_Notas

7 de Junho de 2022, 20h35

Selva?! Com 48 horas de atraso, foi assim que o Exército buscou Bruno Pereira e Dom Philips hoje

Buscas após desaparecimento mostram um Exército despreparado – ou desinteressado.

7 de Junho de 2022, 20h35

Foi só nesta terça pela manhã que o Exército anunciou o deslocamento de um ou dois barquinhos com soldados que se juntaram às buscas pelo indigenista Bruno Araújo Pereira e o jornalista Dom Phillips. Àquela altura, já haviam decorrido 48 horas do desaparecimento deles nalgum ponto do rio Itacoaí entre a comunidade ribeirinha de São Rafael e a cidade de Atalaia do Norte, no Amazonas.

Até esta manhã, não havia efetivo do Exército na região, segundo as organizações de proteção aos indígenas que estão atuando nas buscas. No começo da tarde, era assim que o Comando Militar da Amazônia estava operando as buscas, segundo o próprio Exército divulgou:

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Segundo o Exército, a 16º Brigada de Infantaria de Selva “mobilizou equipes de especialistas em operações na selva”.

Comando Militar da Amazônia

No começo da tarde – mais de 50 horas após o desaparecimento – o Exército atualizou a nota, informando que havia finalmente enviado um helicóptero de Manaus a Tabatinga para ajudar a Polícia Federal nas buscas. Às constrangedoras fotos da meia dúzia de militares na lancha foram adicionadas outras, com a aeronave.

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No começo da tarde, Exército atualizou a nota com novas fotos da aeronave. Segundo os militares, ela estava sendo deslocada de Manaus para Tabatinga.

Comando Militar da Amazônia


Ontem, o Comando Militar da Amazônia, o CMA, disse a jornalistas que cobraram sua participação nas buscas que “está em condições de cumprir missão humanitária de busca e salvamento, como tem feito ao longo de sua história”. Mas pontuou que “as ações serão iniciadas mediante acionamento por parte do Escalão Superior”.

Em português claro, a nota diz o seguinte: “Temos plenas condições de ajudar. Só não queremos”.

O CMA, é bom frisar, é a menina dos olhos do general de pijamas linha dura Augusto Heleno, ministro do Gabinete de Segurança Institucional. Também foi comandado por Eduardo Villas Bôas, que saiu dali para chefiar todo o Exército em 2015. Estrategista de Twitter, Villas Bôas foi o grande responsável pela eleição de Jair Bolsonaro, segundo o próprio presidente.

O tal ‘Escalão Superior’, imagina-se, são os generais barrigudos dados a demonstrações constrangedoras de masculinidade – como gritar “SELVA!” no conforto de seus gabinetes com ar-condicionado em Brasília. Pelo visto, eles não viram urgência no caso. A nota sobre o deslocamento dos dois barquinhos é de hoje cedo, às 9h55. 48 horas após Bruno e Dom desaparecerem.

Faz parte do CMA o 8° Batalhão de Infantaria de Selva, o Comando de Fronteira Solimões. Sediado em Tabatinga, a maior cidade da região, ele tem poder de polícia na faixa de fronteira e autonomia para atuar sem autorização do “Escalão Superior”, segundo o coronel Marcelo Pimentel, um raro oficial da reserva que condena a aliança espúria entre o Exército e o bolsonarismo. Tabatinga, como Atalaia do Norte, está na fronteira do Brasil com a Colômbia e o Peru. Por isso, além de conviver com a habitual cobiça de madeireiros e garimpeiros por terras indígenas e a floresta, a região também é rota do narcotráfico internacional.

Coisa de uma hora atrás, o jornalista britânico Jonathan Watts, editor do jornal britânico The Guardian, postou o seguinte: “Informações vindas do Vale do Javari falam em ZERO apoio dos militares e da polícia brasileiros nas buscas de hoje por Dom Phillips e Bruno Pereira”.

O CMA diz ser “a força do povo brasileiro protegendo a Amazônia”. A julgar pelas últimas 48 horas, não havia um único helicóptero à disposição para “proteger a Amazônia”, como observou um especialista em coberturas em terras indígenas, o repórter Rubens Valente. Ou simplesmente mandaram que ele ficasse em terra – no governo Bolsonaro, é difícil excluir hipóteses desumanas.

Se for esse o caso, a conclusão inescapável será a de que o Exército está fazendo tanto para localizar Bruno e Dom quanto fez para evitar que criminosos se sintam à vontade para agir e matar na Amazônia.

Entramos em contato com o Exército para saber qual era o efetivo total e sobre o uso de aeronaves na operação. Nosso pedido foi encaminhado para o CMA, que não retornou até o fechamento deste texto.

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