteste no Ceará. Aqui, talvez tenha ainda a entrada na campanha dos irmãos do Ciro Gomes, Ivo e Cid. Todos esses nomes agora poderão se dedicar exclusivamente à campanha do Lula, e isso é importante.