Quinta-feira, 20 de outubro, 11h da manhã. A aparente calmaria política que já durava quase três semanas desde o primeiro turno em Capelinha, nordeste de Minas Gerais, é rompida por uma denúncia que se espalha pelo WhatsApp. Há uma derrama de panfletos contra Luiz Inácio Lula da Silva no acanhado centro da cidade.

Bastam uns poucos minutos de caminhada para que, em frente à maior agência bancária da localidade, eu me depare com uma mulher vestida com uma camiseta verde e amarela com o slogan de campanha e o número de urna de Jair Bolsonaro. Quando mencionei os panfletos, ela enfiou a mão numa pequena mochila que levava às costas, alcançou um punhado e me entregou.

O impresso é irregular: não traz o nome e o CPF ou CNPJ do responsável pelo conteúdo nem informa a tiragem, como exige a lei. O conteúdo é em grande parte mentiroso: um lado do papelucho associa o petista ao “aborto de bebês” e à tentativa de “implantar uma ditadura socialista”. O outro lista uma série de perguntas sobre sandices a respeito de armas e da “implantação de banheiros únicos nas escolas” – algo que não faz parte do programa de governo de Lula – sob o título “Você governa o destino de sua família”.

Quando perguntei quem havia mandado distribuir o material, a moça – sem qualquer constrangimento – entregou o nome de um empresário e cafeicultor, mais conhecido na cidade por ser filho da ex-vice-prefeita Edneuza Cordeiro de Araújo. Fernando Cordeiro Araújo confirmou que contratou “uma pessoa” para distribuir o material. “Nos panfletos faltava a tiragem, mas isso foi resolvido. Inclusive estamos trabalhando hoje [na distribuição]”, me disse, em tom de desafio, em 24 de outubro, antes de atribuir a confecção do material a outro empresário local. A distribuição de propaganda eleitoral mentirosa é vedada por lei e passível de punição. O nome de Araújo chegou ao Ministério Público mineiro, que irá chamá-lo a depor.

Em Brasília e na imprensa, a campanha de Bolsonaro alardeia há semanas que o empenho do governador reeleito Romeu Zema, do Novo, junto aos prefeitos é estratégico para virar o jogo em Minas Gerais, estado-chave da eleição e onde Lula venceu o primeiro turno. Ao menos em Capelinha, a principal cidade do alto Vale do Jequitinhonha, não está sendo assim: o prefeito, um bolsonarista discreto e zemista fanático, não abraçou a campanha. Restou o jogo sujo, financiado pelo empresariado local.

O Intercept passou uma semana no município mineiro em que Lula e Zema ganharam as eleições no primeiro turno. Com população estimada em 38 mil pessoas, Capelinha entregou 11.470 votos a Lula e 7.616 a Bolsonaro – 56% a 37%. Zema foi aclamado, recebendo 60% dos votos para governador.

Só que o prefeito resiste a pedir votos, temendo o desgaste que terá caso Lula vença – além do impacto disso para os planos do grupo dele na sucessão municipal em 2024. Já o empresariado, bolsonarista até os dentes, vem pressionando – sem sucesso – o prefeito a sair às ruas.

Os eleitores com quem conversei se mostraram seguros de seus votos e alheios aos ataques via panfletos apócrifos, amplificados nas redes sociais. Alvos óbvios da investida bolsonarista, os apoiadores de Lula se disseram imunes ao pânico moral e religioso difundido pela campanha do presidente. E mesmo os eleitores de Bolsonaro demonstraram cansaço com a pancadaria.

Ainda que a situação de Capelinha seja restrita aos limites da cidade, é razoável supor que a estratégia de Bolsonaro venha esbarrando em dificuldades parecidas em parte das centenas de localidades do estado em que Lula saiu vencedor em 2 de outubro. Algo que só saberemos quando os resultados do segundo turno saírem.

Vista do centro da cidade de Capelinha, onde circulavam os panfletos irregulares com mentiras sobre Lula.

Vista do centro da cidade de Capelinha, onde circulavam os panfletos irregulares com mentiras sobre Lula.

Foto: Rafael Moro Martins/The Intercept Brasil

No fio da navalha

É fácil passar sem ser notado por um evento que reúne centenas de pessoas em posição de poder equivalente ou superior à sua. Mas Tadeu Filipe Fernandes de Abreu, o Tadeuzinho, foi visto e ouvido no evento montado pela Associação Mineira de Municípios, a AMM, em Belo Horizonte, para apoiar a reeleição de Jair Bolsonaro. A pedido de Romeu Zema, a AMM garante ter reunido 687 prefeitos no início da tarde de sexta-feira, 14 de outubro.

Prefeito de Capelinha, Tadeuzinho conseguiu deixar com a AMM e auxiliares de Zema uma lista de reivindicações que gostaria de ver atendidas para ter argumentos que convençam um eleitorado que votou maciçamente em Lula no primeiro turno a mudar de ideia.

Capelinha é a cidade-pólo da microrregião do alto Vale do Jequitinhonha, enclave relativamente próspero da mais pobre região mineira. O comércio, o hospital e as clínicas médicas da cidade atraem levas de moradores da região. Além deles, as florestas de eucalipto e a lavoura de café garantem à prefeitura uma boa arrecadação de impostos.

Tadeu Filipe Fernandes de Abreu, o Tadeuzinho, prefeito de Capelinha.

O prefeito Tadeu Filipe Fernandes de Abreu, o Tadeuzinho, barganha com Zema para manifestar apoio público a Bolsonaro neste segundo turno.

Foto: Reprodução/Facebook

Apesar disso, como quase todas as cidades do país, Capelinha vive fundamentalmente do Fundo de Participação dos Municípios, o FPM, a cota do imposto de renda e do IPI que o governo federal divide com as prefeituras. O FPM é repassado tendo os governos estaduais como intermediários. É por isso que, nas pequenas e médias cidades do interior, ideologia política vale pouco. O que conta é um bom relacionamento com o governador e o presidente, que têm capacidade para realizar investimentos com que o mandatário local pode apenas sonhar. E, claro, não se pode fechar os ouvidos para as preferências do eleitorado.

É sobre este fio que Tadeuzinho tenta se equilibrar nas últimas semanas. Aos 36 anos, magro, um cavanhaque e o cabelo com franjas compridas e penteadas de lado, ele decidiu que só sairia às ruas por Bolsonaro caso Zema e a AMM atendessem a seus pleitos. Pediu a construção de 500 casas populares e o asfaltamento de duas estradas que ligam Capelinha a localidades da região e são usadas para o escoamento da produção de eucalipto.

“Se é uma guerra, eles têm que nos dar munição”, vinha repetindo o prefeito a auxiliares próximos. Não é segredo para ninguém na cidade que Tadeuzinho, filiado ao PSC, é bolsonarista, mas seu estafe procura lhe conter os ímpetos. O vice, Aléquison Gomes, também do PSC, ambiciona suceder Tadeuzinho e não quer ficar mal com o eleitorado lulista da cidade.

Entretanto, há muita pressão para que Tadeuzinho desça do muro e pule na garupa de Bolsonaro. Ela não parte de Brasília nem de Belo Horizonte, mas de um ajuntamento de empresários e endinheirados locais. Em 18 de outubro, vazaram dois áudios em que o prefeito afirmava a uma cafeicultora da cidade que ele e o vice estavam sim com Bolsonaro, mas esperavam uma resposta aos pedidos feitos a Zema para entrarem em campo. Rapidamente, PT, PCdoB e PV acusaram Tadeuzinho, na Justiça Eleitoral, de planejar compra de votos na cidade.

Para contornar o estrago, o prefeito precisou fazer uma live numa rede social em que negou categoricamente a acusação. Porém, no dia 24, ele ainda esperava uma resposta de Zema aos seus pedidos. Mas a assessoria do governador disse desconhecer as demandas.

“Sobre o suposto documento com pedido de prefeitos condicionados a qualquer tipo de apoio eleitoral, o governo de Minas repudia essa forma de atuação política e afirma que nenhum documento com esse teor foi encaminhado formalmente”, respondeu a assessoria do governador do Novo.

Mesmo que os pedidos de Tadeuzinho fossem atendidos, a essa altura há pouco a fazer, segundo um dos principais auxiliares do prefeito. Mesmo numa cidade com algo como 20 mil eleitores, uma semana é pouco para virar votos na proporção que Bolsonaro necessita.

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Outdoors no centro de Capelinha.

Foto: Rafael Moro Martins/The Intercept Brasil

Tecnologia, olavismo e jogo sujo

Filho de uma família tradicional de Capelinha, José Eustáquio Soier é um homem bem-sucedido. Ele se tornou empresário quando viu a oportunidade de vender sacaria para a cultura cafeeira do Vale do Jequitinhonha, em meados dos anos 1980. Logo começou a fornecer também fertilizantes e maquinário. O pulo do gato veio quando passou a aperfeiçoar máquinas usadas na produção do café. Hoje, a empresa de Dedé Soier, como ele é conhecido, é provavelmente o principal pólo de tecnologia da cidade.

Soier é um bolsonarista convicto. Mais que isso, é um entusiasta de Olavo de Carvalho e suas derivações, como conteúdos da produtora Brasil Paralelo e o padre de extrema direita Paulo Ricardo. Ele é, ainda, uma das figuras de proa de um movimento que reuniu mais de 100 empresários e lideranças da cidade para tentar virar o jogo a favor de Bolsonaro. O grupo se formou logo após o primeiro turno.

“Foram 18 pessoas na minha casa, em 3 de outubro. Uma semana depois, tivemos quase todos os pastores lá. Qual foi o pedido aos evangélicos? Que fizéssemos um trabalho tendo como pináculo os princípios que levariam a um determinado candidato. A gente está tentando sensibilizar as pessoas falando vote pela vida, antes de falar vote em Bolsonaro”, Soier me disse.

Em duas horas de conversa em que falou até de “marxismo cultural” e fez críticas à masturbação, o industrial não teve pudor em me dizer que mandou mensagem – que fez questão de me mostrar – ao prefeito cobrando uma posição a favor de Bolsonaro em que se falava em “pauta do bem e pauta do mal”.

‘Eu tenho funcionários aqui que dão vontade de pegar e bater’.

Coincidência ou não, foi a uma empresária que o prefeito mandou o áudio em que dizia “ser Bolsonaro” e que acabou vazando. Também pode ser apenas uma coincidência que o texto do panfleto apócrifo que começou a circular por Capelinha se alinhe com o discurso radicalmente religioso de Soier.

“Você é a favor do aborto? Do armamento? Da liberação das drogas? Tem que ter coerência. Porque senão, não adianta você falar que é cristão”, exortou na entrevista. Dias depois, quando lhe perguntei do panfleto – que trata precisamente de temas como esse –, ele desconversou.

Inicialmente, afirmou que “teria que confirmar” se o material era obra de pessoas de seu grupo. Depois, falou o seguinte: “Recebi um e achei interessante. [Mas] Desconheço o autor”. Mais tarde, ele diria que Fernando Cordeiro Araújo não fazia parte do grupo dele, mas acrescentou: “Às vezes conversamos, da mesma forma que converso com todos, como você, por exemplo. São pessoas do bem!”.

Soier sugeriu que costuma repetir aos empregados a peroração que fez a mim na entrevista. “Eu tenho funcionários aqui que dão vontade de pegar e bater. Eu não posso fazer isso. Eu tento explicar [meus argumentos], e vejo que o cara me escuta por respeito”, falou. No limite, isso configura assédio eleitoral, passível de punição pela justiça.

Em Capelinha, o principal sindicato da região, que representa os trabalhadores rurais, não havia recebido nenhuma denúncia formal do tipo. “A gente ouve pela cidade um burburinho de que existe pressão sobre os empregados. Mas não chegou nada concreto”, relatou Carlos Henrique de Souza, assessor do sindicato e presidente municipal do PCdoB.

Mais antipetista que bolsonarista, o comerciante José Cordeiro Maciel não aguenta mais os ataques trocados entre as campanhas de Lula e Bolsonaro.

Mais antipetista que bolsonarista, o comerciante José Cordeiro Maciel não aguenta mais os ataques trocados entre as campanhas de Lula e Bolsonaro.

Foto: Rafael Moro Martins/The Intercept Brasil

‘Sou Lula e não abro’

O bairro da Piedade fica no alto de uma das encostas que margeiam o vale do córrego Areão e o centro de Capelinha. É naquele lado que mora a maior parte da população mais pobre da cidade. Ali e em bairros vizinhos, muitos dos moradores são recém-chegados da zona rural – e vários ainda trabalham na roça, como se diz por lá.

É na Piedade que fica o maior local de votação de Capelinha, a Escola Estadual Professora Rosarinha Pimentinha. No Rosarinha, votaram no primeiro turno 3.203 eleitores – dois a cada três deles escolheram Lula para presidente.

No fim da tarde de quinta-feira, 20 de outubro, algo como duas dezenas de mulheres, quase todas negras, conversavam na porta do Rosarinha à espera dos filhos. Um pequeno grupo se reunia em torno de um celular, ouvindo os áudios do prefeito Tadeuzinho que o PT diz serem tentativa de compra de votos.

“Sou Lula. Votei no primeiro turno, voto de novo no segundo. E, se pudesse, passava o dia apertando o número dele na urna”, me disse a moradora Neuzira da Costa. “Quem votar em Bolsonaro não tem dó da gente”, ela gritou, olhando para a amiga Francielli Cristiane Alves da Silva. Eleitora de Lula no primeiro turno, Francielli disse que votará em Bolsonaro no dia 30. “Foram umas coisas que ele [Lula] falou”, ela desconversou, quando perguntei dos motivos da mudança. “É fake news”, atalhou Ana Paula Gonçalves, outra lulista do grupo.

O que parece contar, ali, é a memória da bonança econômica dos anos Lula. Neuzira passou a contar da sua última ida ao mercado, na véspera. “Peguei umas bobagens. Tinha R$ 100 no bolso e faltou dinheiro. Precisei buscar mais em casa. Antigamente, com R$ 15 a gente fazia uma compra”, falou, olhando para Francielli.

Um pouco atrás do grupo, Maria de Fátima Cardoso mais assistia que participava da conversa. Quando perguntei sobre o voto, ela fechou com a maioria: “Lula”. Mencionei então o panfleto que havia invadido a cidade e ouvi o seguinte: “Assisto muito jornal, me informo. Político nunca deixa de fazer uns errinhos, mas a gente sabe bem o que viveu e vive agora”, ela disse, antes de confessar que tem oposição em casa mesmo: a filha. “Ela fica falando que Lula vai fechar igrejas. Mas um presidente não tem nem poder para isso, tem?”.

Dono de uma igreja batista a alguns quarteirões dali, no bairro do Jardim Aeroporto, o pastor Alex Gonçalves é um dos líderes religiosos que foi à casa de Dedé Soier para ouvir a pregação bolsonarista. Não que precisasse disso. Ele já era um convertido, graças a uma dieta em grande parte baseada em fake news em redes sociais.

“Na época que o Lula entrou, a gente não tinha acesso às notícias como a gente tem hoje, através da internet. Só via aquilo que a Rede Globo postava, aquilo que a que a mídia, entre aspas, postava”, ele me falou. “Se Bolsonaro falou algo, não me baseio apenas naquele trecho de 30 segundos que a Globo ou qualquer outro jornal mostrou. Eu vou ver na íntegra no YouTube”. Ele profere seus sermões de um púlpito sempre decorado com a bandeira do Brasil, mas jurou que neles não trata de política.

Alex Gonçalves, pastor da Igreja Batista.

O pastor bolsonarista Alex Gonçalves.

Foto: Rafael Moro Martins/The Intercept Brasil

A uns 30 quilômetros da cidade, o distrito de Bom Jesus do Galego chama a atenção pela paisagem bucólica e agradável que não se vê mais na desordenada parte urbana de Capelinha. No Galego, uma das 72 comunidades rurais do município, Lula teve 76% dos 243 votos para presidente.

Ali, como nas demais localidades da zona rural, Bolsonaro teve um voto a cada três dados a Lula. O motivo: a eletricidade que chegou com o programa Luz para Todos, do governo do petista. É uma lembrança que persiste. “A gente foi criada no escuro, né? Foi depois que o Lula se candidatou e ganhou que apareceu a luz nas roças para o povo”, me disse Valdete Luís de Oliveira, servente da única escola da região.

Dono do maior mercadinho da localidade, José Cordeiro Maciel – atleticano, como fez questão de frisar – é um dos raros eleitores de Bolsonaro do Galego. “Tem umas pessoas que são muito enjoadas, sabe? Então você toma raiva”, explicou, quando o questionei sobre a escolha na urna – mais antipetista que necessariamente bolsonarista.

Mesmo ele, contudo, demonstrou gratidão pela luz que chegou à comunidade com Lula. “Isso foi pedido do Fernando Henrique, né? Acho que foi. Mas quem contribuiu foi ele [Lula]”. Mas o que lhe tira a paciência, garantiu, é a quantidade de ataques das campanhas. “Ficar lá na televisão brigando e falando o que passou, o que o outro roubou, é chato. Eu acho chato, entendeu? E cada um tem sua igreja, é lei, segue a religião que quiser”.

 

Correção: 26 de outubro, 11h

A montagem de fotos que abre este texto trazia incorretamente um retrato do deputado estadual mineiro Tadeu Martins Leite, também conhecido como Tadeuzinho, em vez do prefeito de Capelinha. Ela foi corrigida.