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Ilustração: Victor Vilela para o Intercept Brasil

Na cola do escritor Ambrose Bierce e o seu “Dicionário do Diabo” (1911), rabisco uma breve compilação de verbetes bizarros sobre esta eleição dominada por demos, belzebus, baphomets, deuses e outros bodes expiatórios. Antes que um exorcista charlatão corte o nosso barato, vamos ao cínico vocabulário reflexivo, como diria um discípulo do próprio enigmático santo Ambrose:

Agente do Satanás

O grifo é de dom Mauro Morelli, bispo emérito de Luz, Minas Gerais. Assim batizou o candidato à reeleição Jair Bolsonaro, a quem condena pelo tumulto e uso eleitoreiro das celebrações do 12 de outubro no santuário de Nossa Senhora Aparecida. “São Miguel, cuidado”, advertiu Morelli ao santo dos arcanjos e chefe do exército celestial. Aos fanáticos da legião do presidente, só resta se queixar ao bispo, como recomendam os católicos mais arcaicos. E fica uma reflexão eleitoral no meu latim de boteco: Lignum quod tortum haud unquam vidimus rectum. Traduzo: Pau que nasce torto não tem jeito, morre torto. Xô, cramulhão do pântano!

Antipetismo lulista

Sim, o fenômeno é real. Para evitar a futura ditadura bolsonarista e/ou reposicionar o nome na praça, celebridades, influenciadores, humoristas e grande elenco (ainda) alérgico ao PT fecharam com Lula. O desejo por “uma frente tão ampla até doer”, como prega o poeta pernambucano Marcelo Mário de Melo, se realizou. Doeria mais a dor canalha de um segundo mandato torturante do afilhado do coronel Brilhante Ustra. MMM manja dos efeitos colaterais da história: foi preso político durante 8 anos, 43 dias e 19 horas no Grande Recife. Vade retro, ferrabrás dos seiscentos!

Bolsonarismo raiz

Rótulo firmado por altas patentes das Forças Armadas – com ou sem pijamas da reserva – para fugir do B.O. por toda a patifaria do governo que ocupam, usufruem, dominam, manipulam, amém. Na maciota, os signatários do lema “braço forte, mão amiga” ainda impõem licitações de viagra, prótese peniana, lubrificantes e outros itens de sex shop. Para continuar no nosso mundo das crendices e símbolos, os generais do Planalto estão possuídos pelas danações e luxúrias dignas daqueles diabinhos do Tarot. Às cartas e ao carteado, patriotas.

Canibalismo

O mal é o que sai da boca do homem, como diz o evangelho de São Mateus – bem antes de virar um sucesso musical de Pepeu Gomes e Baby Consuelo. O mal é o que pula, neste episódio antropofágico, de uma entrevista do próprio capitão Bolsonaro ao jornal The New York Times, em 2016. Não se trata de acusação de adversários ou teoria conspiratória. No vídeo, o então deputado federal afirmou que só não comeu carne humana de um indígena Surucucu porque ninguém quis ir com ele. “Eu comeria sem problema nenhum”, contou. E como diria o bispo dom Pero Fernandes Sardinha, em seu refinado latim de missa, tollitur quaestio – não se fala mais nisso.

Deus

Para efeitos eleitoreiros, vale o escrito no Êxodo, capítulo 20, versículo 7: “Não tomarás em vão o nome do Senhor, o teu Deus, pois o Senhor não deixará impune quem tomar o seu nome em vão”. Na lei dos homens e da vida real, recomenda-se aplicar, meu consagrado, o artigo 5º, inciso VI, VII e VIII da Constituição – vale o estado laico, com respeito total a qualquer culto, crença ou manifesto religioso. Amém.

Esquerda Íbis

Expressão criada pelo cronista de costumes baiano Franciel Cruz, autor do pecaminoso livro neo-barroco-místico-contemporâneo “Ingresia: Ingresia, Chibanças e Seiscentos Demônhos”. Diz-se naqueles momentos em que os canhotos ideológicos se encontram desanimados com as pesquisas eleitorais. Substitui, nos tristes trópicos, o que o filósofo Walter Benjamin definiu como esquerda melancólica. O Íbis, considerado o pior time do mundo, se orgulha de um histórico de 84 anos de sofrimento. Miserere Nobis.

Extrema direita

Característica do bolsonarismo ignorada pela grande mídia ou imprensa hereditária brasileira. Apesar dos pesares e Damares. Teto de gastos acima de tudo, piso gelado da miséria debaixo de todos, como defendem os editoriais dos matutinos centenários.

Fanatismo

Substantivo masculino. Ver todos os verbetes anteriores.

Maçonaria

Essa sociedade com origem medieval surge no debate das eleições em vídeos protagonizados por Jair Messias, doravante conhecido como Maçonaro nas redes sociais. Daí emerge também a figura de Baphomet. Dessa criatura simbólica com cabeça de caprino, meus conhecimentos são tão rasos quanto um clique na Wikipedia. Dizem que é coisa dos Cavaleiros Templários. De bode chifrudo, só conheço e aprecio a buchada, fina iguaria muito cultuada em campanhas eleitorais do Nordeste.

Padre Kelmon

Há uma dúvida se o conto do vigário tem origem em Ouro Preto, no século 18, ou no Conselho do Ribatejo, em Portugal. Uma certeza religiosa, porém, veio à tona no debate presidencial da TV Globo em primeiro turno: o conto do vigário foi atualizado com sucesso pela aliança Roberto Jefferson, do PTB, e Carluxo no Brasil de 2022.

Voto do cajado

O eleitor segue o seu guia espiritual como o rebanho de ovelhas acompanha um pastor nas montanhas. Não é uma invenção  das igrejas neo-pentecostais. A novidade é que virou quase uma “obrigação cristã” no Brasil da idolatria a Bolsonaro.

Voto de cabresto

Essa prática do ciclo do coronelismo rural retornou em um cenário moderno, como nas empresas do “agro é pop”, por exemplo. Exige-se a mesma fidelidade religiosa do cajado, sob pena de demissão dos serviçais. A fogueira inquisitorial é a mesma.

 

Só faltou até o momento, diante do festival de teorias místicas e bizarras, a maior de todas as lendas urbanas brasileiras: as mensagens satânicas dos vinis de Xuxa girando ao contrário na vitrola. Não duvido que toque no horário eleitoral gratuito até o apocalipse deste interminável segundo turno.