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Um porta-voz do Departamento de Estado dos EUA se recusou repetidas vezes a comentar sobre a crise política que está no auge no Brasil, durante a coletiva de imprensa diária de sexta-feira – em um contraste quase risível com suas longas e eloquentes críticas à vizinha Venezuela.

Quando questionado sobre o forte contraste, cada vez mais exasperado, o porta-voz do departamento, Mark Toner, respondeu: “Eu apenas – novamente, eu não tenho nada a comentar sobre as presentes dimensões políticas da crise que ocorre lá. Eu não tenho”.

Assista às respostas do porta-voz abaixo:


O Departamento de Estado norteamericano está, há muito tempo, inclinado a criticar o governo de esquerda da Venezuela, que seguiu políticas antagônicas a corporações internacionais. Em contraste, o órgão permanece silencioso sobre a tomada do poder no Brasil por um governo de direita e pró-corporações, que está fazendo da privatização de empresas estatais uma prioridade.

O bate-boca na sexta-feira começou quando The Intercept perguntou a Toner por que os EUA têm tomado parte nas críticas à recaída democrática da Venezuela, mas ignorou a crise política no Brasil, onde legisladores de direita votaram, no dia 12 de maio, pela suspensão do governo eleito e pela abertura do processo de impeachment contra a presidente Dilma Rousseff.

“Eu não estou ciente das alegações que você fez. …Nós acreditamos que [o Brasil] seja uma democracia forte”, respondeu Toner.

“Democracias fortes permitem que as forças armadas pratiquem espionagem contra oponentes políticos?”, respondemos, apontando para notícias recentes de que a nova administração está monitorando o antigo governo. Quando Toner desviou novamente, dizendo “não ter detalhes” sobre a vigilância, Matt Lee, repórter veterano da Associated Press, entrou na discussão, perguntando se o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff era sequer “válido”.

Toner continuou a se desviar, reafirmando a confiança dos EUA nas instituições brasileiras.

Porém, assim que Pam Dawkins, do jornal Voice of America, perguntou sobre a Venezuela e “o estado da democracia ali”, em meio ao adiamento de um referendo proposto para decidir sobre a saída ou permanência do atual presidente, proposto pela oposição no país, o tom de Toner mudou drasticamente.

Em uma resposta que se estendeu por dois minutos, Toner se posicionou de forma totalmente moralista, pedindo que a Venezuela respeite normas democráticas. “Nós fazemos um apelo às autoridades da Venezuela para que permitam que esse processo [de proposta do referendo] seja movido de forma rápida, e encorajamos as instituições apropriadas a assegurarem que os venezuelanos possam exercer seu direito de participar desse processo em acordo com as práticas e instituições democráticas da Venezuela e princípios compatíveis com a Carta Democrática Interamericana”.

Lee se viu obrigado a notar o contraste. “Você acabou de – essas são duas respostas muito longas, críticas, sobre a situação na Venezuela”, disse ele. “E, mesmo assim, o Brasil, que é um país bem maior e com – um país com o qual você manteve melhores relações, tem o que, duas frases?”

“Eu apenas – novamente, eu não tenho nada a comentar sobre as presentes dimensões políticas da crise que ocorre lá. Eu não tenho”.

“Mas vocês têm muito a dizer sobre a situação política na Venezuela”.

“Temos”, Toner respondeu.

“Por que isso?” Lee retrucou.

“Bom, nós apenas – nós estamos muito preocupados com a atual…” começou Toner, antes de ser interrompido por Lee mais uma vez.

“Por que vocês não estão muito preocupados com o Brasil?”, provocou Lee.

“Novamente – veja bem, eu já falei a minha parte. Quer dizer, não tenho nada a acrescentar”.

“Mesmo? Tudo bem”.

Outro repórter entrou na discussão, perguntando a Toner se a composição do novo gabinete de governo do Brasil – formado exclusivamente por homens, muitos ligados a grandes empresas no país, e que toma o lugar do gabinete liderado pela primeira líder feminina na história do país – era motivo de alguma preocupação.

“Olha, gente, eu vou checar se temos algo mais a dizer sobre a situação no Brasil”, concluiu Toner.

Rousseff e seus apoiadores chamam o impeachment de “golpe”, e múltiplos observadores internacionais questionam a legitimidade do processo, incluindo o secretário geral da Organização dos Estados Americanos (OAS), Luis Almagro, e The Economist.

Enquanto a pressão popular aumenta contra o recém-surgido governo interino de Temer, marcado por escândalos, uma votação final sobre o processo de impeachment deve ocorrer até o próximo mês.

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Traduzido por: Beatriz Felix

Foto em cima: Apoiadores da presidente afastada Dilma Rousseff protestam em São Paulo.