_Notas

  • 14 de Novembro de 2022, 14h32

    OAB decide que curso de advogada sobre violência obstétrica não é ataque a médicos

    14 de Novembro de 2022, 14h32

    Protesto de mulheres contra a violência obstétrica e sexual, ao lado do hospital em que o médico Giovanni Quintella Bezerra estuprou uma paciente na cidade de São João de Meriti, no Rio de Janeiro.

    Foto: Eduardo Anizelli/Folhapress

    A Ordem dos Advogados do Brasil decidiu arquivar uma ação movida em março deste ano pela presidente do Conselho Regional de Medicina de São Paulo, o Cremesp, contra a advogada Letícia Siquelli Monaco por oferecer cursos sobre violência obstétrica. Para Irene Abramovich, as aulas que ensinavam mulheres a se defenderem de violações na gravidez e no parto tinham como objetivo “instigar as mulheres a denunciarem os médicos” e, por isso, a OAB deveria tomar “as providências cabíveis” contra a profissional.

    Em resposta a uma nota do Intercept sobre o assunto, o Cremesp afirmou que o uso da expressão violência obstétrica, por si só, seria uma agressão aos médicos, seguindo o entendimento misógino do Conselho Federal de Medicina, o CFM. “O termo é inapropriado e deve ter seu uso abolido, visto que estigmatiza a prática médica e interfere de forma prejudicial na relação médico-paciente”, afirmou o órgão liderado por Abramovich.

    Denunciada ao Tribunal de Ética e Disciplina da OAB-SP, Monaco conseguiu o apoio de 1.016 colegas de profissão em um abaixo-assinado em repúdio à ação do Cremesp, anexado como parte de sua defesa. “Obviamente, nós advogadas e advogados temos o dever de defender todas as mulheres”, diz o documento, ressaltando que isso “faz parte do juramento que fazemos quando nos tornamos profissionais do direito”.

    A defesa de Monaco lembra que não só a OAB, como a ONU, a Organização Mundial da Saúde e a Organização dos Estados Americanos são unânimes no reconhecimento da violência obstétrica como uma violação de direitos humanos. E frisa então que, enquanto especialista em violência contra a mulher, a advogada tem o dever de “trabalhar de todos os modos para reduzir e erradicar tal prática violenta e repugnante” – um abuso que, na gestão de Jair Bolsonaro, chegou a ser incentivado pelo próprio Ministério da Saúde, como mostrou o Intercept em maio.

    “Entendemos como deve ser desagradável um órgão de classe como o Conselho Federal de Medicina e seus Conselhos Regionais assistirem, de tempos em tempos, as condutas muitas vezes criminosas de seus membros e que chocam a sociedade”, prossegue o documento, citando uma resolução do próprio CFM que afirma caber aos conselhos de medicina disciplinar a conduta dos profissionais. Para a defesa, a ação do Cremesp “representa a busca de censura” da advogada “na defesa dos direitos humanos das mulheres”.

    Analisando a representação, a Comissão de Ética e Disciplina decidiu por seu arquivamento, considerando que é função do advogado “informar os direitos que a população possui” e que Monaco busca “claramente” fazer isso, não tendo cometido qualquer infração. “Profissionais que incorrem em erros devem, sim, ser investigados por seus respectivos conselhos de classe”, escreveu o assessor da comissão Rubens Capistrano Cacais, destacando que a premissa “se estende aos médicos também”.

  • 10 de Novembro de 2022, 17h51

    Algoritmo do YouTube privilegiou canais da Jovem Pan durante as eleições, diz novo estudo

    10 de Novembro de 2022, 17h51

    Divulgação/Jovem Pan

    Se você procurou por conteúdos relacionados às eleições no buscador do YouTube recentemente, é possível que você tenha sido manipulado pelo algoritmo a consumir os canais da Jovem Pan. É o que mostra um estudo inédito feito pelos pesquisadores João Guilherme Bastos do Santos, analista de dados com pós-doutorado pelo Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia, e Guilherme Felitti, fundador da Novelo Data, empresa de análise de dados.

    A pesquisa encontrou indícios de que a plataforma mudou o algoritmo para privilegiar conteúdos de órgãos oficiais, como o canal da Justiça Eleitoral, mantido pelo Tribunal Superior Eleitoral, no topo dos resultados. Isso parece positivo. Mas acontece que, depois de assistir a um desses vídeos de fonte confiável, o usuário acaba caindo em conteúdos que espalham desinformação e atacam o sistema eleitoral. “As recomendações de vídeos sobre o tema eleições tendem a beneficiar majoritariamente vídeos de canais da Jovem Pan”, diz o estudo.

    Para levantar os dados, os pesquisadores extraíram resultados de busca do YouTube para 14 termos específicos: urnas eletrônicas, 7 de setembro, urna auditável, voto auditável, TSE, voto impresso, STF, Alexandre de Moraes, Barroso, Fachin, artigo 142, poder moderador, militares e pandemia.

    Santos desenvolveu um código que cruza todas as recomendações para os vídeos. Ele explica que o YouTube produz “clusters”, que são conjuntos de vídeos que ficam se recomendando mutuamente, fazendo com que cada usuário possa ter uma “comunidade” com perspectiva específica lá dentro, ignorando a maioria dos vídeos fora dela. “Nesse sentido, encontramos uma única comunidade em que [o canal da] Justiça Eleitoral é forte. As pessoas nesse grupo de vídeos recebem várias recomendações para outras comunidades dominadas pela Jovem Pan”, ele explicou ao Intercept.

    A emissora usa o YouTube como um terreno fértil para seus programas e tem diversos canais na plataforma, como o Jovem Pan News, com seis milhões e meio de assinantes, o Morning Show e Os Pingos nos Is. É isso que cria uma espécie de bola de neve. “Trata-se do efeito ‘máquina de lavar': o usuário fica lá rodando, ganhando novas recomendações de canais”, aponta a pesquisa.

    Em um estudo publicado em setembro, o NetLab, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, mostrou que a plataforma, além de privilegiar conteúdos da Jovem Pan, também beneficiava vídeos pró-Bolsonaro. Apesar de terem metodologias diferentes, essas duas pesquisas recentes chegam a conclusões parecidas: independente se o usuário consome conteúdo da home, dos resultados de buscas ou das recomendações após assistir um vídeo, a plataforma tende a beneficiar conteúdos da Jovem Pan.

  • 4 de Novembro de 2022, 16h43

    Pastores evangélicos participaram e mobilizaram fiéis para atos golpistas contra Lula

    4 de Novembro de 2022, 16h43

    Bolsonaristas fazem atos antidemocráticos Brasil afora desde a derrota do presidente no último domingo, dia 30.

    Foto: Jardiel Carvalho (F)/Folhapress

    Vestindo camisa da Seleção Brasileira e blusa militar camuflada, o pastor Haroldo Alves surgiu à frente de um grupo que gritava “Forças Armadas, agora é com vocês”. O pastor não apenas engrossou o coro dos insatisfeitos com a vitória de Lula em frente ao Comando Militar do Leste, no Rio de Janeiro, na quarta-feira, dia 2 – ele também convocou os fiéis para irem às ruas.

    “Você que é patriota, cidadão ordeiro, não pode ficar em casa, não pode ficar no muro. Vai pra rua. Vai buscar aquilo que roubaram de você, que roubaram do Brasil”, conclamou Alves em sua página no Facebook. Ele é ligado ao pastor Samuel Câmara, um dos principais líderes da Assembleia de Deus ramo Belém e fundador da Convenção da Assembleia de Deus do Brasil, a maior do país. Carlos Cruz, pastor da Igreja Memorial do Catumbi, militante do PTB e ligado ao ex-deputado Roberto Jefferson – preso após atacar a tiros agentes da Polícia Federal – também deu as caras por lá, segundo religiosos.

    Prints do perfil de Facebook do pastor Haroldo Alves.Imagens: Reprodução/Facebook

    Não foi só no Rio de Janeiro. Em vários pontos do Brasil, líderes de igrejas evangélicas mobilizaram seus fiéis e engrossaram os atos golpistas em frente a quartéis e repartições militares para questionar a vitória de Lula e pedir a intervenção das Forças Armadas. Os líderes não fizeram questão de esconder sua participação: Haroldo Alves, os presbiterianos Ludgero Bonilha de Morais e Ageu Magalhães e o apóstolo Rodrigo Salgado, da Igreja do Evangelho Pleno em Cristo, divulgaram os atos em suas redes sociais.

    O reverendo Ageu Magalhães, um dos principais líderes da Igreja Presbiteriana do Brasil, a IPB, e Rodrigo Salgado participaram do ato em São Paulo, em frente ao Comando Militar do Sudeste, no Parque do Ibirapuera. Outro líder que ocupou altos cargos na IPB, o pastor Ludgero Bonilha de Morais, apareceu em frente ao quartel do Exército em Uberaba, Minas Gerais, em vídeo na internet, pedindo “intervenção federal já” e dizendo que a “eleição foi roubada”.

    Posando em frente ao Monumento às Bandeiras, no Ibirapuera, Ageu Magalhães se justificou nas redes sociais: “nunca fui da isentosfera e sempre assumi posição”, afirmou, defendendo que houve fraude na eleição. Em 2018, o reverendo já havia dito que Lula teria sido “o protagonista do maior esquema de corrupção da história do Brasil” e defendeu o voto em Bolsonaro alegando que ele estaria “alinhado às questões morais que têm sido atacadas”. Declarou ser contra o aborto, a descriminalização das drogas, a “ideologia de gênero” e uma suposta “agenda impositiva do movimento LGBT”.

    Magalhães dirige o Seminário Teológico Presbiteriano e foi um dos responsáveis pelo afastamento da IPB do teólogo e presbítero Flávio Macedo Pinheiro, em fevereiro de 2021. A punição foi aplicada porque Pinheiro criticou Bolsonaro e defendeu, entre outras posições, que mulheres não devem ser consideradas inferiores aos homens, direitos para a comunidade LGBT, a descriminalização do aborto e da maconha e as ideias do educador Paulo Freire. Pinheiro foi chamado de comunista. Em agosto, a cúpula da igreja também impôs uma série de restrições a um grupo de mulheres da IPB. Elas foram proibidas de pregar em cultos solenes e distribuir a Santa Ceia.

    O Intercept enviou mensagens e fez contatos telefônicos para localizar os cinco religiosos, mas nenhum atendeu ou retornou.

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