Por volta de 17h de sexta-feira, 7 de outubro, o bispo evangélico Hermes Fernandes dirigia seu carro ao lado da mulher pela rua Barão do Bom Retiro, em Engenho Novo, bairro de classe média da zona norte do Rio, quando foi bruscamente fechado por um outro veículo, um sedan prata que estacionou à sua frente. Fernandes ficou paralisado. O outro motorista só foi embora, em alta velocidade, quando os demais carros presos no trânsito começaram a buzinar.

O bispo estava a 500 metros da sede de sua igreja. “Foi preocupante, porque eu já havia visto uma vez uma cena muito séria naquele mesmo ponto. Após o culto, já à noite, vi três homens armados renderem um pai e seus dois filhos, retirando-os do carro violentamente e deixando-os na avenida. Nesse dia, um dos homens ficou com a arma apontada para os três e um outro, com a arma apontada na minha direção. Eu também estava com minhas filhas no carro”, relatou o bispo ao Intercept.

A igreja de Fernandes já havia sido invadida durante a madrugada de 22 de setembro. Um aparelho de ar condicionado foi roubado. Vizinhos testemunharam o crime e alertaram Fernandes. O bispo chamou a polícia, mas o boletim de ocorrência não foi registrado. “Eu estranhei, porque os policiais chegaram assustados, perguntando como estava o clima e olhando para todos os lados para ver se viam alguém. Só disseram que eu devia colocar uma cerca elétrica na igreja e que não dava para fazer nada. Não deram muita importância. Eu fiquei abismado”, contou Fernandes.

“Anteriormente, já haviam feito coisa parecida, ao rasgarem a lona do letreiro da igreja. O templo também já havia sido assaltado várias vezes. E uma pessoa já chegou, há alguns anos, a apontar uma arma para mim dentro da igreja e dizer: ‘Vou matar esse pastorzinho’. Uma fiel, felizmente, teve a coragem de se atracar ao homem e impedir o meu assassinato”, revelou o bispo.

Nascido em São Gonçalo, na região metropolitana do Rio, Fernandes tem 52 anos, é pastor, doutor em Ciência da Religião, psicólogo, conferencista e escritor. É o líder da Comunidade Reina, a Rede Internacional de Amigos e Amigas, que mantém igrejas nas zonas norte e oeste do Rio e na Baixada Fluminense, além de São Paulo e Minas Gerais. Para ele, os dois episódios recentes que relatou foram “avisos” para intimidá-lo.

O bispo vem recebendo ameaças e ataques em suas redes sociais há meses por se manifestar em público como um opositor do atual presidente da República, Jair Bolsonaro. Também é um duro crítico de colegas evangélicos conservadores, como os pastores Silas Malafaia, da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, Marco Feliciano, deputado federal pelo PL de São Paulo e membro da Assembleia de Deus Catedral do Avivamento, e o bispo Edir Macedo, líder da Igreja Universal do Reino de Deus.

Fernandes já deixou o país uma vez, em 2008, após ser atacado por Silas Malafaia. Ele era chamado de ‘pastor de maconheiro’.

Fernandes já deixou o país uma vez, em 2008, após ser atacado por Silas Malafaia. Ele era chamado de ‘pastor de maconheiro’.

Foto: Ami Chavy para o Intercept Brasil

“Tenho recebido mensagens intimidadoras, ameaças veladas. No início, nem dei muita atenção. Nem guardei as mensagens. Só nos últimos dias, passei a armazená-las. Mas, por conta disso, a gente começa a ficar preocupado. Recebo mensagens do tipo: ‘O que é teu está guardado’. Coisas desse nível”, disse Fernandes. “Hoje, quando vou pregar fora, evito anunciar aonde vou. Fui a um lixão próximo da minha igreja, por exemplo, onde fazemos um trabalho com a população carente, mas divulguei um horário e fui antes, já para evitar problemas”.

Fernandes já foi chamado de “pastor de maconheiro” por ter orado por Fernando Gabeira, então candidato a prefeito do Rio pelo PV em 2008. “Isso ocasionou um problema muito sério para mim e perdi muitas congregações [igrejas]. Me custou muito caro. O Silas Malafaia foi para a TV me detonar. Um monte de gente me detonou. Fui até ameaçado de morte. Um cara chegou para mim e disse: ‘Você tem amor à sua vida? Tem amor aos seus filhos? Então, não se mete com isso, não’. Isso era finalzinho de 2008. Peguei meus filhos e fui para os Estados Unidos, passei dois anos e meio morando lá até que o clima estivesse favorável para o meu retorno”, afirmou Fernandes.

Agora, como as críticas e ataques aumentaram por conta da polarização política, o bispo decidiu deixar o país novamente – e já nos próximos dias. “Não vejo condições de continuar aqui até o dia da eleição. Viajarei antes e quero estar muito longe quando sair o resultado. Nem posso dizer o que vou fazer e para onde vou. Quando a poeira baixar, eu volto”, anunciou.

O ataque após apoio

O bispo disse que os ataques a ele se avolumaram devido à sua atuação nas redes sociais. Ele tem 150 mil seguidores em várias plataformas. Se opõe ferrenhamente ao bolsonarismo, mas defende que o púlpito nunca deve ser utilizado para propaganda política. “Não vou pedir votos dentro do perímetro da igreja”, afirmou.

No primeiro turno, Fernandes não declarou publicamente a sua opção eleitoral. No segundo, avaliou que não tinha como não se posicionar a respeito da eleição à presidência da República e optou por Luiz Inácio Lula da Silva, o candidato a presidente do PT. Na última quarta-feira, dia 19, ele participou de um encontro de evangélicos em apoio ao petista em São Paulo.

Outra razão para os ataques e ameaças que passou a sofrer, segundo Fernandes, teria sido sua recusa em apoiar candidatos evangélicos conservadores no Rio, já nas eleições municipais em 2016. Ele disse que uma pessoa ligada a um desses candidatos, durante a gestão do prefeito Marcelo Crivella, bispo da Universal e sobrinho de Edir Macedo, contatou a Guarda Municipal para multar fiéis de sua igreja que estacionavam os carros na rua, em frente ao templo. “Os guardas chegaram e passaram a multar todo o mundo”, contou.

Fernandes é filho e neto de pastores. Seu pai, Cecílio Carvalho Fernandes, já falecido, era um conhecido missionário evangélico. Era o líder da Casa da Benção, que recebeu o então pregador Edir Macedo, antes de ele fundar, ao lado de outros fiéis vindos da Igreja Nova Vida, a Cruzada do Caminho Eterno e, depois, a Universal do Reino de Deus, em 1977, no bairro da Abolição, no subúrbio do Rio.

Cecílio Fernandes, à época, se recusou a consagrar Macedo a pastor, concordando com a avaliação de outros colegas religiosos de que ele não teria o “chamado de Deus” para se tornar um bom religioso. “Meu pai fazia um trabalho com ênfase na cura e libertação. O Macedo e outros pastores eram egressos da Igreja Nova Vida, que não enfatizava isso. Eles passaram um tempo como obreiros do meu pai. Um dia, meu pai flagrou uma cena que o desagradou. O Macedo estava tentando exorcizar uma pessoa e não conseguia. Aí, meu pai disse que isso não podia acontecer, que ele estava envergonhando o Evangelho”, explicou.

Fernandes é autor de mais de 60 livros, entre eles, “Intolerância Zero”, sobre ódio e intolerância; “Homossexualidade: da sombra da lei à luz da graça” – em que defende que essa orientação sexual não é pecado e não levará ninguém ao inferno, ao contrário do que pregam evangélicos conservadores. O último, “Saudade”, aborda a pandemia de covid-19 no país. Todos tiveram edição independente.

O bispo diz que Bolsonaro ameaça a vida e a democracia. Após a eleição do presidente, em 2018, ele afirmou que “o sangue de toda uma geração poderá cair em nossas mãos”.

Um dos livros do bispo, lançado de forma independente.

Um dos livros do bispo, lançado de forma independente.

Foto: Ami Chavy para o Intercept Brasil

A debandada

Fernandes se tornou amigo da apresentadora Xuxa depois de defendê-la de ataques do pastor Malafaia, por causa de críticas dela a Bolsonaro. “Fizeram uma campanha sórdida contra ela. Começaram a jogar na cara dela um filme que ela fez e a chamaram de pedófila. Passaram a vasculhar a vida da Xuxa a fim de destruí-la. Aí, eu fiz um post nas redes sociais para defendê-la. Ela curtiu e compartilhou. Ganhei então milhares de seguidores dela. Ela entrou em contato comigo e passamos a conversar muito. Passou a me pedir explicações sobre a Bíblia”, narrou.

Xuxa e seu marido, o cantor Junno Andrade, divulgaram vídeos parabenizando Fernandes, em maio, pelos seus 35 anos de atuação como pastor evangélico. A filha da apresentadora, Sasha, é também evangélica, fiel da Igreja Bola de Neve. Ela é casada com o cantor gospel João Figueiredo. “A Xuxa se preocupa com a filha, porque ela sabe que esse meio é muito conservador e muito bolsonarista”, afirmou Fernandes.

Há dois meses, o bispo e a apresentadora fizeram uma live juntos. Os dois falaram sobre homossexualidade, expondo a visão divergente da maioria dos evangélicos conservadores, e a repercussão foi enorme. As críticas, ferozes. Fernandes, então, foi chamado de “pastor do diabo” e “falso profeta”.

Xuxa também compartilhou nas redes, no dia 12, um abaixo-assinado pedindo a cassação do mandato da senadora eleita Damares Alves. O documento pedia punição à líder evangélica bolsonarista por causa de sua falsa denúncia tornada pública sobre supostas crianças abusadas sexualmente na Ilha de Marajó, no Pará. Xuxa também criticou o presidente Bolsonaro, na última quarta-feira, 19, por afirmar que “pintou um clima” ao conhecer meninas venezuelanas de 14 e 15 anos “bonitinhas”, integrantes de um projeto social em Brasília. Críticas e ataques a Xuxa e Fernandes, então, se ampliaram novamente nas redes.

O bispo admitiu que hoje perde fiéis por suas posições políticas. “Depois de 2018, divulguei um vídeo em que falei que a Igreja estava criando um monstro. O vídeo viralizou. De lá para cá, minha Igreja teve uma sangria. Chegamos a ter 130 congregações e 10 mil membros. Hoje, eu tenho menos de 20 igrejas e mil e poucos membros”, constatou.

Segundo o bispo, vários de seus colegas “progressistas”, como os pastores Ed René Kivitz, da Igreja Batista da Água Branca, em São Paulo, e Ricardo Gondin, da Igreja Betesda, sediada em São Paulo, também estão vendo fiéis de suas denominações se afastarem devido às críticas deles ao bolsonarismo. “O Ricardo Gondim perdeu quase toda a membresia. O Ed René também perdeu muita gente, apesar de ele ser muito bom e ter muito traquejo e jogo de cintura. Mas os bolsonaristas também estão perdendo muita gente, pois tem fiel reclamando que vai ao culto e só ouve o pastor falar do Bolsonaro”, disse Fernandes.

Além de Hermes Fernandes, outros religiosos evangélicos tiveram de sair do país devido a ameaças. Depois de tornar pública, em 2016, a denúncia de um esquema de transferência para o Brasil e a Europa de dinheiro arrecadado em dízimos e ofertas pela Igreja Universal em Angola e Moçambique, o ex-bispo da instituição Alfredo Paulo abandonou o Brasil para viver em Portugal. Paulo morava no bairro de Campo Grande, na zona oeste do Rio de Janeiro, onde criou uma nova denominação religiosa, a Igreja Cristã do Caminho. Mas afirmou ter interrompido seu projeto, devido a ameaças.

O ex-bispo passou a publicar denúncias contra a Universal nas redes sociais. Foi processado pela igreja e condenado. Em agosto de 2021, retirou as denúncias das redes e pediu perdão publicamente ao líder da Universal, Edir Macedo. Dez meses antes, a mulher do ex-bispo, Teresa Paulo, foi assassinada pelo próprio filho, Lucas, em Portugal. Alfredo Paulo trabalha hoje como motorista de aplicativo no país europeu.

Correção: 28 de outubro de 2022, 16h
A igreja do missionário Cecílio Fernandes era a Casa da Benção, e não Cruzada do Caminho Eterno. O texto foi corrigido.