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O presidente e candidato derrotado à reeleição Jair Bolsonaro ao lado do empresário e apoiador Vittorio Medioli.

Foto: Facebook.

Já virou quase uma tradição. Toda vez que se encerra a apuração de uma eleição presidencial em que o PT sai vencedor, inicia-se uma onda de ataques preconceituosos contra o povo nordestino. E não são apenas ataques de pessoas comuns na internet, mas de políticos e jornalistas do mainstream.

Em 2014, inconformado com a reeleição de Dilma e sua votação maciça na região Nordeste, FHC afirmou que a petista se elegeu graças aos “menos informados” dos “grotões” do país. Segundo ele, o estado de São Paulo é diferente, mais bem informado, e por isso o seu partido teve a maioria dos votos.

Ainda em 2014, em meio à apuração, a jornalista Leilane Neubarth da GloboNews escreveu no Twitter: “Em São Paulo Dilma tem até agora 25% dos votos, já no Piauí ela tem 71% dos votos. Isso dá o que pensar…..”. Em um ambiente político em que se culpava os estados do Nordeste pela reeleição de Dilma, não é difícil imaginar o que fez a jornalista pensar.

Naquela eleição, os “mais bem informados” de São Paulo – e de outros estados que não são considerados “grotões” – elegeram o Congresso mais conservador desde 1964. Nunca havia sido eleito um parlamento com tantos militares, religiosos e ruralistas. É o mesmo Congresso que dois anos depois rasgaria a Constituição para derrubar Dilma e prepararia o terreno para o nascimento do neofascismo bolsonarista na política brasileira.

Oito anos se passaram, mas os ataques ao povo nordestino continuam sem freio. E, mais uma vez, a xenofobia não partiu apenas de bolsominions alucinados na internet. O ataque mais virulento veio do prefeito de Betim, cidade da região metropolitana de Belo Horizonte. Vittorio Medioli, que apoiou Bolsonaro de maneira entusiasmada durante a campanha, usou sua coluna no jornal mineiro O Tempo, do qual é dono, para fazer um ataque xenofóbico disfarçado de análise bem elaborada.

Ao final da eleição, ele constatou que existem “dois Brasis”: “um que produz mais e arrecada impostos, e outro, paradoxalmente mais carente, que vive das transferências. Dessa forma, a divisão territorial, por meio de um ‘divórcio consensual’, está com suas sementes se espalhando”.

Medioli acredita que o resultado das eleições “ampliou o inconformismo dos que produzem muito e se consideram submissos à decisão de estados mais distantes do centro da produção industrial”. O prefeito mineiro apontou não apenas as diferenças políticas e econômicas entre o Nordeste e o “Brasil que produz mais”, mas fez questão também de ressaltar as diferenças nos costumes. “Há nítidas divergências de pensamentos, costumes e opiniões, agravadas pelas maciças transferências de renda entre Unidades da Federação”.

Depois dessas observações ultrajantes, Medioli colocou a proposta separatista sobre a mesa: “Separar, portanto, é avaliado como alternativa para se desfrutar de rendas regionais próprias que, no formato de hoje, dividem-se em nome da equidade nacional”. Ele deixa suas intenções separatistas mais claras ao concluir que “a única solução para resgatar a legitimidade ameaçada” é “dar a Lula o que é de Lula e a Bolsonaro o que é de Bolsonaro”.

A ideia, claro, não faz sentido nem sob os critérios estabelecidos por Medioli. Os eleitores do estado de Minas Gerais e da cidade de São Paulo, locais considerados por ele como parte do país “que produz e paga impostos”, deram a vitória para Lula. Talvez seja o caso também de separar Betim – cidade em que Bolsonaro venceu – do resto de Minas Gerais, não é mesmo?

Vittorio Medioli não é um bolsominion qualquer. É um italiano naturalizado brasileiro que nasceu em berço de ouro e veio morar no Brasil aos 25 anos. Diferentemente da maioria dos imigrantes italianos, Medioli já chegou ao país como um empresário milionário, fundando em Betim a Sada Transportes e Armazenagem, empresa que hoje é responsável por transportar os carros novos da Fiat e de montadoras do ABC paulista. O empresário chegou a dominar 55% do mercado de logística de automóveis no país.

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Vittorio Medioli posa ao lado dos senadores do PL Carlos Viana e Flávio Bolsonaro e do ex-ministro da Casa Civil de Jair, o general da reserva Walter Braga Netto.

Foto: Facebook.

Nos anos seguintes, os negócios foram aumentando e se diversificando. Hoje, Medioli possui mais de 30 empresas em diferentes ramos da economia, como transporte de cargas, fabricação de autopeças, venda de veículos, agricultura, produção de biocombustíveis, logística, siderurgia e imprensa. Essas empresas compõem o grupo Sada, comandado também por sua esposa e suas duas filhas.

Não satisfeito com todo esse poder financeiro acumulado, Medioli entrou para a política, tendo sido eleito quatro vezes seguidas para deputado federal. No quarto mandato, foi o candidato mais votado pelo PSDB em Minas Gerais e o quarto mais votado do estado.

Na campanha para a prefeitura de Betim, Medioli surfou na onda antipolítica. Apesar de ter sido deputado por quatro mandatos seguidos, emulou João Doria e se apresentou não como político, mas como gestor. Hoje, Medioli é, sem sombra de dúvidas, um dos homens mais poderosos e ricos do estado mineiro. Em 2020, ele declarou ao TSE um patrimônio de R$ 350 milhões.

O jornal O Tempo e outros veículos de comunicação do qual é proprietário são usados por ele para fazer politicagem. Além de historicamente atacar seus adversários políticos no estado, o jornal O Tempo tem se dedicado a impulsionar o bolsonarismo, principalmente durante a última campanha eleitoral. Entre o primeiro e o segundo turno, Medioli fez uma série de questionamentos descabidos sobre as urnas eletrônicas em sua coluna, com a clara intenção de engrossar o golpismo de Bolsonaro.

No texto em que pregou a separação do Nordeste, Medioli já havia defendido os golpistas que foram para frente dos quartéis: “Com exceção do Nordeste, milhões de pessoas se aglomeram em frente aos quartéis do Exército procurando alternativas ao que não querem. Não se conformam, pois esperam viver em um Estado mais liberal do ponto de vista econômico e garantidor do que chamam de ‘ordem e do progresso’”.

Na mesma época em que Bolsonaro foi acusado de pedofilia por dizer que “pintou um clima” entre ele e meninas de 14 anos, o jornal O Tempo publicou manchetes como essa:

Para Medioli, Bolsonaro é um “presidente honesto, que varreu a corrupção do Brasil. Corrupção essa que tira comida da mesa do povo”. O curioso é que esse valoroso ítalo-brasileiro “que produz”, paga impostos e defende a moral e os bons costumes dos sudestinos tem um currículo marcado por acusações e condenações de corrupção.

Em 2015, a Justiça Federal condenou Medioli a cinco anos e cinco meses de prisão pelos crimes de evasão de divisas e manutenção clandestina de depósitos no exterior. Os crimes foram apurados pela Operação Colina, um desdobramento do caso Banestado, em que se investigou a evasão de 30 bilhões de dólares de políticos para o exterior entre 1996 e 2002. Segundo a denúncia, Medioli enviou um total de 595 mil dólares para o exterior por meio de um doleiro, sem informar às autoridades competentes.

A grana transitava ilegalmente por contas no exterior para, finalmente, ser depositada em um banco na Suíça em que Medioli possuía conta – uma prática cliché de ricos gananciosos. Na sentença condenatória, a juíza destacou que o motivo do crime era o “enriquecimento fácil” e que as circunstâncias revelaram “audácia e indiferença do acusado”.

No ano passado, a condenação à prisão foi confirmada pela justiça. Mas, neste ano, o TRF-1 extinguiu a punição por prescrição. Além dessa condenação, Medioli foi acusado também de formação de cartel e de quadrilha no setor de transporte de veículos novos. Segundo o site Livre Concorrência, veículo especializado na cobertura da formação de cartéis no Brasil, Medioli é apontado como o chefe de um cartel que controla mais de 90% do setor de transporte de veículos novos. Esse é o Brasil “que produz”!

O separatismo é uma ideia antiga, difundida especialmente por racistas da região Sul, que desejam se separar do resto do Brasil. Há movimentos separatistas também em São Paulo, que exaltam o passado dos bandeirantes — os assassinos e estupradores de pretos escravizados e de povos indígenas — e defendem a ideia de que o estado paulista é que “carrega esse país nas costas”.

Os movimentos separatistas dentro do Brasil são invariavelmente marcados por xenofobia e racismo. Essas ideias não são levadas a sério pela maioria da população dessas regiões e, por enquanto, não têm força suficiente para se impor. Mas quando um milionário influente na economia, na política e na imprensa do segundo estado mais populoso do país trata a separação como uma possibilidade real, não há como duvidar que a coisa pode escalar.

Medioli nasceu na Itália, multiplicou sua fortuna no Brasil e agora propõe fatiar o país por não se conformar com a derrota eleitoral da extrema direita. Ele não é um empresário excêntrico e falastrão como Luciano Hang, nem um político bronco como Bolsonaro. É um homem culto, com fala mansa e pose de moderado, mas que não se acanha na hora de colocar todo seu poderio político e financeiro em defesa dos ideais mais reacionários. Xenofobia é um crime passível de cadeia. Ou o país começa a punir ideias xenófobas ou normalizaremos de vez o preconceito e o ódio contra o nordestino a cada quatro anos.