Foto: Reprodução

Os computadores que registram a chegada de visitantes na Câmara de Vereadores do Rio marcavam 12h09 na quarta-feira, 7 de março, quando Cristiano Girão Matias entrou por uma porta lateral. No passado, entre janeiro e dezembro de 2009, a Casa chegou a fazer parte da sua rotina. Até ele ser preso, sob a acusação de chefiar uma milícia em Jacarepaguá, na Zona Oeste da cidade. Em outubro de 2010, após quase um ano atrás das grades, a mesa diretora cassou o seu mandato – não pelos crimes dos quais é acusado, mas por excesso de faltas. E não houve mais notícia de que ele tivesse aparecido de novo na sede do Legislativo carioca.

The Intercept Brasil teve acesso à imagem que mostra o rosto de Girão no momento em que ele entrou no prédio na última semana. Na recepção, o destino informado pelo visitante – condenado por formação de quadrilha – foi o gabinete da Presidência da Câmara. O ex-vereador, porém, ainda esteve no sétimo andar, onde ficam as salas do pessolista David Miranda e de Zico Bacana (PHS) e Chiquinho Brazão (MDB) – este último irmão do ex-conselheiro do Tribunal de Contas do Estado, Domingos Brazão, preso pela Operação Quinto do Ouro, em março do ano passado.

Registro mostra gabinete da Presidência da Câmara como destino de Girão

Registro mostra gabinete da Presidência da Câmara como destino de Girão.

Foto: Reprodução

A presença de Girão na Câmara é especialmente emblemática diante do assassinato de Marielle Franco. Em 2008, a combativa vereadora morta brutalmente nesta quarta-feira trabalhou ativamente na CPI das Milícias, como assessora do deputado Marcelo Freixo. A Comissão indiciou 226 pessoas – entre elas Cristiano Girão. Freixo ainda se desloca com seguranças por causa daquele período. Enquanto a Casa perdia uma guerreira contra os paramilitares, o miliciano ressurgia das cinzas e voltava a circular nos corredores e gabinetes.

Outro desafeto do miliciano morto na mesma noite

Na mesma noite em que Marielle foi morta, outro personagem ligado a Girão foi assassinado. A ex-mulher do miliciano – a funkeira Samantha Miranda – e seu marido, Marcelo Diotti da Mata, foram alvejados por tiros de fuzil no estacionamento de um restaurante na Barra da Tijuca. Há nove meses, o casal já havia sofrido uma tentativa de homicídio na mesma região. Samantha, então, acusou o ex-vereador de ter contratado um homem para matá-los.

Marcelo da Mata desta vez não escapou. O empresário levou dois tiros e morreu no local. A mulher conseguiu fugir. Pela segunda vez em depoimento à Divisão de Homicídios, ela voltou a acusar o ex-marido miliciano. Sob intervenção federal, as investigações na DH seguem em sigilo.

Contactado por WhatsApp, o deputado Marcelo Freixo disse saber que o miliciano estava em liberdade, mas demonstrou surpresa com sua volta ao Rio. Da primeira vez em que foi solto, Girão foi impedido de retornar ao Estado por causa das ameaças que fazia a seus desafetos locais. O advogado Leandro de Andrade Meuser, que representa Girão, não foi localizado para falar sobre o benefício concedido a seu cliente e para dizer o que fazia o ex-vereador na noite de quarta-feira enquanto Marielle e Marcelo da Mata eram executados.

Ei, Al Capone

Além de ter sido condenado por formação de quadrilha armada e lavagem de dinheiro, o ex-vereador ainda responde, na Justiça Federal, a um processo de execução fiscal por sonegação de impostos desde 2015. A Receita tenta recuperar cerca de R$ 1,1 milhão.

Cumprindo pena em liberdade, o réu é obrigado a fornecer endereço à Justiça. Mas um documento de 8 de novembro do ano passado mostra que Girão não foi encontrado para ser citado no processo. O andamento foi suspenso por um ano. Se ele não for localizado, segundo a decisão, o caso será arquivado.

Documento da Justiça Federal mostra que ex-vereador não foi localizado em processo por sonegação de impostos

Documento da Justiça Federal mostra que ex-vereador não foi localizado em processo por sonegação de impostos.

Foto: Reprodução

Será que a Justiça vai procurá-lo na Câmara?

Parte 2

Essa é a história dos três crimes que Marielle Franco denunciou antes de morrer

Entre em contato:

Sérgio Ramalho

Ruben BertaRubenberta1@​gmail.com

Deixe um comentário
Leia mais

quem matou eduardo, matheus e reginaldo?

Essa é a história dos três crimes que Marielle Franco denunciou antes de morrer

Ilustração: Pedro Franz

Os responsáveis por matar Marielle Franco não queriam se livrar de uma vereadora de 38 anos que dedicava seus dias ao expediente político. O desejo dos assassinos era o de silenciar uma ideia. Marielle foi morta à noite, em uma emboscada, sem poder de reação, o modo covarde como se mata nas favelas do Rio de Janeiro e do Brasil, lugares onde as cartas não chegam, a luz falha, a água é suja, as escolas fecham ao som de tiros e o Estado é um tanque de guerra com licença para matar o qual chamam de Caveirão.

Dias antes de ser executada, Marielle Franco denunciou o assassinato de três homens – jovens e de periferia –, parte grande do estereótipo dos corpos que enchem os cemitérios do país. “Foi um recado”, era uma das frases que mais se ouvia entre as pessoas que, ainda estarrecidas, lotaram o Centro do Rio, na quinta-feira, em vigília e protesto. Mas que recado? O que queriam dizer os assassinos de Marielle? A quem eles se dirigiam? “Não ousem mexer nas estruturas”, eles sussurravam.

Não se sabe ainda se a execução de Marielle foi motivada pelos crimes que ela denunciou – dois deles na área do 41º Batalhão de Polícia Militar e seu histórico de terror.

The Intercept Brasil formou um time de quatro jovens jornalistas – Bruna, Carolina, Juliana e Yuri – para contar as histórias de Eduardo, Matheus e Reginaldo. É irrelevante o que a conclusão policial dirá sobre a relação da morte de Marielle com sua pressão pela investigação desses casos. Porque esses assassinatos, tendo policiais como suspeitos, continuam sem solução.

Marielle se foi, mas a pressão para que esses – e todos os outros jovens de periferia – tenham respostas não pode parar. A ideia de que é impossível enfrentar o crime organizado sem usar armas é errada. A ideia de que é impossível ter liberdade nos subúrbios do Brasil é velha e errada. Uma mulher, sozinha, talvez não possa peitar os senhores da guerra. Mas uma multidão pode.

3-1521266962

Ilustração: Pedro Franz

Matheus Melo Castro, 23 anos – morto dia 12 de março

Era um trajeto curto e de rotina. Terminada a reunião da última segunda-feira na Igreja Evangélica Missão da Fé, em Manguinhos, Matheus, auxiliar do pastor, subiu em sua moto – comprada com o salário que ganhava como agente de coleta seletiva – e levou a namorada para casa, no Jacarezinho. As duas comunidades são separadas apenas por uma avenida. Eram cerca de 22h quando, ao voltar para casa, ele cruzou com uma patrulha da Polícia Militar. Vizinhos disseram que os policiais “revistavam menores de idade”. Segundo a família de Matheus, a patrulha não deu ordem de parada. Ele passou pela blitz, mas poucos metros à frente foi atingido por dois tiros, um no braço esquerdo, outro no tórax.

Matheus caiu. Os policiais o observaram à distância como se fosse uma caça abatida. Não prestaram socorro. Ferido mas ainda vivo, ele foi amparado por usuários de crack que frequentam ruas próximas. Confusos, eles decidiram colocar o estranho em um carrinho de mão e sair em disparada pela movimentada Avenida Dom Hélder Câmara até chegar à Unidade de Pronto Atendimento de Manguinhos.

A cena foi vista por motoristas que passavam pela via naquela noite. A notícia se espalhou e, entre amigos e familiares, mais de cem pessoas se amontoaram em frente à UPA para uma vigília. Muitos deles eram do grupo de moças e rapazes que havia se reunido na igreja minutos antes para cantar e rezar. O “refúgio jovem”, como são chamados esses encontros, foi liderado por ele naquela noite. Matheus Melo Castro chegou a ser atendido, mas não resistiu.

“Foi cruel. Ele passou e eles metralharam”, disse uma de suas tias. “O pior é que não socorreram. Quem socorreu foram os ‘crackeiros’ que estavam ali perto e o carregaram para a UPA. Se ele fosse bandido os PMs teriam capturado e feito a segurança no hospital. Mas como era qualquer um, atiraram e foram embora como se fosse ninguém”, desabafou uma prima. Todos têm medo de falar.

Uma desculpa oficial e corriqueira da Polícia em casos como esse, emitida sempre em notas curtas à imprensa e que por regra não dizem nada, é que são mortes colaterais, vítimas azaradas da troca eterna de tiros entre mocinhos e bandidos. Moradores de Manguinhos disseram que no momento da execução de Matheus não havia confronto na comunidade. Horas depois, entretanto, foi possível ouvir disparos.

Familiares garantem que o tiroteio tardio foi uma tentativa de justificar a morte de Matheus como mais uma vítima de bala perdida. Uma cortina de fumaça. A polícia disse que a base da Unidade de Polícia Pacificadora do bairro foi “atacada por criminosos”, por isso o revide. De madrugada, um ônibus foi incendiado na Avenida dos Democráticos, via que dá acesso à comunidade. Tudo ocorreu a poucos metros da Cidade da Polícia, localizada exatamente na Avenida Dom Hélder Câmara, entre Manguinhos e Jacarezinho. O incêndio, assim como as circunstâncias da morte de Matheus, permanecem em uma das tantas “investigações sob sigilo” que adormecem nas delegacias do Rio.

A família se sente ameaçada e, aconselhada por vizinhos, cogita sumir do bairro. Matheus era conhecido da comunidade e não tinha nenhuma ligação com o crime. Uma vítima incômoda com uma família determinada nos calcanhares de seus assassinos: apesar do medo, eles pretendem processar o Governo do Estado e já começaram uma investigação paralela para descobrir quem deu os tiros.

Junto com advogados, querem buscar as câmeras de trânsito do Centro de Operações da Prefeitura para tentar encontrar os últimos minutos de Matheus com vida e seu assassino. O sistema de segurança da Sociedade União Internacional Protetora dos Animais, localizada na rua, também pode ajudar.

Questionada sobre o estado das investigações, a assessoria da Polícia Civil afirmou às 10h21 da manhã de quinta, via e-mail, que “estão em andamento e, no momento, não há novidades para divulgar sobre o caso.”

A Coordenadoria de Polícia Pacificadora disse que abriu “uma averiguação sumária” para descobrir se os assassinos são policiais de alguma UPP. Por telefone, nos disse que a sindicância interna, sigilosa, teve início no dia seguinte ao crime. Não confirmou se havia, de fato, uma viatura no local em que Matheus foi morto. “Ainda que tivesse, não necessariamente era de UPP. Poderia ser de um batalhão da PM ou da Polícia Civil”, disse, no jogo de empurra-empurra. O procedimento é apenas uma averiguação, não um inquérito. Portanto, não resulta em acusações.

“Mais um homicídio de um jovem pode estar entrando para a conta da PM. Matheus Melo estava saindo da igreja. Quantos mais vão precisar morrer para que essa guerra acabe?”, twittou a vereadora Marielle Franco, na terça-feira. No dia seguinte, sob hinos de louvor e gritos por justiça, ele foi enterrado no Memorial do Carmo, no Caju, Zona Portuária. Horas depois, Marielle foi assassinada.

2-1521267456

Ilustração: Pedro Franz

Eduardo Ferreira, 39 anos, e Reginaldo Santos Batista, idade desconhecida – mortos dia 5 de março

Moradores ouviram disparos pouco depois do nascer do sol. Naquela primeira segunda-feira de março, assim cedo, todos estranharam. Não parecia haver troca de tiros com traficantes, as bocas de fumo sequer estavam abertas. Depois que os fuzis silenciaram, um pequeno grupo de vizinhos decidiu investigar. Encontraram dois corpos em uma zona de mata rala próxima ao Rio Acari.

O primeiro estava de bruços, bermuda e camisa, os olhos fechados. Os moradores decidiram puxá-lo pelas pernas e resgatá-lo de um leve declive até posicioná-lo de modo que pudesse ser reconhecido. Nessas horas ninguém espera pela perícia, que pode levar horas, para ver se o morto é um conhecido ou um parente. Mais tarde se soube que era Eduardo Ferreira, de 39 anos.

O outro estava alguns metros adiante, em uma descida um pouco mais íngreme. Reginaldo Santos Batista, que não teve a idade descoberta, precisou ser içado pelo grupo. “Aqui desde criança a gente aprende a içar um corpo. Vocês sabem o que é isso? Acho que não, né?”, disse uma das pessoas. A Delegacia de Homicídios só o recolheu por volta das 19h, já noite, com a ficha de identificação: homem negro, forte, de feições marcadas e cabelo raspado.

As circunstâncias das duas mortes ainda são misteriosas. Testemunhas oculares contaram que um grupo de policiais estava escondido na mata da favela e que teria abandonado os corpos antes de desaparecer. No Facebook do 41º, o mais letal da cidade, nada. O batalhão posta diariamente sobre suas ações, mas não há postagens sobre ocorrências no dia 5. Somente nos dias 4 e 6. No twitter da PMERJ também não há registros sobre a Favela do Acari.

Eduardo tinha uma companheira e era morador de Acari desde pequeno. Deixou dois filhos. Sua família – mãe, irmãos e primos – são todos evangélicos e todo mundo é de Acari. Era um trabalhador autônomo, que, dizem os amigos, “estava sempre trocando ideia” com os moradores da região. “Ele era muito na dele. Meio tímido. Lembro que ele falava para eu tomar cuidado pela região. Se preocupava com os moradores”, disse uma moradora.

Sobre Reginaldo, pouco se sabe. Ninguém reclamou publicamente o corpo.

Questionada, a Polícia alegou que não estava sabendo de operação no momento. Algumas horas depois, mandou uma nota por e-mail na qual dizia que os policiais do 41º BPM estavam em patrulhamento para “coibir o comércio de drogas, roubo de veículos e prender criminosos”. Disse também que tinha prendido um bandido, apelidado de Timbau, que estaria com um rádio transmissor.

Depois daquele dia, durante toda a semana, houve tiroteio todos os dias.

No sábado seguinte, uma moradora estava indo buscar doações perto da região de Piracambu, onde fica a associação de moradores da favela Acari, quando ouviu disparos. Olhou para os lados para ver se tinha algum traficante em confronto ou alguma boca de fumo aberta, mas era cedo e estavam todas fechadas. Os policiais, segundo ela, estavam “atirando a esmo, fora da viatura”. ”Me escondi junto com outra moradora. Olhava para os lados e não entendia porque eles estavam atirando. Não tinha nada. Só morador na rua”, falou. Eram 8h da manhã.

”Quando deu umas 13h, voltei lá no mesmo local e a quantidade de policiais tinha aumentado e eles continuavam atirando. Foi quando dois caveirões da Polícia entraram na favela”, contou. Outros moradores mandaram mensagens de áudios para alertar quem estava pela favela. ”Meu deus, muito tiro aqui. muito tiro”, disse um. Outra, quase chorando, disse: “Gente, eu tô com muito medo. Medo mesmo. Eles estão na frente da minha casa”. “Os caras estão esculachando morador. É muito tiro na casa dos outros. Isso não está certo. Em pleno sábado?”, respondeu outro.

Marielle denunciou a ação da Polícia naquele mesmo sábado. Escreveu no Facebook: “Precisamos gritar para que todos saibam o está acontecendo em Acari nesse momento. O 41° Batalhão da Polícia Militar do Rio de Janeiro está aterrorizando e violentando moradores de Acari. Nessa semana dois jovens foram mortos e jogados em um valão. Hoje a polícia andou pelas ruas ameaçando os moradores. Acontece desde sempre e com a intervenção ficou ainda pior. Compartilhem essa imagem nas suas linhas do tempo e na capa do perfil!”

Parte 3

Outro miliciano de CPI na qual Marielle Franco trabalhou esteve na Câmara – horas antes do crime

Entre em contato:

Leandro Demorileandro.demori@​theintercept.com@demori

Carolina Mouracarolinarmmoura@​gmail.com

Juliana Gonçalvesjuliana.goncalves@​theintercept.com@jollyxx

Yuri Eirasyuri_eiras@​yahoo.com.br@eirasyuri

Bruna de Larabruna.delara@​theintercept.com@delarabru

Deixe um comentário
Leia mais

As visitas de milicianos à Câmara de Vereadores do Rio de Janeiro às vésperas do assassinato de Marielle Franco não se limitaram à presença do ex-vereador Cristiano Girão Matias, como revelou com exclusividade The Intercept Brasil na última semana. Ao analisar imagens de câmeras internas de segurança, agentes da Delegacia de Homicídios detectaram que – poucas horas antes do assassinato de Marielle – ao menos mais um paramilitar esteve no sétimo andar do prédio, o mesmo frequentado por Girão.

O suspeito é um ex-policial militar e tem outras semelhanças com Girão: ele também foi indiciado na CPI das Milícias – na qual Marielle trabalhou ao lado do deputado Marcelo Freixo em 2008 – e também frequentou o andar do gabinete do político Zico Bacana, atual vereador pelo PHS e outro indiciado na mesma Comissão.

A participação de paramilitares no crime é uma das principais linhas de investigação da Polícia Civil.

Usando um cordão grosso no pescoço e um relógio dourado, o ex-PM – cuja identidade permanece em segredo – estava acompanhado de outros dois homens. Todos foram ao gabinete do vereador Zico Bacana. Os investigadores agora buscam imagens de câmeras dos arredores do prédio para mapear o caminho percorrido pelo trio até o carro usado por eles naquela tarde. A hipótese é de que a placa – ou ao menos o modelo – sejam os mesmos usados na execução de Marielle e do motorista Anderson Gomes horas depois.

Ação de profissionais

Dois veículos foram usados pelos matadores na tocaia à vereadora do PSOL. Um Cobalt prata – que ficou por quase uma hora parado próximo à Casa das Pretas, onde Marielle participou de uma reunião antes de ser morta – e um Renault Logan. Ambos estavam com placas clonadas, o que levou a investigação, nesta pista, a um beco sem saída.

As precauções tomadas pelos matadores e os tiros certeiros na cabeça de Marielle reforçam a suspeita da participação de pessoas treinadas em perseguição, emboscada e disparo de arma de fogo. Não eram criminosos comuns. Marielle vinha criticando as mortes em ações da PM, especialmente em Acari e no Jacarezinho, o que reforça a linha de investigação.

Espingardas, pistolas, metralhadoras e fuzis

Jair Barbosa Tavares, o Zico Bacana, como é conhecido, é um ex-cabo da Polícia Militar eleito em 2016. Ele foi apontado no relatório da CPI das Milícias como um dos líderes de um grupo criminoso formado por “policiais militares, bombeiros, ex-marginais, vigilantes e civis”.

O grupo fazia dinheiro com cobrança por segurança dos moradores e do comércio, gás, sinal de TV a cabo, internet, cópia de chaves, garrafão de água, barraca de vendedores, taxa de 10 % a 50 % na venda de imóveis e taxa para produção de documentação na associação de moradores, onde os chefes se reuniam. Um sistema muito semelhante às máfias globais, sobretudo as italianas.

Para impôr domínio territorial em bairros da Zona Norte do Rio, o grupo praticava ameaças, assaltos, agressões, tortura, expulsão de moradores e assassinatos, usando espingardas, pistolas, metralhadoras e fuzis.

Ascensão e queda… e ascensão

A CPI das Milícias apresentou seus resultados há uma década. Depois de um período de relativa calma no legislativo do Rio, a presença de paramilitares listados entre os 226 indiciados no relatório final é especialmente preocupante e pode representar uma retomada do avanço do crime.

Antes da investigação presidida pelo deputado Marcelo Freixo, os irmãos Jerônimo Guimarães Filho, o Jerominho, e Natalino Guimarães, eleitos, respectivamente, vereador e deputado estadual, eram os principais representantes da bancada no Estado.

Natalino e Jerominho abriram caminho para outros representantes acusados de envolvimento com milícias, entre eles o vereador Josinaldo Francisco da Cruz, o Nadinho de Rio das Pedras, do DEM, assassinado em junho de 2009 com mais de dez tiros, poucos meses após ter sido indiciado na CPI. O relatório final também citou a então vereadora Carmen Glória Venâncio Guimarães, a Carminha Jerominho, do PTdoB – filha de Jerominho.

Além dos políticos, o relatório listou 67 policiais militares, oito policiais civis, três bombeiros, dois agentes penitenciários, dois militares das Forças Armadas e 130 civis. Após a aprovação na Assembleia, a peça foi encaminhada aos Ministérios Públicos estadual, federal e eleitoral, à Polícia Civil e à Polícia Federal. Vários foram condenados.

“Não estava lá”

Se, segundo as investigações, o ex-PM que esteve na Câmara no dia da morte de Marielle foi ao gabinete de Zico Bacana, Cristiano Girão, no dia 7 de março, teria estado também na sala do emedebista Chiquinho Brazão, que tem forte votação em área de milícia. Procurado pela reportagem, Brazão disse que não estava em seu gabinete naquele dia. O vereador, contudo, não nega a suposta ida de Girão à sua sala:

“O gabinete é um espaço público e pelo que li na imprensa, ele (Girão) informou na recepção que iria ao gabinete da presidência da Casa. Se a [Delegacia de Homicídios] tem as imagens vai poder comprovar que não estive no gabinete nesse dia. Por isso, não posso responder sobre o caso”.

O vereador Chiquinho Brazão é irmão do ex-deputado estadual e conselheiro do Tribunal de Contas do Estado Domingos Brazão, preso pela Polícia Federal na Operação Quinto de Ouro por suspeita de corrupção.

Em nota, a assessoria de imprensa da Câmara informou que o presidente, Jorge Felippe, vem colaborando com as investigações, inclusive, autorizando a entrega de vídeos registrados pelo circuito interno de segurança.

Já Zico Bacana não respondeu.

 

Erramos: Ao contrário do que afirmamos anteriormente, não podemos dizer que Cristiano Girão Matias entrou no gabinete do vereador Zico Bacana, mas apenas que ele esteve no andar do referido gabinete. Informação corrigida às 11h32 da manhã do dia 22 de março de 2018.

Parte 4

Exclusivo: as milícias assumiram o controle do Rio de Janeiro

Entre em contato:

Sérgio Ramalho

Leandro Demorileandro.demori@​theintercept.com@demori

Deixe um comentário
Leia mais

Tá tudo dominado

Exclusivo: as milícias assumiram o controle do Rio de Janeiro

Montagem: The Intercept, Imagem: Vanderlei Almeida/AFP/Getty Images
Montagem: The Intercept, Imagem: Vanderlei Almeida/AFP/Getty Images

Um funk que viralizou em 2012 foi o prenúncio do que aconteceria ao Rio de Janeiro de hoje: “A cidade é nossa! Tá tudo dominado! Eu sou do bonde do Morcego!” A letra, que enaltece a poderosa Liga da Justiça – grupo criminoso comandado por Ricardo Teixeira da Cruz, o Batman – já antevia o tamanho que as milícias teriam no jogo de tabuleiro do poder paralelo da cidade. Na metrópole do Rio, os grupos comandados por policiais, bombeiros, vigilantes, agentes penitenciários e militares, fora de serviço ou ainda na ativa, aterrorizam a população mais do que os históricos senhores do tráfico como o Comando Vermelho.

Um levantamento inédito feito pelo The Intercept Brasil, com base em informações obtidas com exclusividade do Disque Denúncia, mostra que, das 6.475 ligações anônimas que o serviço recebeu em 2016 e 2017 – referentes às atividades de traficantes e paramilitares na capital –, 65% delas denunciam milicianos. Como não há dados sistematizados pelo governo sobre o avanço das milícias no Rio, o volume de denúncias – analisadas por palavras-chave – são o mais forte indicativo dos caminhos do crime organizado.

Principais suspeitos da execução da vereadora Marielle Franco, os paramilitares se alastram pelas zonas ainda não colonizadas por traficantes explorando um modelo de negócios baseado em extorsão e exploração clandestina de serviços como gás, luz, televisão a cabo e as vans do transporte alternativo. Quando encontram bocas de fumo, eles avançam a golpes de metralhadora.

Nascidos no vácuo do poder público em meados dos anos 2000 sob a aura de proteção das comunidades contra o tráfico, os grupos de “autodefesas comunitárias” foram apoiados e encorajados por governantes, cresceram e se tornaram o que vemos hoje: políticos e empresáriosconcorrência que bate de frente com as facções de traficantes pelo controle de uma mina de ouro, as “prefeituras” dos bairros. Tudo isso ao custo de muito sangue. Os “seguranças comunitários” se tornaram, também eles, senhores da vida e da morte.

A semente plantada frutificou. Dentre os dez bairros da região metropolitana com maior número de denúncias nesse período, apenas um não fica na cidade do Rio – Cabuçu, em Nova Iguaçu, na Baixada (9º lugar). Os demais mostram como os milicianos estão sufocando os traficantes na capital: Campo Grande, Santa Cruz, Jacarepaguá, Sepetiba, Guaratiba, Taquara, Cascadura, Praça Seca, Paciência e Bangu. Destes, apenas o bairro de Cascadura não se situa na Zona Oeste da cidade. É lá reduto por excelência inclusive de políticos eleitos na cidade.

Milícia is the new tráfico

“Na esquina da Rua X com Rua Y, no Morro do Abacatão, localiza-se um comércio chamado W, onde podem ser vistos, nos finais de semana, os dois filhos do miliciano morto em 2016, de vulgo Azul, os quais estão tentando implantar o tráfico de drogas na localidade com o apoio de traficantes do Morro X”. Era fim da manhã de 17 de março de 2017 quando o Disque Denúncia recebeu a informação de que milicianos estariam instalando bocas de fumo.

Há uma década, usar drogas em áreas de milícia era terminantemente proibido, para “proteção das criancinhas“. Mas as milícias – que vendiam favelas de “porteira fechada” – hoje também vendem drogas e são concorrentes do tráfico. Dependendo da estratégia do negócio, até alugam bocas de fumo de traficantes.

A história não morreu com Jorge Luiz Braga Antunes, o paramilitar conhecido como Azul. A batalha que ilustra bem esse cruzar das linhas continuou matando.

Quarenta quilômetros longe dali e um ano antes, na zona norte do Rio, a coisa já não era diferente. “Na avenida citada, próximo a um mercado, localiza-se o bar, onde frequentemente, na parte da tarde, pode ser encontrado o miliciano que atua na área de jogo do bicho, extorsão de comerciantes e tráfico de entorpecentes. O citado costuma andar armado, junto com outros milicianos. Ele paga propina para um policial conhecido como Y, que ele chama de ‘sócio’. Ele pode também ser encontrado na Rua X, número 00, Bairro Z, casa de seus familiares”. O telefonema ao Disque Denúncia veio de Deodoro, bairro de classe média baixa que também parece ter dono.

Como essas, há outras dezenas de informações sobre milicianos-traficantes – ou vice versa – recebidas pelo serviço nos últimos dois anos.

Minha Casa, Minha Milícia

Os milicianos ganharam um forte impulso em meados dos anos 2000, quando cresceram exponencialmente, chegando ao ponto de dominar conjuntos habitacionais inteiros do programa federal Minha Casa, Minha Vida. No processo, eliminaram adversários políticos e quem mais estivesse pela frente, um a um.

“O policial faz vista grossa no momento da invasão, se ausentando do local. Depois que a milícia se instala, o policiamento retorna, desta vez para impedir o retorno dos traficantes. Este é um fenômeno que vem de dentro do poder” disse o então comandante do Bope, coronel Mário Sérgio de Brito Duarte, ainda em 2006. Para ele, a expansão desses grupos só era possível com apoio da população e a participação de parcela das unidades policiais dessas regiões.

Os paramilitares, que eram considerados um mal menor, utilizados informalmente (mas publicamente) como estratégia de combate ao tráfico, se tornaram o maior problema da segurança pública do Rio de Janeiro. Ainda assim continuam sendo tratados como colaterais aos traficantes, ganhando cada vez mais dinheiro e espaço para crescer. E matando muito.

Nesta época, uma favela dominada pelo tráfico era tomada por uma milícia a cada 12 dias. Coordenadas por agentes de segurança pública, políticos e líderes comunitários, como apontou relatório elaborado pelo Gabinete Militar da prefeitura do Rio. Era o início de uma época de ouro.

Naquele 2006, a Subsecretaria de Inteligência da Secretaria de Segurança revelou que, em apenas 20 meses, o número de comunidades dominadas por milícias havia saltado de 42 para 92. Hoje, há milícias em ao menos 37 bairros e 165 favelas da Região Metropolitana. Cerca de dois milhões de pessoas vivem em áreas dominadas por milícias na região metropolitana do Rio, o equivalente a um sexto da população total da área.

UPP: paz para crescer

Se a capital do estado concentrou quase 70% das denúncias sobre milícias, a Baixada Fluminense, onde há uma década os milicianos eram raros, já responde por 30% delas. Dentre os municípios dessa região, Nova Iguaçu lidera, com folga, o preocupante ranking, acumulando 745 denúncias no período estudado, ou seja: 39% do total de denúncias sobre milícias na Baixada. A cidade ainda se destaca por, assim como a capital, apresentar mais denúncias relativas às milícias do que de facções do tráfico (76%), seguida por Itaguaí e Seropédica, também na Baixada Fluminense, respectivamente 67% e 99%.

O único projeto de segurança pública implantado pelo governo do estado nos últimos anos, as Unidades de Polícia Pacificadora, deixaram territórios livres aos paramilitares. Com exceção da UPP Mangueirinha, em Duque de Caxias, todas as unidades ficam na capital – nenhuma delas em área de milícia. “Não existe poder paralelo”, diz José Cláudio Souza Alves, autor do livro “Dos Barões ao Extermínio: a História da Violência na Baixada Fluminense”, sobre a atuação das milícias na região. “Além de serem compostas em grande parte por agentes públicos de segurança, elas já elegem vereadores, deputados, comandam secretarias de governo. É parte do poder legalmente constituído.”

Este poder tem forte impacto na Baixada Fluminense, região com histórico de violência há décadas. Com as UPPs concentradas na cidade do Rio, os traficantes migraram para a Baixada, onde disputam as mesmas áreas das milícias. Um caldeirão de violência como o Rio jamais viu.

“Foi criado um cenário ainda mais grave de assassinatos por causa das disputas entre tráfico e milícia. O efeito das UPPs é o de reconhecimento da Baixada como uma grande área de fronteira que permite uma recomposição do tráfico”, explica Souza.

Os números são realmente alarmantes. Na capital, a taxa de letalidade violenta – que inclui homicídios dolosos, roubo seguido de morte, lesão corporal seguida de morte e mortes em confronto com a polícia – vem crescendo nos últimos 3 anos. Saltou de 24.1 para cada 100 mil habitantes em 2015 para 32.5 apenas dois anos depois, segundo o Instituto de Segurança Pública. Na Baixada, em 2015, a taxa era de 45.4 para cada 100 mil habitantes. Em 2017, atingiu 60.6.

E essas mortes têm instrumento determinado. Em 2016 – últimos dados disponíveis – 79% das vítimas de mortes intencionais na Baixada foram por armas de fogo. Número que ultrapassa a média do estado, de 74%.

A virada: só no sapatinho

Os grupos paramilitares chamaram atenção popular em 2008, depois da tortura de jornalistas do Jornal O Dia cometida por milicianos do Batan, em Realengo, zona oeste da cidade. “Isso deflagrou uma reação da mídia e da sociedade. A partir daí, a Assembleia Legislativa aprovou a CPI sobre o tema, que despertou a atenção pública para a gravidade do problema e acusou mais de duas centenas de pessoas de pertencerem a essas organizações”, afirma Thais Duarte, uma das autoras do livro “No Sapatinho”, que analisou a ação das milícias no Rio no período.

Como quase tudo no Rio, essa atenção durou pouco. “Como no Rio de Janeiro, a figura do ‘inimigo’ costuma pairar em torno do traficante de drogas e não necessariamente de outros tipos de criminosos, a ação do Estado se pauta muito mais pela lógica da guerra às drogas, ao invés de se ater em profundidade a outras questões”, explica a autora. “As ações não foram desmobilizadas, mas perderam força em relação ao momento da realização da CPI das milícias na ALERJ.”

A makeshift memorial is pictured during a protest of Brazilian expats against the killing of Rio de Janeiro's left councilwoman and activist Marielle Franco in Berlin, Germany on March 18, 2018. Marielle Franco, who criticised openly racism and police brutality, was shot with his driver Anderson Pedro Gomes in the city center of Rio de Janeiro in the evening of March 14, 2018. (Photo by Emmanuele Contini/NurPhoto/Sipa USA)(Sipa via AP Images)

Investigações sobre a execução de Marielle Franco, há três semanas, não caminharam.

Foto:Emmanuele Contini/NurPhoto/Sipa USA

A vereadora Marielle Franco – executada com o motorista Anderson Pedro no dia 14 de março – trabalhou exatamente nesta CPI, com o deputado Marcelo Freixo. Com o fim dos trabalhos e uma faxina inicial aparente, pouco ou nada mudou no modo como o poder público atua. Enquanto milicianos voltaram a frequentar os palácios do poder, Freixo, ameaçado de morte, segue até hoje com escolta policial. E Marielle foi morta, ao que tudo indica, por esse mesmo poder.

“A repressão estatal não conseguiu desarticular as milícias, apenas enfraquecê-las. A evolução mais marcante da operação das milícias diz respeito à crescente discrição e sigilo das suas atividades, que contrastam com a ostentação de anos anteriores e que dificultaram as investigações e as prisões dos seus membros”, explica Thais Duarte. “No sapatinho” foi, justamente, a expressão mais utilizada pelos entrevistados da pesquisa, lançada em 2012, para se referir ao novo estilo de atuação dos paramilitares.

Ano eleitoral. Ano próspero.

Agora “no sapatinho”, antes, ostentação. Para eleger a candidata a vereadora Carminha Jerominho em 2008 – filha e sobrinha dos milicianos Jerônimo Guimarães Filho, o Jerominho, e Natalino Guimarães, ambos presos –, a milícia matou, de uma vez, sete pessoas na Ilha do Governador. O objetivo era fingir que o ataque foi de traficantes, espalhar medo, e assim, reconquistar apoio no Morro do Barbante. Cinco testemunhas foram posteriormente caçadas e mortas.

Carminha estava presa quando recebeu a notícia de que tinha sido eleita. Dias depois, saiu da cadeia e foi recebida calorosamente ainda no aeroporto. Chegou a ser empossada, mas teve o mandato cassado seis meses depois por irregularidades na prestação de contas da campanha. Caiu em uma desgraça que pouco durou. Depois de ser rejeitada até pelos próprios pares, nas últimas eleições ela botou a cara no sol mais uma vez. A ex-vereadora desafiou Freixo e apoiou seu concorrente à Prefeitura do Rio, o pastor Marcelo Crivella, que agradeceu: “todo apoio é importante“.

Desde a morte de Marielle Franco, outras duas pessoas com ligação política foram mortas no Rio com cheiro da pólvora dos paramilitares. Paulo Henrique Dourado, o Paulinho P9, era assessor de Renato Cozzolino, membro da família que é praticamente a “dona” de Magé. Ele foi executado em 20 de março. No dia seguinte, o irmão do ex-vereador Ricardo Crespo de Araújo, o Castor, foi assassinado em São Gonçalo, também região metropolitana. De acordo com moradores, ele controlava serviços de gatonet em áreas do município.

“A gente percebe que estamos em ano eleitoral quando tudo isso começa”, diz o criador do Disque Denúncia, Zeca Borges, que está em contato com o Tribunal Regional Eleitoral e o Ministério Público para repasse de informações. “Isso geralmente fica mais intenso até as convenções, mas continua até o voto”.

A CPI das Milícias provocou a prisão de alguns vereadores e deputados, mas a influência dos milicianos nas eleições não foi abalada. Só no último ano eleitoral, o Disque Denúncia recebeu 87 informações que envolviam candidatos suspeitos de associação com milícias. “De fato, sob a aura de uma pretensa representatividade em relação às comunidades das quais fazem parte, os milicianos se candidatam a cargos no Legislativo e, assim, garantem maior estabilidade, poder e legitimidade no controle local”, explica Thais Duarte, que alerta: “Isso é um ponto para ser observado em relação às eleições de 2018″.

Intervenção? E daí?

Novos territórios, ano eleitoral, paz para crescer. Suspeitas de praticar dezenas de eliminações políticas, as milícias seguem atuando sem serem incomodadas, mesmo sob a intervenção militar federal que já dura mais de um mês. As operações do Exército ignoram as áreas dominadas por paramilitares. O interventor chegou a dizer que agiria contra a corrupção na polícia, mas as visitas feitas em Batalhões focaram apenas nas condições de trabalho.

Milicianos agora agem debaixo das barbas dos militares. Alvo de disputa entre traficantes do Comando Vermelho e milícias, a Praça Seca é um exemplo disso. O bairro da zona oeste do Rio tem registrado índices de tiroteios contínuos absurdos. Só este ano já foram registrados 100 tiroteios/disparos de arma no bairro, de acordo com o Fogo Cruzado, data lab que mensura os impactos de violência armada.

“São horas de tiroteios. Porque não fazem operação aqui. Cadê o exército?”, desabafou anonimamente uma moradora, que passou cinco horas dentro do banheiro de sua casa, para se proteger, no dia 17 de março. No dia seguinte, foram mais de 13 horas de tiroteios. Uma semana depois, outras 17 horas. Sem polícia. Sem exército.

“Morei na Praça Seca por 24 anos e nunca vi a situação como está hoje. Não que não houvesse tiroteio, mas eram muito raros. De uns cinco anos pra cá, eles pioraram de intensidade e frequência”, explica uma ex-moradora do local que pediu anonimato já que hoje vive em um bairro vizinho. Frequentemente, corpos são desovados em plena luz do dia, pessoas são atingidas por balas perdidas no meio da Cândido Benício – a via expressa que corta uma praça –, tiros já atingiram até a estação do BRT. “Já faltei a compromissos por não conseguir sair de casa por causa dos tiros. Tenho amigos que perderam provas de concurso, perderam vagas de emprego por causa da violência. Tá insustentável, e o pior de tudo é que ninguém na grande mídia fala sobre o assunto”.

A situação do Rio é realmente muito ruim, e a solução apresentada – a intervenção federal de cunho militar – é apenas mais uma oportunidade de boas fotos para jornais e TVs. Crimes como assassinatos e roubos de cargas cresceram neste período, exatamente como nos últimos anos de ação das Forças Armadas.

Estes cenários não são novos e os precedentes deixam a dica de que pouco ou nada vai mudar. O interventor federal no Estado foi o coordenador da segurança na Olimpíada. Neste mesmo período, os agentes da Força Nacional que participaram do esquema de segurança dos Jogos tiveram de se submeter às ordens da milícia na Zona Oeste do Rio. Segundo alguns deles denunciaram ao Extra, eles não podiam circular armados pelo bairro Gardênia Azul e foram impedidos até de instalar internet nos apartamentos onde ficaram alojados, no condomínio Vila Carioca, do “Minha casa, minha vida”, no bairro vizinho, o Anil.

Assustador, não? O Bonde do Morcego tem razão: tá tudo dominado.

Parte 5

Polícia descobre celular do motorista do carro usado no crime de Marielle e quebra sigilo de vereadores

Entre em contato:

Cecília Olliveiracecilia.olliveira@​theintercept.com@cecillia

Maria Isabel Couto

Renata Hirota@renata_mh

Sérgio Spagnuolosergio@​voltdata.info@sergiospagnuolo

Deixe um comentário
Leia mais
Foto: Jose Lucena/Futura Press/Folhapress

As ligações telefônicas e trocas de mensagens feitas por alguns vereadores da Câmara do Rio de Janeiro no dia do assassinato de Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes estão sendo investigadas pela Divisão de Homicídios da Polícia Civil. Após a identificação do número de celular do motorista do carro usado no crime, os investigadores conseguiram na Justiça a quebra do sigilo de outros aparelhos, inclusive de integrantes do Legislativo carioca, para apurar algum possível contato nas horas próximas à execução.

Ao todo, oito vereadores já foram ouvidos pela polícia, todos, porém, na condição de testemunhas. Nesta quinta-feira, Jair Barbosa Tavares, o Zico Bacana (PHS), prestou depoimento para explicar o motivo da visita em seu gabinete, no sétimo andar da Câmara, de três homens horas antes do crime – entre eles, um ex-PM indiciado na CPI das Milícias na qual Marielle trabalhou.

Conforme The Intercept Brasil antecipou com exclusividade, os passos de integrantes de grupos paramilitares nos corredores e gabinetes do Palácio Pedro Ernesto, às vésperas dos assassinatos, vêm sendo investigados pela Polícia Civil. Na semana anterior ao assassinato, outro miliciano também esteve na Casa: o ex-vereador Cristiano Girão – condenado por chefiar uma milícia na Gardênia Azul, em Jacarepaguá.

Licença-paternidade

Com reduto eleitoral em Guadalupe, bairro sob forte influência de paramilitares, Zico Bacana, que também fora indiciado na CPI das Milícias, estava sumido da Câmara desde o assassinato de Marielle e Anderson. No dia seguinte, enquanto os corpos da vereadora e de seu motorista eram velados no salão nobre da Casa, o parlamentar comemorava, em outro extremo da cidade, o nascimento de um filho.

Na última quarta-feira, 20 dias depois do crime, Zico Bacana retornou à Câmara carregando a certidão de nascimento do bebê, para justificar as ausências nas últimas seis sessões. Logo que chegou ao plenário, foi falar com o vereador Tarcísio Motta, líder do PSOL. Na breve conversa, Bacana prestou solidariedade e se explicou dizendo que estava sumido do trabalho por conta da licença-paternidade.

As investigações do caso Marielle estão mobilizando uma força-tarefa formada por policiais da Divisão de Homicídios, seis promotores do Ministério Público estadual e juízes do Tribunal de Justiça. Um dos principais objetivos da união é exatamente agilizar a concessão dos pedidos de quebra de sigilo telefônico e de mensagens de pessoas próximas à vereadora.

No depoimento prestado nesta quinta como testemunha, Zico Bacana disse que não se lembrava da participação de Marielle na CPI das Milícias nem mantinha muito contato com a vereadora do PSOL.

Crime profissional

Marielle vinha denunciando ações da PM, que resultaram em mortes em favelas cariocas. Entre os alvos das críticas, estavam policiais do 41 BPM, de Acari, unidade onde trabalham policiais que já foram homenageados com moções pelo vereador.

The Intercept Brasil vem solicitando entrevista com o político desde o dia seguinte aos assassinatos de Marielle e Anderson. Por e-mail, o chefe de gabinete do vereador respondeu que não fazia sentido Zico Bacana falar após ter sido citado em reportagem do site:

“Acredito que esse convite deveria ocorrer antes da publicação da matéria irresponsável e inconsequente, que foi reproduzida por inúmeros meios de comunicação e que causaram prejuízo à imagem do vereador”, escreveu o assessor, ignorando que o pedido de entrevista havia sido feito antes da publicação.

Uma das principais linhas da investigação sugere a participação de milicianos na morte da vereadora. Suspeita reforçada pela forma profissional de atuação dos assassinos: seguiram a vítima; usaram veículos com placas clonadas, além de um abafador de som ao disparar os tiros com uma pistola 9 mm – todos na direção da cabeça de Marielle. As milícias se alastraram pelo Rio de Janeiro sufocando os antigos barões do tráfico de drogas e são, hoje, a força criminosa dominante na cidade.

Parte 6

Caso Marielle: execuções de suspeitos de serem milicianos podem ser queima de arquivo

Entre em contato:

Sérgio Ramalho

Deixe um comentário
Leia mais
Foto: reprodução/redes sociais

As impressões digitais de Carlos Alexandre Pereira Maria, colaborador parlamentar do vereador Marcello Siciliano, do PHS, e do subtenente reformado da PM Anderson Claudio da Silva serão comparadas com as recuperadas nos cartuchos usados na execução de Marielle Franco. Pereira, conhecido como “Alexandre Cabeça”, e Silva foram mortos a tiros nas noites de domingo e da última terça-feira, respectivamente. Ambos tinham estreita relação com as milícias que tomaram a cidade do Rio de Janeiro. Os paramilitares são a principal linha de investigação do caso.

Investigadores conseguiram extrair fragmentos de digitais dos cartuchos de pistola 9 mm encontrados no local da execução de Marielle Franco e de seus motorista, Anderson Gomes. O objetivo agora é saber se o cabo eleitoral e o policial reformado assassinados nos últimos dias tiveram participação na tocaia à vereadora do PSOL. Um eventual resultado positivo indicaria que as execuções de Alexandre Cabeça a de Silva teriam sido queima de arquivo para dificultar a identificação dos mandantes do ataque a Marielle e Anderson.

“Chega para lá que a gente tem que calar a boca dele.”

Alexandre Cabeça foi assassinado dois dias depois que o vereador para o qual ele atuava, Marcello Siciliano, depôs na Delegacia de Homicídios da Capital sobre o caso Marielle. Policiais disseram que, segundo uma testemunha, ele foi executado por um grupo armado. Antes de atirar, um dos assassinos teria gritado: “Chega para lá que a gente tem que calar a boca dele”.

Siciliano foi citado em um relatório produzido pela Secretaria de Segurança sobre a influência de paramilitares nas eleições de 2014. A Câmara de Vereadores do Rio está no foco da investigação.

Bonde dos Galáticos

O ex-policial Silva foi fuzilado dentro de uma BMW. Ele era apontado como membro da milícia autodenominada “Bonde dos Galáticos”, que mantém domínio territorial em comunidades nas zonas Norte e Oeste do Rio. Silva foi atacado por três homens. Ele chegou a reagir, disparando contra os agressores. Policiais militares abordaram um carro momentos depois do crime e prenderam o também ex-PM David Soares Batista. Ele estava ferido em uma das pernas, e alegou ter sido vítima de uma tentativa de assalto. Foi hospitalizado e permanece sob custódia.

Mais digitais

Os investigadores também estão comparando os fragmentos de digitais encontrados nos cartuchos da cena do crime de Marielle com as de parte dos 226 indiciados na CPI das Milícias. Marielle, à época assessora do deputado Marcelo Freixo, trabalhou na comissão que desestabilizou temporariamente alguns grupos paramilitares.

Desde o início das investigações quase 50 pessoas foram ouvidas, incluindo doze vereadores da Câmara Municipal do Rio. Seis deles eleitos com votos de áreas sob domínio de grupos paramilitares. The Intercept Brasil investigou e publicou com exclusividade a movimentação de ao menos dois milicianos na Casa nos dias que antecederam o crime.

No próximo dia 14, as mortes de Marielle e Anderson completam um mês.

Entre em contato:

Sérgio Ramalho

Deixe um comentário
Leia mais
Filters SVG