Lula Holds Campaign Rally in Florianopolis

Ilustração: Rodrigo Bento/The Intercept Brasil; Getty Images

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Metade do Brasil encara uma crise de ansiedade diante do relógio que resolveu andar mais devagar, à medida que as pesquisas eleitorais mostram avanços lentos e contínuos de Jair Bolsonaro. O presidente teve crescimento nas capitais, alcançando um empate técnico com o ex-presidente Lula, segundo a pesquisa Ipec desta segunda-feira, dia 17. Também no estado de Minas Gerais — estratégico para a vitória de qualquer um dos candidatos —, Bolsonaro encostou no petista, de acordo com a pesquisa Atlas Intel do último final de semana.

O pânico, porém, não se justifica, avaliou o cientista político Rudá Ricci, pelo simples fato de que o tempo ainda está a favor de Lula. “Quem está atrás nas pesquisas é o Bolsonaro. E, para ganhar, ele precisaria avançar três pontos percentuais em votos essa semana e outros três pontos na outra”, projetou Ricci. Seriam de 6 a 6,5 milhões de votos a mais até o dia 30 de outubro.

O Ipec apontou uma vantagem de sete pontos percentuais para Lula, com 50% a 43%, cenário ainda favorável ao petista. O levantamento da semana passada, porém, mostrava 9 pontos de diferença, o que faz tremer a alma dos democratas. Também a pesquisa Quaest desta quarta-feira, dia 19, seguiu essa tendência, de redução da diferença, ainda que favorável a Lula. A tensão se intensifica quando se sabe que o governo joga abaixo da cintura para ganhar a eleição. Vale tudo para mobilizar a base ou fazer barulho nas redes sociais.

O mais recente episódio aconteceu na campanha de Tarcísio de Freitas, em São Paulo, durante uma visita à comunidade de Paraisópolis na segunda-feira. Disparos de armas criaram tumulto no local, o que obrigou integrantes da equipe do candidato a governador e de movimentos sociais da região a se abaixarem durante o tiroteio. Tarcísio saiu de uma van blindada do local. Redes bolsonaristas e a Jovem Pan, canal alinhado com Bolsonaro, alardearam rapidamente ter se tratado de um atentado político, o que a Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo e o próprio Tarcísio viriam a descartar. O caso segue em investigação. Mas o horário eleitoral de Bolsonaro explorou o tiroteio, atrelando-o à facada em Juiz de Fora em setembro de 2018.

Lula tem menos margem de manobra que Bolsonaro para se fazer presente. O deputado André Janones bem que tentou usar a estratégia dos adversários de “causar” nas redes sociais. Mas as pesquisas mostraram que esse caminho não traz nenhum voto a mais. Só os debates na TV deste segundo turno têm se mostrado uma arena privilegiada para firmar a identidade dos presidenciáveis. No encontro de domingo, transmitido pela Band e pela TV Cultura, o presidente e o petista tiveram um embate importante, visto como positivo para Lula por muitos analistas políticos.

A urgência do momento, porém, frustra quem sente que o ex-presidente ainda não encontrou o caminho do gol para estancar o eventual avanço do adversário e assegurar uma vitória incontestável. No cara a cara dos presidenciáveis, ficou claro que Lula ostenta uma verve que ficou envelhecida para um grupo importante de eleitores. Enquanto Bolsonaro vende uma aspiração, empacotada como um produto de prateleira, de liberdade de expressão, ordem e progresso, o petista fala como um sindicalista para um trabalhador que está hoje no Uber.

Não basta chamar Bolsonaro de mentiroso, é preciso dizer que é pecado acusar meninas refugiadas de prostitutas, usar o nome de Deus para vender armas.

Lula ainda não saiu da retranca, olhando pelo retrovisor do seu governo. O candidato tem sido pressionado a expor propostas para o futuro em vez de deitar nos louros do passado. Não são só planos herméticos, mas sonhos que ressoem na classe média, num país muito mais segmentado que em 2003. É mais do que falar em picanha com cerveja num jogo que precisa ser vencido por pontos, e depende dos indecisos – 2% do eleitorado. De onde vem a renda para que a classe média compre a famigerada picanha? A pergunta, inclusive, foi feita pelo apresentador do podcast Flow nesta terça, na entrevista que foi ouvida por mais de 1 milhão de pessoas.

Não há margem para erros. Hoje, os votos do petista já estão assegurados no público de baixa renda que perdeu a dignidade de outrora. No terreno do adversário, há votos sedimentados no eleitorado vulnerável ao discurso religioso. “Bolsonaro é de Deus, ele está ao lado dos evangélicos. Esse Lula é do diabo!”, ouviu-se dentro de um trem que seguia para o extremo oeste de São Paulo. Para outros, Bolsonaro é o verdadeiro messias, que tem a missão de acabar com todos os espíritos ruins que atacam o Brasil hoje, especialmente Lula.

Extremos à parte, é preciso capitalizar o bom senso, expor Bolsonaro como ele é: o presidente que achincalha as mulheres, que fala “pintou um clima” com adolescentes de 14 anos maquiadas. Que se indigna com a fome da Venezuela, mas não cuida dos famintos do seu país. Ofende nordestinos e pessoas que vivem em favela. O presidente até tenta manter a estirpe do homem de família e religioso, mas se enrosca tão facilmente em seu personagem que é difícil acreditar que Lula não explore melhor essas falhas. Não basta chamar Bolsonaro de mentiroso, é preciso dizer que é pecado acusar meninas refugiadas de serem prostitutas, usar o nome de Deus em vão para vender armas.

Lula precisa cair em 2022, sair de 2018, como se estivesse em regozijo por uma revanche que a vida lhe deu ao voltar a ser candidato a presidente. Tem à sua frente um verdadeiro personagem de Nelson Rodrigues e a chance de expor essa hipocrisia brasileira no próximo debate. Faz gol, Lula! Falta pouco para acabar.