O pastor batista Orivaldo Pimentel já foi mais otimista quanto à relação das igrejas evangélicas com o bolsonarismo. Teólogo e professor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, ele acreditava que a adesão dos líderes religiosos à extrema direita diminuiria com o tempo. Hoje, analisa que o bolsonarismo poderá destruir a credibilidade das lideranças cristãs, que não apenas dão apoio ideológico ao movimento, como usam da sua autoridade espiritual para carimbar mentiras políticas como se fossem verdades. “Vai chegar a um ponto de tudo isso se esfacelar. E aí, toda a sustentação moral desse discurso vai ruir”, afirmou Pimentel em entrevista ao Intercept.

Não é de agora que o pastor resiste ao conservadorismo intrínseco às religiões cristãs. Em 1989, organizou o primeiro comitê de evangélicos pró-Lula, mas as iniciativas progressistas “sempre foram formadas por alguns poucos gatos pingados”. Segundo Pimentel, o reacionarismo é inerente à história das igrejas evangélicas no Brasil, presente desde que as missões europeias e americanas – essas últimas, motivadas pela Guerra Civil nos EUA – chegaram ao país séculos atrás.

Em nossa conversa, Pimentel disse que a carta de Lula aos evangélicos não terá impacto na conquista de votos, mas considera que pautas morais como canibalismo, pedofilia e satanismo criam uma “tensão nos discursos” das lideranças evangélicas bolsonaristas e, por isso, têm um papel importante. “Não é o ideal, mas não temos nem esse luxo de fazer uma discussão política de ideias e de propostas”, lamentou.

Pimentel ainda criticou a falta de interesse dos cientistas políticos em estudar a dimensão religiosa no contexto político. Segundo ele, esse “preconceito” tem como consequência a falta de compreensão do que de fato está acontecendo no país. Confira a entrevista na íntegra.

"Havendo ou não a vitória de Lula, a resistência dentro das milhares de denominações está estabelecida", avaliou o pastor e teólogo Orivaldo Pimentel.

“Havendo ou não a vitória de Lula, a resistência dentro das milhares de denominações está estabelecida”, avaliou o pastor e teólogo Orivaldo Pimentel.

Foto: Arquivo Pessoal

Intercept – Como o senhor avalia o conteúdo e a eficácia da carta que Lula divulgou para os evangélicos

Orivaldo Pimentel – Não vai ter um grande impacto, não. É importante como um registro, mas não acredito que vá se espalhar. As pessoas não vão parar para ler, especialmente aquelas que já não têm muita simpatia [por Lula]. Ainda mais que ficou um pouco longa. Eu organizei o primeiro comitê pró-Lula em Natal, em 1989, já vi a preparação de cartas, participei da redação de duas ou três. Nunca senti que tivesse efeito no sentido de marketing político. Mas é um respaldo, claro.

Poderia ter sido feito algo mais efetivo no sentido de se aproximar desse eleitorado?

Essa é uma tecla em que se bate com muita frequência. Diz-se que o partido não fez a devida aproximação. Eu, sinceramente, não penso assim. Acho que houve um equívoco histórico das esquerdas e do campo progressista no menosprezo à religião. Historicamente, é um desprezo com perfil academicista. Mas, com relação a essa campanha, não acho que houve descaso ou descuido. Um passo a mais já seria cooptação, já seria antiético. Seria fazer o que Bolsonaro faz, que é uma instrumentalização da religião. O que mais poderia ser feito? Oferecer cargos? Acho muito complicado.

Lula sempre diz que respeita todas as religiões. Como esse discurso chega a alguns grupos evangélicos que consideram que sua religião está acima das outras e desrespeitam, principalmente, as de matrizes africanas?

É um dilema. A candidatura de Lula tem esse caráter pedagógico para a esfera religiosa, de que é preciso respeitar, andar junto, escutar. Tudo isso é muito importante, mas não é adequado se curvar, porque pode ser a ruína para laicidade do estado. As atitudes de Lula têm sido corretas. Se isso vai ajudar a vencer as eleições, não sei, mas que vai ajudar a melhorar a democracia e essa relação entre religião e estado, vai. Por isso, eu espero que ele vença e que se prove que é possível ganhar a eleição sem precisar fazer essa cooptação [religiosa].

O que poderia minimizar o bolsonarismo no meio evangélico?

Essa é a pergunta para que todos nós gostaríamos de ter uma resposta. Especialmente eu, que sou da Frente dos Evangélicos pelo Estado de Direito, que surgiu com o golpe contra Dilma, em 2016. Para nós, de acordo com uma das interpretações da Bíblia, o estado de direito é um dos pilares fundamentais para a existência da paz, da propagação livre da fé e da construção de um mundo melhor. Mas como fazer isso chegar [aos fiéis] para diminuir o bolsonarismo presente no meio evangélico e no meio católico também? Eu penso muito sobre isso, mas não consigo achar um caminho. A gente lida com um inimigo desleal, que é a mentira. Se lidássemos com uma opinião diversa, poderíamos discutir, mas quando lidamos com uma negação pura e simples de tudo que é dito, ficamos sem campo de manobra para conversar.

‘O grande problema das fake news é que as pessoas querem acreditar nas mentiras’.

O grande problema das fake news é que as pessoas querem acreditar nas mentiras. Se não fosse assim, seria mais fácil desmascarar. Mas a pessoa quer acreditar, e isso a gente não tem como combater.

Não existe nenhuma esperança?

Acredito que, havendo a vitória de Lula, ou mesmo não havendo, a resistência dentro das milhares de denominações está estabelecida. Existem microdenominações espalhadas pelo Brasil que não estão muito preocupadas com as classificações, se são pentecostais, neopentecostais ou tradicionais. Essas igrejas são maioritariamente conservadoras. Mas, em praticamente todas elas, há núcleos de resistência. O bolsonarismo vai continuar existindo, porém, ao menos a oposição mostrou a cara.

O que aproxima o bolsonarismo de várias denominações evangélicas?

Dizer que de repente ficaram conservadores é um equívoco. Isso já estava inerente na história dos evangélicos no Brasil. As missões americanas e europeias que vieram para cá foram marcadamente reacionárias. Por exemplo, os batistas vieram [dos Estados Unidos] em protesto à vitória da Guerra da Secessão da região norte. Como no Brasil ainda tinha escravidão, eles vieram para cá.

O reacionarismo sempre existiu, mas a partir das eleições de 2018, isso veio à tona. Isso de certa forma é bom, porque torna as coisas mais transparentes. As iniciativas progressistas sempre foram formadas por alguns poucos gatos pingados.

Quais os riscos do bolsonarismo para as igrejas evangélicas e quais os futuros desafios que os pastores vão ter que enfrentar?

O bolsonarismo rói por baixo a credibilidade das lideranças evangélicas. Quando elas escolhem uma pessoa como Bolsonaro, comprometem a ética e o padrão moral das igrejas. Deixam de se preocupar com os pobres, com a questão da violência, das armas, da defesa da tortura, da morte das pessoas. Nas conversas que eu tenho com bolsonaristas evangélicos, quando levanto essas questões, eles sempre saem com aquela desculpa clássica, que isso é verborragia do presidente, que ele não controla o que está falando – minimizam a questão. Entretanto, não é minimizável.

Eles aderem a um discurso, em nome de não sei o quê, porque as pautas que têm são fantasiosas, como a vinda do comunismo. Em nome disso, fazem adesão a uma pessoa que vai contra todos os princípios cristãos, contra todos os princípios evangélicos. Isso tira a credibilidade da liderança religiosa, e igreja sem credibilidade, acabou. Eu já fui mais otimista em relação à adesão das igrejas ao bolsonarismo. Achava que ia diminuir bem mais do que de fato diminuiu.

SÃO PAULO,SP,19.10.2022:JAIR-BOLSONARO-ENCONTRO-COM-EVANGÉLICOS - Michelle Bolsonaro, durante encontro com evangélicos realizado na cidade de São Paulo, SP, nesta quarta-feira, 19. (Foto: Tomzé Fonseca/Futura Press/Folhapress)

Foto: Tomzé Fonseca/Futura Press/Folhapress

Essas lideranças dão apoio ideológico e contribuem diretamente para espalhar e reforçar mentiras.

Estão carimbando essas mentiras com sua autoridade espiritual. [Com isso,] as fake news adquirem um caráter muito mais eficaz, por isso é tão difícil combater. Se, até 2018, esses líderes tinham se mantido calados, apoiando candidatos internamente, fazendo alguns apoios oportunistas, agora é um apoio descarado ao Bolsonaro. Não é simplesmente oportunista ou momentâneo, é um apoio ideológico. E isso é preocupante, porque os pastores e pastoras tinham no silêncio deles uma respeitabilidade garantida. Quando termina esse silêncio, a respeitabilidade fica limitada a esse candidato que é sempre falso, mentiroso. Vai chegar a um ponto de se esfacelar. E aí, toda a sustentação moral desse discurso vai ruir.

O senhor tem ouvido muitos relatos de fiéis incomodados com o assédio eleitoral dos seus pastores?

Como eu coordeno um grupo de insatisfeitos, agrega pessoas que procuram algum tipo de agremiação em que possam partilhar seus incômodos. Eu arriscaria dizer que a grande maioria é de pessoas que estão assimilando o discurso pró-Bolsonaro e concordando com isso. Entre os que estão incomodados, os que não concordam, há os que simplesmente caem fora – são os “desigrejados”. Mas tem um grupo, que acredito ser a maior parte entre os incomodados, que são os silentes. Aguentam aquilo em troca dos benefícios simbólicos dos quais desfrutam, e que não são poucos. Além deles, tem benefícios concretos de assistência que o estado não dá, de relacionamentos em momentos de crise. E tem também aqueles que veem na igreja uma bolha de proteção moral para sua família. Então, por conta de todos esses benefícios – além do benefício maior que seria a sua certeza de salvação, que não é pouco – preferem deixar passar. Não gostam, percebem que é um exagero ou uma fraqueza do seu líder [da igreja], mas fica por lá assim mesmo. No Nordeste, que tem maioria de votos para o PT, isso é muito mais frequente.

Como o senhor analisa os discursos de Michelle Bolsonaro e o papel dela na campanha?

Ela e Damares formam uma dupla de evangélicas hardcore, do pentecostalismo mais profundo. De fato, acreditam na potência do imaginário espiritual agindo no cotidiano das pessoas. Então, elas representam isso e falam sobre isso. De certa maneira, Michelle avaliza o candidato, porque é vista como uma mulher de oração. Mesmo que os evangélicos não caiam na conversa de que Bolsonaro é evangélico – para eles, isso não é tão importante, o importante é que ele se paute por princípios que supõem ser evangélicos – ele tem uma família com tradição de frequentar igrejas. Acreditam que Michelle vai segurar a parada.

No segundo turno, a campanha do Bolsonaro tem sido alvo de contraofensivas com pautas como satanismo, canibalismo e pedofilia. Qual a eficácia disso?

Eu acho que tem alguma, sim. Dizer que não tem nenhuma eficácia seria acreditar nessa blindagem exagerada. Não acho que afete as lideranças já ligadas ao bolsonarismo. Essas vão continuar [com Bolsonaro], algumas mais discretas, outras mais explícitas. Tais mensagens não alteram a opinião deles, mas, para a grande massa [de evangélicos], talvez precise chegar alguma coisa nesse sentido para dar um clique na cabeça das pessoas. Se você não aceita o satanismo do Lula, não pode aceitar o canibalismo do Bolsonaro. Então, cria uma certa tensão nos discursos. Por isso, eu julgo que teve um papel importante. Não é o discurso ideal de uma verdadeira campanha política, mas a gente não está mais nessa linha. Não temos nem o luxo de fazer uma discussão política de ideias e de propostas.

Em um dos seus textos, o senhor critica a falta de interesse dos cientistas políticos em estudar religião. Isso tem consequência na dificuldade atual de entendermos o momento político?

Sem dúvida. A ciência política no Brasil se baseia em uma teoria bastante mecânica dos fenômenos, como se a política fosse condicionada apenas por mecanismos econômicos e de macrointeresses. Isso vem de uma longa tradição marxista, que deu uma chave de interpretação bastante sedutora. Karl Marx é um pensador fabuloso, que eu admiro demais, mas quando ele fala de religião, diz que são as flores colocadas em torno das correntes. Se você tira as correntes, não precisa se preocupar com as flores. Vamos tratar das correntes e depois as flores caem por si próprias. Outra linha [de estudo da ciência política] foi mais quantitativista, pensando na questão eleitoreira e calculando as questões por escolhas chamadas racionais. É uma leitura bem fenomenológica do processo político que não projeta nada, apenas descreve, não capta tensões e movimentos.

‘Michelle e Damares são evangélicas hardcore, do pentecostalismo mais profundo’.

O problema maior da academia é fazer uma separação muito rígida entre esses dois campos, o mítico e o da razão, como se fossem coisas estanques, como se elas não se intercalassem o tempo todo. Quando você retira da reflexão sobre a política a dimensão mítica, essa dimensão mítica vai aparecer mais adiante como uma [crença] recalcada, de uma forma absolutamente profana ou pejorativa.

Eu tenho críticas à ciência política, mas ao mesmo tempo percebo um potencial enorme que poderia vir daí para produzir uma reflexão mais útil para o momento que a gente está vivendo. Se isso acontecesse, haveria mais instrumentos de percepção desses fenômenos, notadamente o fenômeno religioso, e do papel que ele tem nessa história toda.

Desconsiderar a dimensão religiosa no contexto político não vai fazer ela desaparecer.

Exatamente. A religião se torna muito mais eficiente, porque vai atuar subterraneamente. O conservadorismo já está profundamente enraizado no meio evangélico. O bolsonarismo fez essa coisa vir à tona, sem que isso tenha sido dimensionado, refletido, estudado e admitido – por puro preconceito.

Mais de 40 anos atrás, eu estava fazendo uma viagem de trem do Rio para Belo Horizonte e ouvi uma pessoa conversar com outra, dizendo que sempre votava em candidatos evangélicos, mesmo não sendo evangélica, porque acreditava que eles defendem o mesmo que ela. Aquela conversinha que ficou lá no passado me vem sempre à lembrança. Não se trata de ser ou não evangélico. É mais que isso. Se trata de aderir a um discurso a que você dá valor.