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Barricadas se multiplicaram pelas rodovias do país no dia seguinte à derrota de Jair Bolsonaro nas urnas, com muitos apoiadores do presidente pedindo intervenção militar contra o resultado de domingo.

Foto: Juan Ortiz para o Intercept Brasil

Quando Luiz Inácio Lula da Silva virou na contagem de votos, na noite do último domingo, 30, metade do Brasil estava em festa. As ruas das maiores cidades brasileiras se encheram por uma maré vermelha que cantava em alto e bom som “Tá na hora do Jair… Jair embora”, hit absoluto da reta final de campanha. Enquanto isso, uma parcela procurava desesperadamente um jeito de melar a eleição – e tentou mais uma vez, com bloqueios em estradas em várias partes do país.

Eu tinha viagem marcada às 22h50, saindo da rodoviária de Porto Alegre rumo a Florianópolis, e evitei as celebrações de rua com receio de possíveis tumultos. Escolhi viajar de madrugada, acreditando que o movimento nas rodovias seria mais tranquilo. Porém, estava fadado a presenciar a reação enérgica dos derrotados.

Por volta da 1h30, o motorista parou o veículo no meio da BR-101, em Santa Rosa do Sul, próximo à divisa com o Rio Grande do Sul. Os passageiros desceram sem entender o que acontecia. Visivelmente preocupado, o motorista abriu um grupo do WhatsApp para mostrar os vídeos da situação: caminhoneiros bolsonaristas bloquearam a estrada dali até Itajaí – com barricadas que se multiplicavam por Maracajá, Criciúma, Tubarão, Palhoça e várias outras cidades do litoral catarinense.

Os manifestantes hastearam bandeiras do Brasil, pediram intervenção militar, convocaram seus colegas a manter as paralisações por 72h sob o pretexto de anular as eleições e esperavam ansiosos o discurso de seu líder, o presidente Jair Bolsonaro. Protestos semelhantes também foram registrados em Mato Grosso, Goiás e Bahia, antes de se espalhar por outros estados.

Passamos a primeira barricada depois de duas horas, mas já avisados de que o trajeto seria longo. Na parada do Restaurante do Japonês, em Sombrio, já em Santa Catarina, um movimento incomum de ônibus e passageiros se aglomerou. Um motorista que viajava ao norte catarinense disse que não arredaria o pé dali, para não arriscar a segurança dos passageiros. O nosso foi obrigado a seguir viagem, por determinação da chefia da empresa.

Chegamos no segundo bloqueio por volta das 7h, em Maracajá. Dezenas de caminhões estacionados ao lado de um posto de gasolina serviam de barreira física para quem tentasse atravessar. Da borracharia anexa ao posto, os manifestantes retiraram pneus para queimar no asfalto. Os bolsonaristas gritavam animados, como se o candidato deles não tivesse perdido as eleições no dia anterior.

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Pessoas aguardam o desbloqueio da rodovia fora de seus carros em Santa Catarina.

Foto: Juan Ortiz para o Intercept Brasil

Às 10h50, me isolei num canto para conversar rapidamente com uma rádio argentina, interessada nos desdobramentos das eleições brasileiras. Expliquei como tinha sido a distribuição de votos nos estados, o sumiço completo de Bolsonaro e as mobilizações antidemocráticas nas rodovias – fato até então desconhecido pelos argentinos e ignorado também por muitos brasileiros, que encerraram a noite em êxtase com a vitória de Lula.

Mesmo com a chegada de uma viatura da Polícia Rodoviária Federal, os golpistas seguiam no comando da situação. Um repórter da TV Barriga Verde, afiliada da TV Band em Santa Catarina, falou com um agente da PRF, que respondeu de forma sucinta: “nossas coordenações superiores de Brasília e de Florianópolis estão reunidas para chegar a uma solução conjunta”.

Vídeos que circularam nas redes sociais mostram a conivência da PRF com os manifestantes golpistas. Em uma das gravações, um policial diz a bolsonaristas catarinenses que não irá multá-los, porque os considerava seus “patrões, enquanto servidores públicos”. A postura da corporação contrastou com as blitze irregulares realizadas no domingo eleitoral – ao menos 560 abordagens de fiscalização a veículos de transporte coletivo, descumprindo ordem do Tribunal Superior Eleitoral. O diretor-geral da PRF, Silvinei Vasques, havia declarado voto em Jair Bolsonaro no sábado anterior à eleição.

Só fomos liberados de Maracajá próximo ao meio-dia, após muita negociação com os bolsonaristas. Alguns metros adiante, um novo bloqueio tentou impedir nossa passagem com pedaços de madeira, mas o motorista, sagaz, conseguiu dar ré e desviar por uma estrada rural, no meio das plantações de fumo.

Chegamos duas horas depois, a passo lento, na barricada de Tubarão, a 150 quilômetros de Florianópolis. Lá não passava nem carro, nem moto, nem ônibus. Apenas uma ambulância conseguiu, a duras penas, se enfiar no meio dos carros para socorrer uma mulher que tinha passado mal. Um guindaste alçou uma bandeira do Brasil por cima da rodovia, e manifestantes soltaram fogos de artifício. A comida acabou rapidamente no posto de conveniência e no restaurante mais próximo. Enquanto a chuva apertava, as pessoas paradas à força na estrada começaram a ficar impacientes.

Durante todo o trajeto, pelo menos seis passageiros tentaram atravessar as barricadas a pé, na esperança de conseguir transporte do outro lado. Pelo menos um conseguiu chegar ao seu destino – dos outros não tivemos mais notícias.

A comida acabou rapidamente no posto de conveniência e no restaurante mais próximo.

Nilson, um dos passageiros do meu ônibus, descreveu bem nossa condição enquanto mandava um áudio para sua companheira: “A gente foi feito de refém, não sabemos quando vamos passar pelo bloqueio”. A ideia de sequestro combinava perfeitamente com aquele caos. Nossa intermediação não era com a polícia, mas sim com militantes radicais que decidiram quem tinha direito de ir e vir. Em duas ocasiões, esses sujeitos subiram em nosso ônibus, para nos “revistar”. Na primeira vez, um deles nos informou que ia tentar liberar o acesso dos ônibus, mas que dependia da colaboração dos carros de passeio. Nada se concretizou até o início da noite. A segunda inspeção foi um pouco mais tensa.

Uma mulher entrou no veículo para avaliar a situação das crianças a bordo – duas mulheres estavam com filhas pequenas e com fome. Assim como o rapaz anterior, prometeu que liberaria nossa passagem. Quando ela estava de saída, cometi a imprudência de tentar conversar com ela, de tentar manter um diálogo minimamente civilizado. Perguntei qual era o motivo das paralisações e se esperavam um pronunciamento do presidente Bolsonaro. A resposta veio acompanhada de golpes no carro: “A gente está fazendo isso para ver se melhora, porque não vamos deixar aquele vagabundo entrar. Aquele é nosso Satanás”, disse a mulher, que se apresentou como nordestina moradora há 10 anos no estado. Na sequência, garantiu aos gritos que só nos liberaria por causa das duas crianças, “senão não ia liberar”. Uma passageira gravou a conversa.

Nem mesmo passageiros bolsonaristas concordavam com os bloqueios causados pelas manifestações. O José, por exemplo, me disse que “até defendia a mesma causa”, mas estava igualmente revoltado com as paralisações na estrada.

Finalmente, às 21h10 de segunda-feira, atravessamos a barricada mais pesada do caminho. Apesar da chuva forte, nossos sequestradores seguiam decididos a ir até o fim com a arruaça. Passamos em meio a uma fogueira que chegou a esquentar os bancos do fundão. A fumaça de pneu queimado entrou pela janela do banheiro, gerando medo em alguns passageiros que acharam que o carro estava pegando fogo. As mães das crianças correram com as filhas para os bancos dianteiros, e uma delas foi aos prantos. “Nunca imaginei que viveria uma coisa dessas”, desabafou, enquanto recebia abraços e consolo dos colegas de travessia.

Nossa via crucis seguiu para a rodoviária de Tubarão e logo após para uma pizzaria – com jantar pago pela empresa de transporte. Àquela altura, já nos chamávamos pelo nome. Sentei à mesa com o casal Luana e Guilherme, gaúchos que se mudaram recentemente para a Praia dos Ingleses, em Florianópolis. Também conhecemos Diego, um homem surdo que conversava com a gente por meio de leitura labial. Trocamos algumas palavras em Libras, e ele também compartilhou detalhes de sua vida pessoal.

Ainda estamos distantes do nosso destino final. Enquanto termino este texto, em um posto de gasolina em Imbituba, aguardamos notícias da barricada em Palhoça, a última antes de Florianópolis. Uma passageira que conseguiu atravessar com ajuda de um primo policial avisou por WhatsApp que havia muito mais gente do que em Tubarão. Por isso, esperamos que a PRF enfim cumpra a determinação do STF de dar fim aos bloqueios – e o diretor-geral da corporação seja responsabilizado pela falta de ação contra os manifestantes, alimentando o caos nas rodovias e o discurso beligerante dos bolsonaristas.