Há uma tentativa de burlar o resultado da eleição presidencial em andamento no Brasil neste domingo, 30 de outubro. Ela utiliza como principal instrumento a Polícia Rodoviária Federal, a PRF, comandada por um cabo eleitoral do presidente Jair Bolsonaro.

Trata-se de Silvinei Vasques, diretor-geral da corporação, que está no cargo graças a uma indicação de Flávio Bolsonaro, senador pelo PL do Rio de Janeiro e filho 01 do presidente de extrema direita. Vasques é paranaense e cresceu em Santa Catarina. Na PRF, seu currículo tem como destaque as acusações de pedir propina a guincheiros e espancar o frentista de um posto de gasolina que se recusou a lavar seu carro de graça.

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‘Em ausência de ônibus, focar em vans': diretriz interna da PRF mostra orientações aos agentes neste domingo

Reprodução

No Instagram, Vasques pediu voto ao presidente. No comando da PRF, ele resolveu mandar às favas a ordem do presidente do Tribunal Superior Eleitoral, o TSE, o ministro Alexandre de Moraes. No sábado, 29, Moraes vetou quaisquer operações policiais “relacionadas ao transporte público, gratuito ou não, de eleitoras e eleitores”. Isto é: está vedado às polícias atrapalhar a chegada às urnas de quem deseja votar.

A PRF já vinha se preparando para um pente fino em ônibus, principalmente, mas também em vans e carros que transportassem eleitores, como deixa claro este print de um sistema interno da corporação no Paraná. Aparentemente alertada, a campanha de Lula foi ao TSE e obteve a decisão de Moraes.

Mas, em ofício assinado às 2h43 desta madrugada, Vasques confessou, em papel timbrado, a intenção de manter a operação que já estava planejada. O diretor-geral da PRF determinou que ações de fiscalização em estradas fossem mantidas até o dia 1 de novembro.

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“Reafirmo o compromisso da PRF com o fortalecimento da segurança pública nacional, quer seja na proteção das vidas, na preservação dos patrimônios públicos e privados e na garantia da mobilidade nas rodovias e estradas federais e nas demais áreas de interesse da União, razão pela qual a Operação Eleições 2022, nas ações não conflitantes com a decisão proferida pelo TSE, deve seguir o seu curso natural até o dia 1o de novembro de 2022″, ele escreveu.

Segundo as jornalistas Andréia Sadi e Julia Duailibi, a ordem para que Vasques mantivesse as blitze partiu do ministro da Justiça, Anderson Torres, um delegado da Polícia Federal que também age como político bolsonarista. Torres, segundo elas, conhece os mapas da campanha bolsonarista que apontam as regiões em que Lula lidera as pesquisas eleitorais.

Lauro Jardim, colunista do jornal O Globo, disse que a operação nas estradas foi planejada em 19 de outubro no Palácio da Alvorada, residência oficial do presidente da República. “Os chefes dos órgãos que auxiliam a Justiça Eleitoral, como Forças Armadas, Polícia Federal e PRF, seriam instruídos para que os seus comandados ficassem atentos ao transporte irregular de eleitores, sobretudo no Nordeste”.

“Nem seria preciso dar uma ordem explícita para nada. Como o efetivo dessas forças policiais é basicamente composto de simpatizantes do presidente, a consequência de uma operação como essa é óbvia”, ouviu Jardim de um integrante da campanha bolsonarista.

Seja como for, a ordem parece ter sido entendida como desejava a campanha bolsonarista, como deixa claro a postagem feita no WhatsApp pelo agente Adalberto Alfredo Schumann e revelada pela revista piauí: “correndo atrás dos eleitores do Lula q saíram do cercado”, ele escreveu a colegas.

Assim, até 12h35 deste domingo, a PRF já havia feito 70% mais abordagens a ônibus que durante todo o dia 2 de outubro, data do primeiro turno. Eram 514 casos, ante os 297 de quatro semanas atrás. Os números, revelados pela Folha, foram confirmados pelo Intercept junto a uma fonte na corporação. Quase a metade das blitze ocorreu no Nordeste. Ali, Lula venceu o primeiro turno com 67% dos votos válidos.

Um outro relatório, fechado às 17h, contabilizou 619 abordagens. Ou seja, apenas 104 novas ações durante a tarde, cerca de um quinto das realizadas pela manhã. A queda se deu após denúncias sobre as blitze chegarem ao TSE pelo aplicativo Pardal e pela imprensa. Com isso, no início da tarde, Vasques foi chamado a se explicar perante Moraes. Ele saiu dali prometendo que não haveria mais blitze – a campanha de Luiz Inácio Lula da Silva chegou a pedir sua prisão.

O Intercept encontrou uma viatura da PRF abordando motoristas em uma rua do bairro de Perdizes, zona oeste de São Paulo. É um caso flagrante de abuso de poder: a corporação, como indica seu próprio nome, tem competência apenas para policiais atuarem nas rodovias federais.

‘Falar que cada abordagem a ônibus demorou no máximo 15 minutos, como fez Moraes, é fora da realidade’.

Em entrevista coletiva concedida na sede do TSE no final do dia, Alexandre de Moraes tergiversou. Repetiu a jornalistas as alegações que ouviu de Silvinei Marques. E garantiu que nenhum eleitor deixou de ir votar por causa das blitze, desta vez citando como fonte os juízes eleitorais onde os quase 600 casos ocorreram.

“Falar que cada abordagem a ônibus demorou no máximo 15 minutos, como fez Moraes, é fora da realidade. Se ele ouviu isso, é porque o diretor-geral mentiu”, nos disse um servidor da PRF, sob a condição do anonimato.

Segundo essa mesma fonte, a PRF já apreendeu e recolheu a seus pátios quase 600 veículos neste domingo. O primeiro do dia foi, justamente, um ônibus com capacidade para 45 passageiros, recolhido ao pátio às 7h36, em Atalaia, no interior de Alagoas. Motivo: o licenciamento está atrasado. Se ele estivesse transportando eleitores, cabe a Moraes explicar como eles conseguiram votar.

Que efeito as ações coordenadas da PRF terão efeito no resultado eleitoral é algo que ainda precisará ser verificado. Mas uma eventual derrota de Lula estará, desde já, sob suspeita. E já é possível cravar que uma das principais instituições policiais brasileiras está aparelhada pela extrema direita e se deixa usar para fins antidemocráticos.

A ação não se limitou a usar a estrutura da PRF. Na ponte Rio-Niterói, o uma operação conjunta com o Exército deixou o tráfego lento: a travessia demorava cerca de 28 minutos no sentido Niterói —mais que o dobro do tempo normal do trajeto, de 13 minutos, informou o UOL. Lula venceu as eleições na cidade. Há relatos de blitze no Rio, com a participação de policiais militares, que estariam perguntariam a eleitores em qual candidato votariam antes de liberar a viagem.

Apesar de Silvinei Vasques ter garantido a Moraes que as blitze seriam suspensas, até as 16h40, nenhum comunicado com essa ordem havia sido distribuída por e-mail ou WhatsApp aos servidores da Polícia Rodoviária Federal.