Tive a sorte de visitar novamente o Cariri cearense no último final de semana. Caminhei pelo Crajubar, nome criado a partir da junção dos três municípios-chave na região, Crato, Juazeiro do Norte e Barbalha. No domingo, subi até a estátua do Padre Cícero.

Dezenas de pessoas circulavam a imagem de 27 metros e um ritual muito bonito se repetia: fiéis davam voltas no cajado gigante enfeitado com fitas enquanto, de olhos fechados, faziam em voz baixa os seus pedidos. Também escreviam nas vestes do padre os nomes de pessoas queridas – e rezavam, desejavam, prometiam, demandavam. Resolvi fazer o mesmo: nesses dias de vergonhoso desfile de violência, mentira e canalhice, senti que também precisava me fortalecer.

Estava terminando de deixar a minha mensagem, quase anônima em meio a tantas outras, quando uma senhora de cabelos lisos e brancos chegou perto. “Moça, você pode escrever pra mim?”. Eu afirmei que sim, e ela passou a dizer seu nome e o da sua família (ela e eu na foto acima).

Com minha Bic preta, escrevi Antônio, João, Jaqueline, Nalva, Pedro. E ainda “proteger”, “cura” e “força”. Depois que ditou um dos nomes, ela começou a sussurrar. “Está doente… é vício, não sei mais o que fazer”. Os olhos cheios d’água, contou um pouco sobre o que a família passava. Frágil, frágil. Não sei exatamente por que, mas senti que eu podia, ali, oferecer a ela a melhor coisa que no momento eu levava: o desejo do melhor. Nos abraçamos e eu falei algo como procurar ajuda, médico, tratamento. Falei para ela se cuidar e que as coisas iam melhorar, dar certo. Sim, eu sei que não é tão simples. Mas minha vontade era tão forte quanto genuína – assim como era a bênção dela para mim.

Estávamos ambas frente a um monumento transpassado por milhares de desejos rabiscados, mentalizados, implorados, sussurrados. Vontades coletivas pelo levante, pela saúde e recuperação, pelo retorno e florescimento de alguém. Vontade da construção e da reconstrução, do nascimento e do renascimento. Nos despedimos e cerca de 5 minutos depois, a vi de pé, sozinha, olhando a vista bonita da Chapada do Araripe. Segurava os óculos e enxugava os olhos com um lenço.

Voltei para o hotel atravessada pela força que vem da junção do querer a vida e a cura. Já tinha iniciado o texto da coluna desta semana, e nele analisava o derrame de dinheiro público e privado na campanha bolsonarista. Mas resolvi mudar o assunto. E mudei justamente porque estamos compreensivelmente exaustas da violência, da mentira e da canalhice, de todas estas coisas que detestam a beleza.

E foi beleza e fé o que encontrei domingo enquanto permaneci ao lado dos romeiros e fiéis.

Percebi que seria melhor, e acredito que não apenas para mim, materializar em letra o desejo que me fez fechar os olhos e enviar um pedido para Cícero. Em síntese, quero um país onde cresçam as chances de emprego, educação, moradia e renda, e não células nazistas, estupros, despejos e desmontes trabalhistas. Um país cujo próximo presidente honre o lugar que ocupa, e não nos envergonhe cotidianamente.

Estes desejos estão escritos aqui e foram somados aos pedidos de várias outras pessoas que contribuíram nesse texto. Eu os entendo como uma prece, uma oração, um sonho sonhado em coletivo, vindo de estudantes, professores, empregadas domésticas, pesquisadoras, motoristas de aplicativo, esteticistas, etc. Eu sei que, em algum momento, sonho sonhado junto, com atenção e prática política, vira realidade.

(…)

Eu quero um presidente que aumente o salário mínimo e possibilite preços acessíveis dos produtos no supermercado.

Eu quero um presidente que se preocupe mais com um piso de renda do trabalhador do que com um teto de gastos.

Eu quero um presidente que se importe quando há fome em seu país, e não um presidente que faça de conta que ela não existe enquanto se entope de camarão.

Eu quero um presidente que não ameace o futuro das universidades públicas e invista no ensino superior e de qualidade.

Eu quero um presidente que não permita o corte de mais de 90% para a infraestrutura da Educação Básica (o orçamento federal de R$ 119,1 milhões foi para R$ 3,45 milhões no ano que vem).

Eu quero um presidente que não esconda para onde vão os investimentos públicos e não garanta seu poder através de aberrações como o orçamento secreto.

Eu quero um presidente que restaure a democracia, fortaleça o estado com políticas públicas sociais permanentes e invista fortemente na educação para que as pessoas compreendam que não devem odiar a política, mas entender que nada se faz fora dela.

Eu quero um presidente que tenha vergonha e fique chocado com o fato de uma criança de 11 anos ligar para a polícia pedindo ajuda porque ele e a família não tinham comida em casa.

Eu quero um presidente que entenda que os divergentes podem conversar para estabelecer consensos e conviver de forma respeitosa, apesar das diferentes opiniões.

Eu quero, aliás, um presidente que invista na inteligência e nos equipamentos da polícia, e não em aliados que atiram contra policiais em operação.

Eu quero um presidente que acredite na humanidade de todos, não apenas dos que têm mais dinheiro ou são alfabetizados.

Eu quero um presidente que se importe com o meio ambiente e respeite e proteja os povos originários.

Eu quero um presidente que saiba a importância do ensino público, gratuito e de qualidade. Um presidente que acredite no poder transformador da educação.

Eu quero um presidente que se responsabilize e esteja à altura do seu cargo, em vez de culpabilizar a tudo e a todos (a Guerra da Ucrânia, os governadores, a oposição, etc) por fracassos e problemas da sua gestão.

Um presidente, aliás, que não culpe as pessoas pelos seus próprios assassinatos.

Eu quero um presidente que assegure a vida da população LGBTQIA+.

Eu quero um presidente que respeite os nordestinos.

Quero um presidente que reajuste o valor das bolsas de pesquisa para que mestrandos e doutorandos sejam mais valorizados enquanto desenvolvem cada vez mais a ciência no Brasil.

Eu quero um presidente que priorize investimentos na educação básica.

Eu quero um presidente que prefira a dança feliz à marcha militar.

Fiéis escrevem seus desejos de amor e cura na estátua de Padre Cícero.

Fabiana Moraes.

Eu quero um presidente que pense em políticas públicas para mulheres, que tenha projetos para diminuir desigualdades salariais, que torne mais digno o trabalho de empregadas domésticas, diaristas, entregadoras.

Eu quero um presidente que realmente as respeite, e não ache divertido dançar uma música que chama mulheres de “cadelas”.

Eu quero um presidente que, ao levantar cada dia, lembre que o Brasil é fundado no racismo. E que, por isso, seja ativamente antirracista.

Eu quero um presidente que aposte, com vigor, na capacidade emancipadora da educação.

Eu quero um presidente que defenda o meio ambiente diante do agronegócio.

Eu quero um presidente que não abra mão de defender a pauta LGBTQIA+, preta, indígena e das mulheres, independentemente da situação.

Eu quero um presidente que abra universidades em vez de ameaçar fechá-las através do corte de verbas federais.

Eu quero um presidente transparente, que não coloque sigilo de 100 anos até nas visitas que sua esposa recebe.

Eu quero um presidente que reconstitua o sistema nacional de controle social das políticas públicas, ampliando e diversificando a participação popular no governo e, com isso, fortalecendo a democracia.

Eu quero um presidente que gere empregos e qualificação para todos os trabalhadores e todas as trabalhadoras. Que se preocupe com os mais necessitados.

Eu quero um presidente que invista na saúde de nosso país, e não continue cortando verbas do SUS.

Eu quero um presidente que respeite os diversos credos que sempre marcaram o país. Que apoie, proteja e celebre nossa diversidade religiosa.

Eu quero um presidente que respeite os espaços dos fiéis, e não os torne em inimigos ou massa de manobra.

Eu quero um presidente cujo governo não ignore que mais de 70% dos estupros cometidos no Brasil vitimizam meninas de até 14 anos de idade e que 86% dos estupradores são parentes ou conhecidos.

Eu quero um presidente que não confunda exploração sexual com “prostituição”.

Um presidente que se importe com o fato de duas crianças dividirem um só ovo na merenda escolar por causa da falta de repasses.

Eu quero um presidente que saiba governar para um país formado por mais de 200 milhões de pessoas.

Eu quero um presidente que esteja à altura do Brasil.

(…)
Contribuíram para este desejo coletivo: Lucas Bezerra, Maria Julia Vieira , Arthur Pedrosa, Maíra Welma, Larissa Alves, César Melo, Eduarda Nunes, Frederico Toscano, Daniela Arrais, Moacir dos Anjos, Claudeneide Mendes, Sheila Borges, Marcela Pires, Allan Cariri, João Gabriel Lourenço, Ana Paula Portella.