Começarei por uma reminiscência profissional.

Certa vez viajei a uma cidade do sertão baiano situada às margens do Rio São Francisco para entrevistar um juiz acusado de assediar sexualmente funcionárias do gabinete e ter despesas bancadas pelas prefeituras da região.

Antes de encontrá-lo, passei dias entrevistando mulheres que foram submetidas a recorrentes episódios de assédio sexual e checando seus relatos com de testemunhas, além de obter provas de que ao menos um prefeito pagava a feira do juiz. Havia ainda fortes indícios de que cestas básicas doadas por condenados em processos de pequena monta eram surrupiadas por ele.

O magistrado me recebeu tarde da noite em sua casa, que era guardada por policiais fortemente armados — ele dizia  ser ameaçado por traficantes locais. Levou meu colega fotógrafo e a mim a um pequeno escritório que mais se assemelhava a um cativeiro.

Naquele espaço exíguo, se sentou de frente pra mim. Estávamos muito próximos um do outro. Ele não permitiu ser fotografado e meu colega acabou sendo testemunha de uma entrevista no mínimo curiosa. Enquanto eu fazia perguntas sobre as acusações, o juiz me dava tapinhas supostamente amistosos nas minhas pernas. “Seu Flávio, você vai publicar isso mesmo?”, ele me perguntava.  Eu respondia que sim e emendava com outra pergunta.

Eu publiquei a reportagem dias depois. O juiz me processou, mas sua ação não foi adiante. Passaram alguns meses e ele foi condenado administrativamente pelo Tribunal de Justiça da Bahia e recebeu como pena uma aposentadoria compulsória. Condenação esquisita, eu sei, afinal ser condenado a parar de trabalhar com vencimentos bem acima dos padrões do brasileiro médio não é lá exatamente uma coisa ruim. Na época, eu contornei minha irritação ao perceber  que ao menos o juiz tinha perdido o poder que lhe auferia a toga, de usar seu cargo público para ter acesso a regalias e assediar mulheres. Era uma pequena vitória.

Conto esta anedota pessoal porque quando fui convidado a dirigir a redação do Intercept Brasil, percebi que iria trabalhar com colegas que também não negociam seus princípios para exercer a missão principal do jornalismo investigativo: fiscalizar o poder, os poderosos e interferir para melhorar a realidade. É nisso que acredito e sempre acreditei, desde meu começo de repórter.

O fim do governo de Jair Bolsonaro não torna nosso trabalho mais fácil daqui para  frente. Na verdade, impõe outras dificuldades. Bolsonaro e sua trupe não são a causa dos males nacionais.  São sintomas. Graves sintomas. É preciso investigar e revelar todos os malfeitos cometidos por um governo de fascistas, que apenas não deram um golpe de estado por falta de oportunidades.

Bolsonaro legou ao país um quadro institucional deteriorado, promoveu uma destruição ambiental e alimentou com gosto um movimento nazista que cada vez mostra suas caras.  Armou o crime organizado, promoveu a fome e negligenciou o combate à pandemia do coronavírus. Ainda há muito a ser descoberto sobre os quatro anos em que Jair assolou o país e o jornalismo independente terá um papel preponderante.

Assim como terá um papel essencial no governo de Lula: na defesa dos direitos da população negra e indígena; nos direitos das mulheres; na luta pela preservação ambiental e no combate à fome e na aplicação de políticas públicas que busquem diminuir a nossa imensa desigualdade social. Fiscalizaremos e investigaremos não só os atos do executivo nacional. Estaremos atentos ao que se passa no Congresso e no Judiciário e não esqueceremos dos donos do dinheiro.

Nossa redação trabalhará em 2023 com a independência que é essencial para o bom jornalismo, elogiada e reconhecida por nossos leitores. Aos tapinhas nas pernas e as perguntas intimidatórias, a resposta será sempre a mesma: “sim, vamos publicar”.

E faremos a próxima pergunta.