coluna-cecilia-bsb-header

Ilustração: The Intercept Brasil; Getty Images

Eu sabia, você provavelmente sabia, pesquisadores sabiam, quem acompanha grupos de bolsonaristas no Telegram sabia: havia atos golpistas marcados para o fim de semana dos dias 7 e 8 de janeiro. A pergunta é: como e por que os terroristas conseguiram executar um plano público de invasão ao centro do poder do país, sem nenhum problema?

A inação, ingerência e omissão das autoridades do Distrito Federal são cristalinas. Enquanto o ex-ministro da Justiça e agora ex-secretário de Segurança Pública do Distrito Federal, Anderson Torres, estava nos EUA, terroristas depredavam o Supremo Tribunal Federal, o Congresso e o Palácio do Alvorada. Em questão de horas, ele foi exonerado pelo governador emedebista Ibaneis Rocha, que, logo em seguida, foi afastado do cargo pelo Supremo por ao menos 90 dias.

Mas o problema não se restringe a eles.

A Folha de S.Paulo noticiou que a Abin, a Agência Brasileira de Inteligência, avisou ainda no sábado, dia 7, que havia risco de violência. Os informes foram distribuídos para 48 órgãos em 16 ministérios e alertavam sobre o aumento expressivo no número de ônibus fretados e as constantes convocações de invasão a prédios públicos, “principalmente na Esplanada dos Ministérios”. Já a jornalista Andrea Sadi afirmou que os avisos sobre as invasões foram feitos às autoridades do Distrito Federal entre 9h e 10h da manhã de domingo. Fato é que isso é muito, mas muito tarde.

O presidente em exercício do Senado, Veneziano Vital do Rego, do MDB, disse em entrevista coletiva que a polícia legislativa estava apreensiva, mas recebeu a informação de um dos secretários de Ibaneis de que não era preciso se preocupar, uma vez que “toda a situação estava plenamente sob controle”.

Vital disse ainda que conversou por telefone com Gustavo Rocha, secretário-chefe da Casa Civil do Distrito Federal, por volta das 9h30 de domingo, e que ele lhe assegurou que “tudo iria transcorrer perfeitamente bem”, e concluiu: “Não ei de imaginar que o secretário Gustavo Rocha desdenha esse momento que tivemos ao telefone”. Ao ver o caldo ferver, o senador tentou contato novamente no início da tarde, mas, segundo ele, o secretário não mais o atendeu.

Dino afirmou não ter os meios ‘ideais’ para lidar com os ataques pela situação de anormalidade institucional.

Também em entrevista, o ministro da Justiça, Flávio Dino, do PSB, disse que devíamos agradecer a Deus por não termos repetido o que houve na invasão do Congresso dos EUA em janeiro de 2021, se referindo às cinco mortes ocorridas no Capitólio. Ao mesmo tempo, frisava ter agido com os meios disponíveis, embora eles não fossem os “ideais, por várias razões. Entre as quais, nós não estamos operando em uma situação de normalidade institucional”. Não aprendemos nada com o ocorrido nos EUA dois anos antes? Por que estamos seguindo o mesmo roteiro e falhando?

Na mesma coletiva, Andrei Rodrigues, delegado que comanda a Polícia Federal, disse que nos dias 6 e 7 se reuniu com autoridades do Distrito Federal, o que lhes deu “tranquilidade e segurança”, uma vez que, durante a cerimônia de posse, não houve problemas. A comparação é esdrúxula, uma vez que não havia manifestações bolsonaristas marcadas para tal data. O objetivo da reunião, onde havia secretários e representantes dos bombeiros, das polícias civil e militar, do Detran etc., era traçar um plano de segurança para os atos – que já estavam previstos.

Como então a PM, que esteve nessa reunião, escoltou os terroristas até o Planalto e os guiou dentro do palácio?

Quem mentiu? Quem omitiu informações? Onde houve falhas? Porque houve, várias, e precisamos entender onde, quando e como – e, principalmente, de quem é a responsabilidade pelo custo da destruição de nosso patrimônio e dos danos à nossa democracia.

O GSI, o Gabinete de Segurança Institucional da Presidência, órgão ao qual a Abin responde e que é responsável pela segurança do Planalto, dispensou reforço da guarda presidencial 20 horas antes da invasão. Curiosamente, ninguém do GSI esteve em entrevistas coletivas após os atos.

Por que a Abin demorou tanto a avisar os órgãos sobre movimentações atípicas? Onde esteve o ministro da Defesa, José Múcio Monteiro, responsável pelas Forças Armadas, cujos membros foram vistos entre os bárbaros e apoiando os golpistas?

Concordo com Rosana Pinheiro Machado: o fracasso do golpe não vai enfraquecer o movimento.

Os bolsonaristas Ibaneis e Torres sabiam da dimensão dos planos? Dino deveria ter confiado piamente que bolsonaristas enfrentariam seus parceiros? Porque o ministro assinou no sábado o decreto para a utilização da Força Nacional de Segurança para evitar protestos na Esplanada, mas não as acionou no domingo?

Passadas mais de 24 horas da quebradeira em Brasília, cerca de mil pessoas haviam sido presas. Quase metade delas foi solta por “razões humanitárias” logo em seguida. O grupo liberado era composto por mulheres, crianças e idosos.

Respostas precisam ser firmes

Além de afastar Ibaneis do cargo, o STF determinou a prisão de Anderson Torres e do ex-comandante da PMDF, coronel Fábio Augusto Vieira. O Ministério Público Federal pediu ao Supremo que Ibaneis, Torres, Augusto e Fernando Oliveira, secretário interino de Segurança Pública, sejam investigados em um novo inquérito para apurar omissões. A Marinha demitiu Vilmar José Fortuna, capitão que participou dos atos terroristas. Além disso, empresários do agronegócio, comerciantes e CACs foram identificados como financiadores dos golpistas.

Porém, ainda há mais perguntas que respostas diante desses crimes. Dino e Múcio saem arranhados desta situação.

Escrevi, ainda em 2022, uma coluna dizendo que atos terroristas seriam um enorme desafio no governo Lula. Queria muito estar errada, mas os fatos nos impõem a realidade. Lula e Flávio Dino estão enfrentando militares que não se atêm às suas funções constitucionais e PMs que flertam com o bolsonarismo radical. Exatamente por isso, me estranha muito essa confiança em bolsonaristas. O papel das polícias e das Forças Armadas precisa ser discutido com profundidade, e os organizadores e financiadores dos atos precisam ser exemplarmente punidos.

Dino escolheu um interventor que conhece pouco da dinâmica e as instituições policiais da segurança da capital federal. E o novo comandante da PMDF é o tipo de bolsonarista que chama pessoas de esquerda de “vermelhos”.

Dino disse na tal coletiva que tudo se “caminha para absoluta normalidade com muita velocidade”. Eu queria compartilhar dessa fé, mas tendo a concordar com a antropóloga e pesquisadora da extrema direita Rosana Pinheiro Machado, que diz não estar entre os analistas que acham que o fracasso do golpe vai enfraquecer o movimento. “Infelizmente, estou entre aquelas pessimistas (há dez anos e, infelizmente, com alguma razão) que acha que isso só fortaleceu. Como sempre, adoraria estar errada”.

Eu também.

Correção: 13 de janeiro, 10h17
Em uma versão anterior deste texto, escrevemos que o STF pediu a prisão de Anderson Torres. Na verdade, o STF determinou a prisão após pedido da Advocacia-Geral da União, a AGU.