Em um vídeo publicado na última sexta-feira, dia 4, um bolsonarista soa o alarme: cerca de 5 milhões de votos foram “roubados” de Jair Bolsonaro. Fontes ligadas diretamente ao Exército e a Eduardo Bolsonaro pediram para “confiar no capitão”, que está tomando “providências”, diz o youtuber. Ele mostra áudios, supostamente de “fontes do Exército”, alegando que eleitores foram pagos para comparecer a manifestações em favor de Lula no Norte e no Nordeste, e que as Forças Armadas iriam para as ruas para “garantir a lei e a ordem”. Também repete que houve “fraude” na eleição.

É tudo mentira, claro. As eleições terminaram, Lula venceu e já começou a transição para assumir em janeiro de 2023. Os resultados foram validados pelo Tribunal Superior Eleitoral e reconhecidos por vários países, tudo dentro da normalidade democrática. Mas não importa. O youtuber, em tom de alerta, diz que os jornais “já estão em posse das informações”, como se estivesse informando seus seguidores em primeira mão. Seu aviso foi visto 2,9 milhões de vezes em três dias.

O canal acabou suspenso no Brasil só após uma decisão judicial – mas o youtuber não parou. Fez um vídeo orientando seus seguidores a usarem VPN para burlar a punição e continuou postando um vídeo golpista por dia, muitos com mais de 1 milhão de visualizações cada um. Ao subir os vídeos, sabendo que está publicando conteúdo proibido, ele pede aos seguidores para baixarem rápido e compartilharem. Só os vídeos desse canal alcançaram 10,5 milhões de pessoas nos dias seguintes à eleição. O Intercept não dará nomes ou links dos canais mencionados para evitar que eles sejam ainda mais popularizados.

O YouTube atualizou em 31 de outubro suas políticas, que, em tese, passaram a proibir conteúdos que incitassem o público a interferir em processos democráticos ou que questionassem os resultados da eleição alegando fraude ou problemas técnicos. Apesar disso, o Intercept encontrou dezenas e dezenas de conteúdos abertamente golpistas na rede. Apenas uma pequena parcela foi removida ativamente pela rede social.

Na mesma sexta-feira, dia 4, uma live do argentino Fernando Cerimedo, próximo de Eduardo Bolsonaro, começou a bombar na rede bolsonarista. Nela, Cerimedo dizia que modelos de urnas que não haviam sido submetidos a testes deram mais votos a Lula. A live foi rapidamente repercutida nas redes de extrema direita – principalmente na do deputado eleito pelo PL mineiro Nikolas Ferreira. Acabou removida pelo YouTube – assim como as contas de Ferreira –, mas o estrago já estava feito.

Uma série de outros vídeos passou a repercutir a live golpista. Um canal repostou a cobertura da Jovem Pan News sobre o caso. O vídeo original da emissora foi excluído, mas a repostagem, colocada no ar há dois dias por um youtuber de direita, já tem 1,4 milhões de visualizações. Outro, que reproduz opiniões de Nikolas Ferreira e Silas Malafaia em voz robótica, já tem 464 mil visualizações – também em dois dias. Um terceiro, que reproduz o vídeo de Cerimedo no canal de um “pedagogo”, já acumula 147 mil views, e também segue no ar – assim como os supostos documentos usados na “apuração” golpista.

Jair Bolsonaro - Presidente e candidato à reeleição Jair Bolsonaro (PL) e o Deputado Federal Nikolas Ferreira De Oliveira (PL), participam de evento de campanha política, na Praça da Liberdade.

O presidente Jair Bolsonaro com Nikolas Ferreira na garupa.

Foto: Gledston Tavares/DiaEsportivo/Folhapress

Enxugando gelo

O Intercept teve acesso a uma planilha com dezenas de vídeos de extrema direita publicados entre 26 de outubro e 2 de novembro. Em um recorte com 73 vídeos abertamente golpistas, apenas nove foram removidos. Só eles somam 9 milhões de visualizações. Combinados aos publicados no fim da semana passada, são mais de 21 milhões de views em poucos dias – e isso contando apenas os maiores influenciadores golpistas em número de visualizações e os vídeos que ainda permanecem no ar. Na prática, esse tipo de conteúdo chegou a muito mais gente.

São vídeos que questionam os resultados das eleições e pedem “intervenção federal” das Forças Armadas, evocando o famigerado artigo 142 da Constituição, além de incitarem a população a aderir aos atos antidemocráticos que interromperam o tráfego em estradas por todo o país.

“As Forças Armadas estão em Brasília e em todo Brasil em estado de alerta”, diz um deles, publicado na véspera das eleições, ecoando reportagens do jornal bolsonarista Gazeta do Povo. “Só me darei por vencido quando as Forças Armadas entregarem o relatório. Entregaremos nossa vida, se preciso for”, diz outro vídeo, publicado ainda no dia da eleição, que já soma 918 mil visualizações.

Em outro vídeo, uma live com mais de uma hora de duração, dois pastores mostram imagens das manifestações golpistas espalhando pânico e comentando notícias falsas, como a de que eleitores de Lula estariam tentando saquear o comércio. Transmitida na segunda-feira, dia 31, ela tem mais de 400 mil visualizações.

Um monitoramento feito pelo NetLab, laboratório ligado à Universidade Federal do Rio de Janeiro, identificou mais de 200 conteúdos abertamente golpistas por dia circulando no YouTube, TikTok, Instagram, Twitter e outras redes, logo após o segundo turno. Eles incluem não apenas posts de usuários comuns – mas, também, de portais de notícias duvidosos e de influenciadores digitais, inclusive candidatos eleitos neste ano pela extrema direita.

O Google e a Meta foram as empresas que mais lucraram com campanhas políticas em 2022.

Na semana passada, o TSE precisou enviar ordens em série para a derrubada de conteúdos e canais golpistas nas redes sociais, incluindo o YouTube. Além da política interna, a plataforma tem acordos com o tribunal, que reporta conteúdos problemáticos. Uma resolução publicada em 20 de outubro estabeleceu que conteúdos idênticos aos que já haviam sido proibidos podem ser retirados sem a necessidade de ação judicial, medida tomada para dar mais rapidez às remoções.

Por meio de sua assessoria de imprensa, o YouTube disse ao Intercept que coibir desinformação e teorias da conspiração prejudiciais “é um desafio porque o conteúdo está sempre mudando e evoluindo” e que, por isso, atualiza continuamente suas políticas. “O YouTube não tem nenhum interesse em manter no ar conteúdo polêmico ou desinformativo, uma vez que corrói a confiança do público e dos anunciantes em nosso trabalho, além de não ter bom desempenho (sobretudo quando comparado a conteúdos mais populares, como música ou comédia)”, disse a empresa.

O YouTube disse ainda que fez “investimentos significativos para garantir a remoção rápida de conteúdo que viole as diretrizes de comunidade”. Isso inclui investimentos em aprendizagem de máquina, que garante a remoção de conteúdo em escala, e “a contratação de milhares de revisores humanos em diversas partes do mundo, que trabalham em escala de 24 horas por dia, sete dias por semana”. A empresa não respondeu, no entanto, quantos desses revisores atuam no Brasil especificamente.

O Google, responsável pelo YouTube, e a Meta, dona do Facebook, foram as empresas que mais lucraram com campanhas políticas em 2022, segundo dados do TSE. Em menos de três meses, só o Google embolsou mais de R$ 122 milhões em anúncios políticos. A campanha de Jair Bolsonaro foi a maior anunciante: foram R$ 27,9 milhões despejados na empresa no período eleitoral.