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Ilustração: Mila Benassi para o Intercept Brasil

“Se só de pensar em matar já matou, prefiro ouvir o pastor: ‘Filho meu, não inveje o homem violento e nem siga nenhum dos seus caminhos'”. A música dos Racionais MC’s, lançada há quase 20 anos, é um sucesso cada dia mais atual – tristemente atual.

Morte, violência, cristãos e armas nunca fizeram tanto sentido numa mesma frase. Mas agora, cristãos estão do mesmo lado a que costumavam se opor: o da violência, da morte e das armas. Juntos e de olho na política. “A César o que é de César” foi ficando no passado.

O jovem membro da Igreja Batista Lagoinha que fez uma postagem abraçado a um fuzil da Taurus no Natal de 2020 – para a honra e glória do Senhor Jesus – se tornou este mês um dos deputados federais mais votados da história do país. A mesma igreja, em Belo Horizonte, nos deixou Damares eleita senadora como legado e tem pastores influencers nas redes dizendo que Jesus andaria armado se precisasse. Aquele Jesus, também chamado de Príncipe da Paz, que repreendeu Pedro por puxar uma espada para defendê-lo de um soldado, também parece ter sido deixado para trás.

Religião, armas e política são a mistura da vez, não por acaso. Isso é parte do que Ronilso Pacheco, teólogo especialista em religião e sociedade, entende por nacionalismo cristão, um fenômeno político-religioso dos EUA que emergiu como ideologia da extrema direita global, descolada do fascismo tradicional, e que está também presente no Brasil como movimento organizado.

Após o primeiro turno, ouvi mais uma vez o episódio “Por que votam no mito?”, do podcast Rádio Escafandro, que analisou ferramentas da psicologia social e da neurociência para tentar explicar o raciocínio de bolsonaristas irredutíveis, aqueles que justificam qualquer erro do “mito”. Não importam a compra de 51 imóveis em dinheiro vivo ou o deboche de pessoas em sofrimento, morrendo sem ar. Elas estão fechadas com o mi(n)to.

O podcast entrevistou o cientista social Davi Carvalho. Ele avaliou que, conforme o tempo passa, pessoas com inclinações conservadoras podem se sentir mais frágeis e começar a se preocupar mais, a ter mais medo do que representa insegurança. Por isso, elas tendem a apoiar, de forma mais incisiva, medidas de repressão contra o que represente risco – o que vai da aceitação de imigrantes ao casamento entre pessoas do mesmo sexo. E isso não tem a ver com fazer sentido ou não. Ser real ou não. Ser verdade ou não. É sobre medo, um medo intangível e, muitas vezes, inexplicável.

O medo tem a ver com o diferente, o desconhecido e o imprevisível, visto como ameaça, representando uma diferença insuperável. Ele torna impossível ter empatia com pessoas que não são do seu grupo, que não são como você. Aqui temos dois lados: o daqueles que sabem como essa armadilha cientificamente testada funciona e o dos que estão presos nela, usados por quem entende muito bem o que está fazendo e lucra com isso.

Após o resultado do primeiro turno entre Jair Bolsonaro e Lula, o pastor Ludgero Bonilha convocou evangélicos a se armarem. “Prepare-se! Compre uma arma! Defenda-se. É cada um por si!”, disse ele, que desde 1986 ocupa cargos na 1ª Igreja Presbiteriana de Belo Horizonte, em postagem no Twitter – rapidamente apagada. O medo do comunismo e da esquerda estão refletidos em vários posts no perfil de Ludgero.

Quase 40 candidatos apoiados pelo ProArmas foram eleitos ou disputam o segundo turno país afora.

O que vemos hoje é um avanço rápido do que vem sendo gestado no meio evangélico há algum tempo. Há quase 10 anos, o então deputado federal Peninha usou a Bíblia para embasar um projeto de lei que anularia o Estatuto do Desarmamento. O membro ativo da bancada da bala usou o versículo 22 de Êxodo 2 ao lado da frase “bandido bom é bandido morto”, jargão criado por um antigo miliciano carioca. Não faz sentido, mas para ele e seu público alvo, faz.

Uma década depois, quase 40 candidatos apoiados pelo ProArmas foram eleitos ou disputam o segundo turno país afora. Marcos Pollon, presidente da organização e amigo íntimo da dinastia Bolsonaro, foi eleito deputado federal pelo Mato Grosso do Sul. Ele se intitula “pró-Deus, pró-vida e pró-armas” e, agora, poderá fazer na Câmara dos Deputados o que já fazia nos bastidores: conduzir a pauta armamentista.

Essas movimentações, relativamente recentes, não acontecem apenas no Brasil e não são despretensiosas ou fruto do acaso. São parte dos planos de ultraconservadores e reacionários, que têm um claro projeto de poder. O que aconteceu nos EUA nos anos Trump pode ser visto no Brasil com algum atraso. Marketing, narrativas e slogans foram importados e começaram a fazer sucesso e dar resultados por aqui – inclusive nas urnas.

Um levantamento feito pela Agência Pública mostrou que, nos últimos cinco anos, Eduardo Bolsonaro, visto como sucessor do pai, participou de mais de 70 encontros e eventos com representantes e lideranças da ala política conservadora dos EUA. Além de membros da família Trump, houve reuniões com o estrategista do Partido Republicano e presidente da União Conservadora Americana, que advoga pela “liberdade de expressão”, com estrategistas de comunicação, com pastores conservadores e supremacistas. Os filhos de Trump e Bolsonaro se conheceram pessoalmente numa feira de armas e lá estreitaram laços, a ponto de uma delegação trumpista ter estado no Brasil em 7 de setembro de 2021.

Jair Bolsonaro  - Presidente e cadidato à reeleição Jair Bolsonaro(PL) e o pastor Marcio Valadão, discursam para seus apoiadores no evento Mulheres pelo Brasil, na cidade de Contagem, nesta sexta-feira 23.

Jair Bolsonaro posa com Marcio Roberto Vieira Valadão, pastor presidente da Igreja Batista Lagoinha.

Foto: Gledston Tavares/DiaEsportivo/Folhapress

Há saída?

Os laços entre a extrema direita norte-americana e a brasileira seguem fortes. Os apelos religiosos e a exploração do medo e das armas como estratégias políticas são o novo normal com o qual vamos lidar.

Em conversa com o Ronilso, perguntei se há saídas, e ele foi um pouco reticente, uma vez que, mesmo após a saída de Trump da presidência, é possível ver que ainda há seguidores do movimento conspiracionista QAnon nas ruas. Eles esperam o reaparecimento de John Kennedy Jr., morto em 1999, para anunciar o retorno de Donald Trump à presidência dos EUA. Mais uma vez, a questão não tem a ver com fazer sentido.

Segundo o jornalista Mike Wendling, que pesquisa a extrema direita americana, o QAnon é uma “teoria ampla e completamente infundada que diz que o presidente Trump está travando uma guerra secreta contra os pedófilos adoradores de Satanás do alto escalão do governo, do mundo empresarial e da imprensa”. A teoria conspiratória foi classificada pelo FBI como uma ameaça de terrorismo doméstico. Algumas das pessoas que invadiram o Congresso norte-americano depois da derrota eleitoral de Trump são adeptas dessa teoria delirante, mas muito eficaz para quem a usa politicamente.

Para que essas conspirações funcionem, para que os fiéis – outrora preocupados com o amor de Cristo e em ajudar ao próximo – preguem cada um por si com armas nas mãos e elejam pessoas que ontem condenariam, é preciso dominar teorias de comunicação e contar com a benevolência de grandes empresas, como o YouTube e o Facebook, que lucram com o avanço das teorias conspiratórias, mentirosas e violentas. O documentário “Dilema nas Redes” falou muito sobre os efeitos nefastos das redes sociais e os custos políticos e sociais da massificação dessas mentiras.

Não chega a ser novidade que o lucro vem acima da vida para muita gente. É que estamos assistindo isso por dentro, em uma velocidade avassaladora.

A humanidade é má e até Jesus chorou.